A superioridade moral

03 de Novembro de 2006

A superioridade moral

Conta-se que quando numa tarde, na prelecção antes de um jogo, Hugo Arduzzo, técnico do sorumbático Parejas FC, disse, empolgado, que queria mais ambição, todos ficaram assustados. Os jogadores, dizia, tinham de esquecer as posições iniciais e mal recuperassem a bola, saírem como raios para o ataque. Silêncio total. Até que um deles perguntou: “Ok, Mister, parece-me bem, mas…e a que horas voltamos?”. Paulo Bento vive, naturalmente, noutro «mundo». Sabe como o futebol é hoje, essencialmente, um jogo de equilíbrios. Unir defesa e ataque. Depois, é uma questão de velocidade e controlo dos ritmos de jogo. Na elogiada exibição de Munique, descobre-se, porém, o histórico espelho exibicional das equipas portuguesas quando defrontam adversários mais fortes na Europa. Acabámos sempre com a sensação de que o nosso jogo tem uma superioridade moral incontestável sobre o adversário. E tem, de facto.

Personalizado, o Sporting teve o jogo defensivamente sempre controlado, mas a posse e o ritmo foi sempre essencialmente lento, com consentimento do onze alemão. Nunca arriscou aumentar a velocidade para conseguir uma segunda fase de construção mais objectiva e veloz. Isto é, nunca arriscou perder o tal equilíbrio defensivo entre-linhas. Enredamos o adversário com a nossa técnica mas, depois, falta a relação entre a velocidade e a baliza, algo que equipas com, digamos, menor preocupação moral, resolvem mais pragmaticamente. É uma questão de estilo, que, na era pós-pedrotiana, fundador do Porto de Artur Jorge, só terá sido ultrapassada, de forma sólida, com, cada qual na sua época, Eriksson, no Benfica, e Mourinho, no Porto.

“Corres demasiado, miúdo!”

A superioridade moral Salvador Dali dizia que «o mínimo que se pode exigir a uma estátua é que não se mova». Penso nisso quando analiso os jogadores que alinham na posição tacticamente mais importante do futebol actual, o pivot-defensivo. O jogo de Custódio em Munique é um bom exemplo. Fala-se muito em mobilidade, mas a primeira coisa que um jogador deve ser nessa posição é posicional. Não se mexer muito. Pode parecer um paradoxo mas quanto mais posicional estiver, maior dinâmica e precisão de transição pode dar à equipa. O que lhe falta então? Passe longo. Custódio raramente falha um passe, é verdade, mas quase todos são curtos, de primeira instância. R. Meireles, no Porto, por exemplo, já consegue, no mesmo lugar, jogar curto ou longo com maior facilidade. Por isso, para ganhar profundidade, o Sporting necessita que Moutinho ou outro médio de segunda linha, recue para ter bola. Com Veloso, ou até Paredes, ganha maior profundidade mas perde o sentido posicional do lugar que tem com Custódio. Sigo Moutinho e cada vez gosto mais dele no corredor central.

Defende e ataca bem, pressiona alto, é agressivo nos duelos, eficaz no passe e no remate. O que lhe falta então? Á distância, parece-me ter aura de líder, carácter. Decide rapidamente mas parece faltar-lhe serenidade. Correr menos, talvez. Pensem em grandes médios centro. Deco, Zidane, Rui Costa, Baggio. Nenhum deles demonstrava pressa em campo. Moutinho tem de jogar mais com a cabeça e menos com as pernas. Faz-me lembrar quando Puskas viu jogar pela primeira vez Raul, numa altura em que toda a Espanha o elogiava, e lhe disse no fim: “Corres demasiado, chaval”.

