A “Qualidade e o Confronto”

11 de Maio de 2018

Onde viam conflito e irascibilidade, os mesmos passaram a ver carácter e liderança. Sérgio Conceição é, no entanto, o mesmo. Na essência e no que faz dele o treinador que é no discurso e no método. Já o era no Braga quando perdeu aquela Taça nos últimos minutos dos desígnios insondáveis do futebol. Continua a sê-lo quando ganha agora o campeonato no FC Porto assente numa força emocional que reacendeu o ADN azul-e-branco.

Claro que todos nós devemos fazer ajustes de comportamentos, mas as personalidades não mudam. Poderão mudar a forma como se olha para elas. Mas isso acontece porque mudam as perspectivas (e os interesses).

Quando, durante estes anos de vazio de títulos, disse várias vezes que o FC Porto precisava do que chamei um “treinador de confronto” não está a pensar só no grito e discurso inflamado. Estava a falar de alguém que entendesse o que fez a forma de ser e ganhar muito própria da realidade-Porto (muito diferente de todas as outras no nosso futebol sociológico) e a soubesse incorporar e transmitir. Paulo Fonseca, Lopetegui ou Nuno tinham qualidades mas longe de perceber/incorporar esse perfil (o mais estranho foi ver o discurso “soft” de Nuno) que o FC Porto-clube necessitava nesta altura histórica.

 

O confronto não se esgota, porém, numa “agressividade comunicacional”. Tem nela um catalisador (incentivando apoios e desafiando adversários) mas a base que faz a diferença e torna um treinador capaz de provocar uma ruptura (e ficar mais perto de ganhar) essa é, claro, a qualidade. De treino, ler o jogo (perceber os jogadores e criar de um estilo que combine com eles) e reagir ao seu decorrer na época. Sérgio Conceição conseguiu as duas coisas. Um treinador de “qualidade e de confronto”. A sua inteligência, acredito, distinguirá os que sempre o viram assim dos que (como refiro no inicio) mudaram a forma de o ver.

Terá, agora, naturalmente, ambições em termos internacionais. Essa hora chegará naturalmente. Não é o tipo de treinador que tenha de apanhar uma “onda de sucesso” com receio de não aparecer outra e a oportunidade não voltar. No passado, o FC Porto, e outros clubes, já tiveram esse tipo de treinador que depois percebe que (mesmo ganhando muito dinheiro) as coisas desportivamente não funcionam assim para quem tem verdadeiramente crença na sua qualidade.

Este foi um “FC Porto de Treinador”, como foi, salvo as devidas proporções, os de Pedroto, Artur Jorge, Mourinho, Vítor Pereira (quis destacar estes nessa definição, cada qual na sua época).

Há ciclos em que se percebe que as vitórias são filhas umas das outras. Noutras, não. Esta apenas tem um progenitor e um berço. O embalado por Sérgio Conceição.