A Profecia de “Cajudix”

25 de Janeiro de 2008

A Profecia de Cajudix

Parecem mundos paralelos. Existe o futebol português dos “três grandes”.

E existe o futebol português de todas as outras equipas. Historicamente de nariz no ar, Benfica, FC Porto e Sporting criaram quase uma ilha competitiva à parte que, ao longo dos tempos, raramente admitiu passageiros clandestinos. Eles monopolizam os jornais, a televisão e as discussões de café. Em qualquer cidade. Mesmo naquelas onde há quem sonhe em ser um intruso mais permanente nesse trio elitista. Andy Warhol dizia que, na vida, todos tempos pelos menos quinze minutos de fama. No futebol também é assim. Através dos anos, no prisma meramente desportivo, o «quarto grande» conheceu vários rostos. Mais por razões conjunturais do que por projectos de fundo. Belenenses, Académica, Setúbal, Guimarães, Boavista, Braga. Capazes de entrar no castelo do titulo, só o Belenenses no longínquo ano de 1946, e, mais recente, em 2001, o Boavista.

Pensou-se, então, que o novo século poderia abrir um novo status de poderes, mas o “Boavistão” esfumou-se em pouco tempo. Dá a sensação que perdeu a noção da realidade e das bases que levaram um clube sem “base social” a um patamar tão alto. Sem isso, o seu título resumiu-se a “quinze minutos de fama”. Não há drama nenhum nisto. Em todos os países existem três-quatro clubes que mandam na história futebolística. A diferença lusa é a raridade dos intrusos. Chegamos a 2008 e os territórios de paixões do país futebolístico voltou a estar dominada pela tríade dos grandes. Todos? Não, uma “aldeia” habitada por irredutíveis resiste ainda e sempre ao “invasor”. E vida não está fácil para as guarnições de chuteiras e calções que a defrontam. Guimarães. A cidade “irredutível”, um território particular na floresta do futebol português. Pelo Estádio, sempre com muita gente, pelo entusiasmo nas vitórias, pela revolta nas derrotas, pelo cordão humano, pelo que se vê e sente-se.

Por vezes, os seus adeptos abraçam o seu clube com tanta força que o acabam por sufocar. O grande desafio é atingir o estatuto de “quarto grande” independentemente dos resultados desportivos conjunturais. Desceu de divisão e ao mesmo tempo aumentou o número de sócios. Um ano após perder em Vizela e ficar afundado na II Liga, sonha com um lugar na “Champions”.

Para o trazer de regresso à vida entre os grandes, um homem que é mais do que um mero treinador. Os seus discursos confundem-se entre divagações tácticas e espectáculos de “stand up comedy”. Manuel Cajuda, claro. “Cajudix”, o chefe da tribo vimaranense. Tira a gravata para ser moderno, vagueia entre pentágonos, estratégias, histórias de vida e treinos na praia, mas, por vezes, fico com a sensação que tem algo magnético que não o deixa sair da trincheira da sua personalidade “engraçada”, como disse Jesualdo. Manipula os D.Quixotes e Sanchos Panças do nosso futebol, pressente-lhe as brechas, fura por elas e, no fim, imagina-o a rir-se sozinho em surdina atràs das portas. Já ninguém acredita, porém, quando tenta desvaloriza as questões tácticas, porque isso é a base do futebol no relvado e o seu Vitória é exemplo disso. E, no jogo, Cajuda mexe nele tacticamente como poucos. Dirão que mexe antes nas questões psicológicas. Claro, mas o jogo é isso mesmo. Táctica e mente.

O 4x2x3x1 e a confiança em jogar. Só depois é que a bola vai parar aos pés. O “quatro grande” deve ter dupla personalidade. Em campo, deve ser um monumento ao atrevimento. Fora dele, nos gabinetes, nunca deve tirar os pés de terra firme. Talvez seja a dificuldade em entender esta diferença de atitudes, dos bastidores para a relva, que turve a mente e os projectos dos cíclicos candidatos a “quarto grande”. Um local onde Cajuda se move como um miúdo num parque de diversões. Com uma táctica “engraçada”. Todos sérios e Cajuda rindo-se de todos. Ou será ao contrário?

O Lado «Táctico» do Vitória de Cajuda

1. Os movimentos de Fajardo

A Profecia de CajudixÉ dos jogadores tacticamente mais cultos do campeonato. Quer na capacidade para atacar e defender, quer na dinâmica que incute a qualquer posição que ocupa no meio-campo. No papel, pode partir da ala ou do centro. O 4x2x3x1 preferencial do Guimarães de Cajuda favorece a sua forma de jogar, como antes, numa dinâmica semelhante, já demonstrara na Naval. As suas trocas posicionais, tanto desequilibram a atacar, através da capacidade de jogar de fora para dentro, surgindo no centro a passar ou rematar (veja-se o segundo golo ao Leixões na primeia volta), como enchem o flanco a defender, recuando a fechar sem bola, e a atacar, dando, em posse, profundidade ao jogo da equipa (veja-se o primeiro golo naquele mesmo jogo). Quando parte do centro, sabe descair na faixa e criar rupturas nas marcações adversárias, combinando com o extremo que joga do seu lado.

