A password (não) é dinâmica

24 de Junho de 2016

Quando Fernando Santos fechou a porta do jogo metendo Danilo junto de William Carvalho não estava a renunciar a jogar. Estava a responder ao que o jogo pedia. O problema foi o nosso jogo ter chegado a um ponto em que uma decisão dessas fez todo o sentido!

Existe nas análises atuais à forma de jogar de qualquer equipa, uma palavra que se tornou como uma “password” para se explicar tudo aquilo que se vê e não se entende: dinâmica. Em geral, a frase é dizer que o importante é a dinâmica.

O jogo de Portugal com a Hungria (que assisti com a mesma sensação de estar a conduzir em contramão na autoestrada) foi mais um pretexto a sua utilização, mas dessa forma fica em segundo plano o que é a base para jogar bem: o “jogo posicional”, isto é, definir bem o sistema/estrutura de onde os jogadores devem começar a correr.

Ao seu estilo, João Mário foi “dinâmico” o jogo todo. Só o foi, porém, com eficácia, quando passou a enquadrar essa dinâmica numa percepção dos espaços diferente do que fizera na primeira parte. Quando surgiu a pegar no jogo mais por zonas interiores (sabendo descair no flanco quando necessário, quase em derivações de 4x3x3, como no passe/centro para o calcanhar de Ronaldo). Uma movimentação (e posição) interligada com outra rotação de saída dada por Renato Sanches desde trás.

No global, este foi, tacticamente o pior jogo de Portugal no Euro porque foi o jogo em que se mais desequilibrou defensivamente. É essa a grande vulnerabilidade do losango: o momento em que a equipa tem de defender pós-perda da bola. E repare-se que escrevi equipa. Não é só um problema da defesa ou dos defesas. É um problema do processo defensivo da equipa dentro deste sistema (na transição defensiva rápida) para o qual seriam necessárias, naturalmente, mais rotinas de jogo.

O jogo com a Croácia terá de ser trabalhado essencialmente nesse ponto: ganhar equilíbrios. Assusta Portugal ter revelado todas estas diferentes sensações no seu terceiro jogo. Quando o processo táctico (seja em que sistema fosse) deveria estar mais evoluído e solidificado, é quando vemos o onze a perder-se mais vezes em campo enquanto equipa.

Começara o jogo com quatro médios puros e mesmo assim não conseguia controlar o meio-campo. Não é pela falta de dinâmica. É pela falta de “jogo posicional”, sobretudo em reorganização, eficaz. Seguindo o jogo através encolhe e crescer de João Mário percebe-se facilmente essa causa efeito que muito tendem a inverter.

A substituição “dramática”

danilo

A titularidade de Renato Sanches é algo que ganha sentido não tanto  pelo que ele exatamente joga, mas sobretudo em face do que não está a jogar Moutinho, em sub-rendimento físico-táctico. Isto acontecer ao condutor/transportador de jogo da equipa de trás para a frente no corredor central, torna a opção cada vez mais inevitável, como Fernando Santos a teve, aliás, ao intervalo contra a Hungria.

Em 4x4x2 (losango ou clássico) ou até 4x3x3, o problema, neste ponto especifico da... dinâmica de jogo a partir daquele espaço/posição é o mesmo. Mesmo com Moutinho subido no terreno dentro do losango (dando liberdade de circulação de bola a William Carvalho como pivot) sentiu-se que a equipa não tinha controlo dos diferentes ritmos de jogo (de decidir quando acelerar ou quando abrandar). Não existem grandes equipas sem ter essa capacidade de percepção e gestão dos diferentes ritmos (quase os ditando em função do que mais precisa para controlar o jogo).

Quando Fernando Santos fechou a porta do jogo metendo Danilo junto de William Carvalho não estava a renunciar a jogar. Estava a responder ao que o jogo pedia. O problema foi o nosso jogo ter chegado a um ponto em que uma decisão dessas fez todo o sentido!