A primeira “Mona Lisa”

11 de Junho de 2016

 

O Louvre não tem quadros de futebol. A França foi a primeira grande seleção a entrar em campo mas basta um primeiro olhar para constatar que já não tem o glamour de outrora. Á nobre “soupless” de Platini ou Zidane, o tipo de jogadores que bastava olhar para eles no aquecimento para perceber logo que são craques, deu lugar ao músculo de Pogba e Matuidi, rotação da “sala de máquinas” do meio-campo.

Quando, nessa nova “aldeia gaulesa” menos irredutível todos esperavam ver brilhar uma espécie de “Asterix de cabelo curto”, Griezmann (demasiado tempo no centro fixo junto a Giroud, quando devia antes... “aparecer” mais vezes no centro junto a Giroud, iludindo as marcações) foi outro o herói que surgiu na noite de Paris. Foi um herói improvável que encontra, aos 29 anos, um espaço na seleção que era impossível projetar-lhe ainda há pouco tempo (“há um ano não acreditava que podia estar aqui”): Payet.

Ele sempre jogou muito, mas numa versão digamos “light” do futebol francês. A última época no futebol inglês parece que transformou o ritmo biológico do sei futebol. Em 4x3x3, ele começa na esquerda, mas no jogo veste a “pele de nº10” e anda pelo campo todo, pega no inicio de construção, surge no centro ofensivo ou volta a descair para espaços vazios nas faixas.

Tem latinidade nas fintas (faz a pausa, simula e... passar) e corridas com a bola por entre defesas. A “Europa latina” continua a necessitar muito desse jogadores estilo “roda-baixa” (tem 1,74m) que resgatem o perfume do “futebol da técnica” frente ao poder da dimensão física do jogo que já não é só anglo-saxónico. Aquela velha dicotomia “futebol da técnica contra futebol da força” é uma guerra do passado. Por isso, Payet parece um jogador que veio de outra era numa “máquina do tempo. No estilo e até na imagem meio gordito.

O seu golo, mesmo a acabar, dando a vitória, foi um “quadro de futebol arte na pendurar no Louvre”. A forma como, pouco depois, substituído, saiu, com os olhos embaciados, limpando as lágrimas, foram o chamado “golo emocional” de quem sentiu que naquela noite tinha tocado a sua utopia. A “primeira Mona Lisa” deste Euro foi dele.

Como se “come a relva”?                                                                                                                                   

Entre os jogadores operários prontos para mais do que “comer a relva”, devotar mesmo todo o relvado, o romeno Pintilii foi o primeiro a destacar-se. O nº8 da seleção romena é daqueles jogadores que joga para “cumprir uma missão”. Segurar a equipa e não deixar que ela caia. Vai a todas as bolas divididas e até nas paragens de tempo (ficando mais tempo no chão após um pancada num choque e para o relógio) tem a astúcia de querer mandar no jogo.

Salvo questões estratégicas muito especificas, algumas equipas não passam a maior parte do tempo do jogo a defender por opção. É mesmo o jogo, o adversário mais forte que as obriga. A Roménia de Iodanescu (que já olhava demasiado para o relógio ao minuto 72) recuando, recuando, com o decorrer do tempo mas trazia outra intenção para o jogo.

O seu jogador mais criativo, Stanciu, teve os “seus momentos” para pintar bom futebol mas o atual futebol romeno é hoje mais expressão táctica atrás da linha da bola do que diálogos (ou até simples frases) de técnica em posse. Entre Pintilii e Stanciu está a nova Roménia. Uma boa equipa na concepção da sua realidade que a não deixa ser mais do que queria.