2. Os improvisos de Ghilas

A Profecia de CajudixEmbora, no papel, o Guimarães de Cajuda entre em campo, preferencialmente, numa espécie de 4x2x3x1, com duplo-pivot defensivo (Meireles-João Alves), nas manobras atacantes a equipa apresenta vários rostos devido á versatilidade de movimentos dos seus jogadores. Vê-se isso através da solta movimentação entre-linhas de Fajardo, fazendo-a, quando surgia perto do ponta-de-lança Miljan, adquirir um design próximo do 4x4x2, abrindo então Desmarets na meia-direita. Uma dinâmica reforçada com a entrada, muitas durante o jogo, de um jogador de perfil bífido, médio ou segundo avançado, mas sempre em permanente movimento, por toda a frente de ataque: Ghilas. Mesmo saindo então Miljan, e, embora ficando sem nº9 puro, o ataque passa a ser um jogo serpenteado entre Fajardo, Alan e, claro, Ghilas, sem posições fixas. Um modelo no qual Ghilas joga com sorriso aberto. Ele tem os dois traços que metem maior imprevisibilidade nos jogos: velocidade e imaginação.

3. O jogo de Alvalade

Costuma dizer que “quem sabe só de táctica, nada percebe de futebol”.

A Profecia de CajudixAcho que não é bem isto que Cajuda quer dizer. Nos gestos, palavras e atitudes, a lição que foi deixando é outra. Por isso, devia antes dizer: “Quem sabe só de futebol, nem de futebol sabe!” Sabe, também, que quem não sabe nada de táctica, pouco sabe de futebol. Por isso, o seu Vitória tem hoje personalidade forte e identidade táctica. E faz bem as transições. É na mobilidade do meio-campo, recuando e avançando, que está a base do seu jogo. Por isso, mudou a estrutura em Alvalade. Para que os jogadores se movem-se a partir de outros pontos de referência. Em vez do habitual 4x2x3x1, com duplo-pivot defensivo (Flávio Meireles mais fixo na recuperação e João Alves mais solto apoiar o ataque) e três médios na segunda linha (um com dinâmica de extremo, Alan, outro mais móvel, entre o centro e a faixa, Fajardo, e outro, na outra ala, mais atento a defender, fechando sem bola, Desmarets) mudou o desenho de «2x1» para «1x2». Ou seja, Meireles ficou como trinco, mas para ganhar os espaços interiores em zonas mais subidas, adiantou João Alves e Desmarets (que flectiu no terreno) de perfil, à frente de Meireles.

Nas alas, a velocidade de Alan e Carlitos caia em cima dos laterais do Sporting, travando as habituais iniciativas destes. No ataque, em vez da presença mais fixa de Miljan, apostou na mobilidade de Ghilas. Foi Cajuda no plano táctico, portanto. Mesmo após ver Meireles ser atropelado por Vukcevic preferiu não ir por ai na análise ao jogo. Em vez do labirinto da arbitragem, jogou com os atalhos do comportamento humano. Por isso, joga, de facto, como disse na passada semana, num pentágono com dois quadrados. Só que, em rigor menmtal, o faz fora do campo. E o futebol, antes da táctica, é isto. Sabe da vida. E de futebol. E, no seu íntimo, também sabe porque nunca chegou a um grande.

4. Os movimentos de Desmarets

A Profecia de CajudixAla ou interior, Desmarets é, quase confidencialmente, o maior responsável pelo equilíbrio táctico do onze de Cajuda. Mesmo quando sobre a faixa do ataque, é sobretudo fundamental quando recua sem bola. Contra o Paços de Ferreira, por exemplo, surgiu como falso interior esquerdo. Mesmo com extremo típicos (Carlitos-Alan), era Desmarets que surgia, sobre a esquerda, nessa posição de extremo em trocas posicionais com o dono natural desse espaço. Noutras ocasiões, disfarçou-se de médio centro, mantendo o extremo a posição. Quando entrou Ghilas, foi para a ala esquerda em 4x2x3x1. Mais tarde, saindo João Alves, colocou-se no duplo-pivot ao lado de Flávio Meireles. Em qualquer lugar, alarga a equipa, dá-lhe linhas de passe em apoio a atacar, e posiciona-se muito bem atrás da linha da bola cobrindo espaços após a sua perda.

5. A distinção Geromel

A Profecia de CajudixO caminho até às virtudes colectivas parte da qualidade individual. Do entendimento do jogo. O tempo e o espaço. No caso dos defesas-centrais, o toque de distinção é feito pelo sentido posicional (ler bem a linha de passe e interceptá-la) pelo poder de antecipação (dominando o "timing" certo para surgir no corte) e pela classe com a bola nos pés. Não é fácil reunir, com agressividade controlada, estes traços em apenas um jogador. Por isso, quando se vê um desses exemplares, respira-se fundo.

É como 'ar puro' dentro de um relvado. No nosso campeonato, há um jogador que me inspira essa sensação. Chama-se Geromel e joga no Guimarães. Apesar de já ser, muito provavelmente, o melhor central do campeonato, ainda está em processo de crescimento, mas se crescer mais, arrisca-se a dar com a cabeça no tecto. Porque o seu projecto futebolístico já domina os vários quadrantes do jogo. Aqui começa a importância de um jogador. No domínio do horizonte. Estando com a casa em ordem, sente-se livre para pegar no jogo. Um estilo que faz de Geromel um dos melhores embaixadores do bom futebol no nosso campeonato.