Quaresma: Anarquia e disciplina

A superioridade moral Diz Robert De Niro numa entrevista que prepara as suas personagens com anarquia e disciplina: “Tenho de entender o papel em toda a existência, corpo e alma. Primeiro ser selvagem e excessivo, depois fazê-lo de forma precisa e controlada”. Lembro a ideia ao ver Quaresma e ouço o seu treinador dizer que ele “só será grande jogador quando for jogador de equipa. Encantam-se com os dribles e trivelas, mas importante é ele ganhar melhor comportamento táctico”. Ora aí está. Comportamento táctico. A precisão e controlo no futebol. Quando Quaresma parte para a bola, a aproximação será sempre intuitiva, excessiva até.

Contrariar essa natureza, é tirar o ADN do seu futebol. Difícil é ensiná-lo também a ser preciso e controlado. Embora a técnica, por si só, não resolva, pois não existe no vazio e necessita da táctica para ser produtiva, a verdade é que, em termos individuais, é quem nasce primeiro. Com Quaresma, só permitindo-lhe primeiro ser selvagem e excessivo, sem tornar estes traços acessórios, é que pode-se depois adicionar precisão e controlo, impedindo-o de ser tacticamente subversivo. Sacha Guitry dizia que “quando se ouve Mozart, o silêncio que se segue também é de Mozart”. Com Quaresma é igual. O «bruá» que se segue a cada rasgo também é de Quaresma. Devia ser da equipa.

O golo no último minuto

A superioridade moral Um dos temas desta semana foi os golos sofridos nos últimos minutos, no chamado tempo de descontos Foi assim que o Benfica perdeu nas Antas. Foi assim que o Sporting sofreu o empate em Aveiro. Ambos os técnicos sentiram-se revoltados com o facto. Paulo Bento chegou mesmo a teorizar sobre esses momentos. Para ele, “a bola é para estar no meio-campo adversário. A bola é para estar fora!”. Certa a primeira ideia.

Ilusória, a segunda. A única forma consciente de “matar” esse período de tempo é saber conservar a bola, trocando-a, o mais longe possivel da nossa baliza, com serenidade perante um adversário ansioso e cansado, esconde-la, tentando sacar faltas. Com um simples pontapé para a bancada, colocando a bola fora por segundos a única certeza que se tem é que, logo depois ela vai surgir com perigo redobrado perto da nossa baliza. Quando já no período de descontos da final da Liga dos Campeões em 1999 o Bayern vencia o Manchester por 1-0, o defesa central alemão Linke cortou um ataque inglês com um pontapé para a bancada, os adeptos alemãs festejaram com alivio esse gesto. O perigo estava afastado, pensaram. Da reposição da bola em jogo, sairia, porém, o canto que daria o golo do empate. Pouco depois seria o 2-1. Os defesas tem de saber segurar a bola e ler o jogo. Os avançados tem de saber segurar e esconder a bola. No minuto 90 do jogo no Porto, Nuno Gomes estava junto à bandeirola de canto com ela controlada. Local e posição perfeita para “matar” tempo. Conserva-la aí o mais tempo possível, ganhar um canto ou uma falta. Mas não, precipitado, tentou, sem convicção, um centro para a área, onde não estava ninguém, oferecendo a bola aos jogadores do Porto.

Dessa reposição da bola em jogo, sairia o lançamento que daria o golo do 3-2. Em Aveiro, o Sporting cedeu, displicentemente, dois cantos no ultimo minuto. Ou seja, golos nos últimos minutos vão continuar a existir sempre. O que não pode suceder, a uma equipa de top, é oferecer essa oportunidade ao adversário, sem este ter discernimento para a criar. Isso só se evita com cultura de posse de bola. Portanto, quando o quarto árbitro mostra a placa dos descontos, o jogo só não acabou, como entra verdadeiramente na sua fase decisiva. Era por isso, que ainda esta semana, Javier Aguirre, treinador do At.Madrid, dizia após perder perto do fim contra o Saragoça: “Se não ganhamos o jogo nos primeiros 85 minutos, é fundamental não o perder nos últimos cinco..!”