A posse de bola não é um desenho redondo por todo o campo

24 de Outubro de 2014

Os golos podem nascer de uma infinita série de locais diferentes. Um remate fantástico, outro com a bola aos saltos na relva irregular, dum erro defensivo, duma grande jogada, de um penalty mal assinalado, etc. As ideias de jogo, porém, só podem nascer de um local: da cabeça do treinador. Depois, há os jogadores.

O treinador é sempre o grande responsável para que o jogo siga mais as intenções que convêm à sua equipa e, ao mesmo tempo, perturbe as do adversário. A aplicação do modelo tem ciclos de construção, mas, neste momento, o FC Porto de Lopetegui dá a sensação que essa ideia fica sempre a meio no decorrer dos jogos e trava logo no local mais ariscado: a saída de bola.

A ideia de jogo ficar presa no primeiro momento de construção (sem um pivot construtivo a sair). É clássico em muitos treinadores espanhóis desta geração. Por isso, Guardiola falou há dias no vazio do tiki-taka. O que ele queria dizer, como explicou numa entrevista recente, tem a ver como muitas vezes na intenção de exacerbar a cultura de posse e, sobretudo a circulação, a equipa passar a jogar (sair a jogar) numa espécie de “U”. Isto é, fazendo a bola circular por todos os defesas (tendo os extremos na mesma linha dos laterais) e com isso perder a referência que deve ser o jogo interior em progressão com linhas de passe construídas desde trás. Ou seja, perde-se verticalidade de posse.

O jogo interior desvanece-se numa circulação que não encontra a saída por ser feita por locais laterais onde o adversário atento fechou as faixas. Depois, basta-lhe ter superioridade numérica a meio-campo.
O início de construção de jogo do FC Porto está neste momento nesse ponto de desenho: preso num “U”. Se quando se chega a locais do relvado onde é necessário ser vertical e a equipa não o faz, todas as opções de posse anterior ficam comprometidas. Voltar para trás nessa altura pode ser o tal passe atrasado de risco (que provoca o erro). Nestas fases de construção do modelo, deve-se sempre acabar todas as jogadas no ataque. Mesmo que acabem mal.

A posse de bola não é um desenho redondo por todo o campoO Sporting fez o transfer do Dragão para a Alemanha sem mexer nos princípios e colocação mais recuada de Adrien perto de William Carvalho criando duplo-pivot a defender. A percepção de Adrien em se adiantar no terreno dá, depois, a ligação com a terceira linha do meio-campo, onde surge João Mário, um jogador que anda sempre pelos sítios certos, sem fazer barulho. É a tal ideia de jogo solidificada. A mudança conceptual mais significativa que existiu neste Sporting de Marco Silva desde o início é a troca de André Martins (médio ofensivo de ruturas) por João Mário (médio n.º 8 de temporização/passe). Mas ao ganhar uma coisa nova, não perdeu a antiga, que continua nas gavetas tácticas da sua ideia de jogo para quando for necessário.

Quando a bola vem parar aos pés de Nani, mesmo nas alturas mais tensas, dá logo a deia que a equipa está a controlar e o pode ganhar o jogo a qualquer momento. É a questão de nunca se dever desconfiar do talento. Mas os golos podem saltar por cima disto tudo, porque, nessa altura a bola já está muito distante da tal origem de problemas. E aí podem nascer da alma com que se remata. É a outra forma de treinador (dever) olhar para Quaresma numa altura em que o lado emocional (que vive ao lado do táctico) tem uma importância tão grande para a estabilização da equipa.
Tudo isto pode chocar com o berço dos golos. Os que se marcam ou sofrem. Os resultados falam mas raramente explicam o jogo.