Copa América 2016: Pizzi e a “perfeição chilena”

24 de Junho de 2016

 

Como jogou o Chile (que vai defrontar a Argentina na Final da Copa América) na goleada por 7-0 ao México. Uma exibição excepcional, comportamentos mistos e grande envolvimento atacante.

Por David Guimarães

Entrou muito bem na partida, alternando circulação curta com ligações directas, esticando jogo na frente.

O golo inaugural, logo aos 15 minutos, é exemplo dessa multiplicidade de caminhos quando em organização atacante. A saída de bola entre os centrais (Jara e Medel), com a junção de Vidal (muitas vezes baixava neste momento), atraiu a pressão alta mexicana (sempre bastante desgarrada, com as linhas defensiva e média distantes dos homens da frente, que saíam disparados para desarme). Depois de alguns passes de pé para pé, Medel solicita Alexis Sánchez num lançamento comprido teleguiado. Este, aguenta a bola até aparecer a desmarcação de Aranguíz que, já dentro da área, roda e atrasa para o remate de Díaz. Ochoa defende para a frente e o médio esquerdo Puch recarrega para golo.       

Muito imaginativa a forma como Pizzi articula o funcionamento a meio campo, com o duplo pivot defensivo Díaz/Aranguíz a subir muito no terreno e a ocupare o “refúgio espacial” habitualmente de Vidal, e vice-versa.

 

Os laterais estavam sempre muito projectados, Fuenzalida (médio adaptado) na direita e Beausejour (rapidez com cruzamento na esquerda), davam sempre muita largura e profundidade à equipa.

O segundo golo, a fechar a primeira parte, nasce do excelente entendimento de Beausejour e Alexis ( que procura movimentos de perfil com o lateral), com o avançado do Arsenal a receber orientadamente para depois encontrar a frieza de Vargas (domina com os pitons do pé direito, finalização categórica com a parte interior do pé esquerdo).

Vantagem muito importante ao intervalo, justificada pelo audacioso futebol chileno, que coloca invariavelmente sete jogadores na área (ou nas suas imediações) para tentar facturar. À dupla de avançados junta-se o quarteto de médios com a companhia de um lateral em alternância.

O segundo tempo abre com o terceiro golo, machadada final no encontro. Pressão altíssima do Chile (uma constância ao longo dos noventa minutos), bloco compacto em cima da área mexicana, com os mesmos sete elementos supra citados respondendo predatoriamente ao momento da perda. Roubo de bola de Vidal a Herrera, que espera bem o tempo de passe para deixar Alexis confortável para facturar.

Nestas ocasiões, fico com a sensação de que Pizzi "elimina" os momentos de transição, conseguindo uma equipa sempre estável e igualmente posicionada quando em organização ofensiva ou defensiva, sem reajustamentos ou adaptações. Isto é a perfeição futebolística, onde, em algumas situações, se vislumbra um futebol "sem transições" tal a velocidade de (re)equilíbrios.

O resultado final acabaria numa diferença de sete golos sem resposta. Em meu entender, a equipa que melhor futebol praticou até aos quartos-de final, o México, esteve irreconhecível. Os mexicanos foram para o campo de sombrero, dormindo uma siesta de hora e meia. Quando acordaram foi um pesadelo, viram-se confrontados com uma das derrotas mais humilhantes da sua história.