Olhando a “primeira volta” do Europeu

17 de Junho de 2016

Já demos uma volta inteira ao Europeu e vimos jogar as 24 seleções.

Portugal entrou sem perceber bem o que tinha pela frente no plano e na capacidade de executar rápido da competitiva Islândia (um onze frio que soube abrir-se e fechar-se quando era preciso no jogo). No nosso onze, confirmou-se os piores receios sobre o estado de baixa-rotação do nosso motor de jogo central: Moutinho. A sua rotatividade a conduzir (organizando) a bola/jogo para a frente é indispensável no corredor central, sem médio-ofensivo por natureza do nosso 4x4x2 clássico. Sem ele, abriu-se um “buraco” no meio (que a entrada de Renato Sanches tentou colmatar). Sem efeito porque os problemas já eram, então, mais globais.

A Alemanha foi quem transmitiu o maior poder de força, musculado, táctico e técnico, personificado no estilo de Kroos, que mescla estes três factores em qualquer local ou momento do jogo. Apesar desta expressão arrogante de futebol germânico, também surgiram os “baixinhos” para brilhar. Payet, na França (com fintas, recepções, e um golo para o Louvre), Modric, na Croácia (eléctrico a conduzir desde trás como um "8" regista) e Iniesta, na Espanha (ocupando a velha “casa táctica de Xavi”, rendilhando jogo e fazendo do passe a arte para o golo).

 

Na dimensão táctica, o 3x5x2 (ou 5x3x2) da Itália de Conte, que na forma de jogar, será melhor traduzido, em vez do sistema, pela frase, “onze jogadores sempre onde a bola estava mais rápidos e agressivos” . Na base, três centrais que jogam de “olhos fechados” (Barzagli-Bonucci-Chiellini) e a trincheira defensiva, com uma aperante “saída secreta” para o contra-ataque, que confundiu o maior talento da Bélgica.

Quase formando uma casta competitiva à parte, o grupo das equipas britânicas: a Inglaterra puxou Rooney para o meio-campo, mas o seu melhor futebol só durou “meio-jogo” (o tempo que durou Dele Alli) e entre os “pequenos sonhadores”, a raça ordenada de Gales (que a defender é um onze sem Bale) e a pressão constante com que a República da Irlanda (belo jogo de Hendrick) coloca os adversários (no primeiro jogo foi o nariz no ar de Ibrahimovic). Foram as melhores expressões dessa emocional “ilha de futebol” neste Euro.
Com os cabelos em pé!

Começou por ser um triângulo a pressionar para atacar. Acabou a ser um triângulo a organizar-se para defender. Assim se explica o posicionamento e comportamento do meio-campo da Eslováquia (Pecovsky, a trinco, Kucka-Hamsik, interiores) frente à Rússia de jogo mais direto. Cada atitude táctica teve o seu tempo e utilidade no jogo, seguiu a sua lógica (e resultado), mas foi no primeiro momento que se viu a melhor face deste trio, com Pecovsky (que surgiu no lugar de Hrosovsky, melhor distribuidor), o “trinco guarda-costas”. Mesmo nesses momentos, porém, Hamsik assumiu-se como primeiro construtor (recuava para nº8 lançador de jogo, como no passe para o 1-0) e médio ofensivo mais criativo (como no remate-bomba para o 2-0). Nas alturas em que toca na bola até parece que pará o jogo e logo de seguida o coloca mais... rápido. Duas sensações tão antagónicas como complementares no jogo de um jogador que lê o jogo completo sempre que levanta a cabeça e olha à sua volta. Tem a rotatividade posicional certa a avançar, recuar e a fazer a pausa para pensar e orientar a equipa. Um craque em estado puro deste Europeu.