A tríade de Bosz

26 de Abril de 2017

A marcante passagem de Frank de Boer por Amesterdão jamais seria uma herança de somenos para Peter Bosz. E o começo foi tudo menos empolgante, com desaires na Champions e resultados internos comprometedores. Mas Bosz foi sempre acompanhado pela cúpula ajacien, que acreditou num homem que já havia deixado muito boas indicações na sua passagem pelo Vitesse.

Por Filipe Coelho

A aposta não pode deixar de se julgar positiva. Numa altura em que tanto se discute a identidade-qualidade do futebol holandês, Bosz trouxe algo de inspirador, modelador e, em certa medida, recuperador de uma aura ‘cruyffiana’ que tantas vezes se julga(va) perdida. O Ajax 2016/2017 dá-nos a possibilidade de assistir a uma equipa com uma ideia de jogo tremendamente positiva, inapelavelmente ligada ao sentido de ataque à baliza adversária, com vários jogadores que fazem da criatividade uma das suas principais marcas.

A base táctica continua a ser a mais convencional e tradicional do futebol holandês – um 433 com um pivot mais recuado (mas não defensivo) e ainda com extremos declarados. Mas o traço distintivo desta equipa holandesa é a forma como se predispõe a encarar cada jogo, quase sempre com unidades com notórias mais-valias ofensivas por comparação com características defensivas – o que redunda em que, não raras vezes, à excepção do guarda-redes Onana, apenas Veltman (defesa direito) e os dois centrais sejam verdadeiras unidades defensivas. Daí em diante um mar de gente que olha muito mais em frente do que para as suas costas.

Sobretudo fascinante foi a forma como o sucessor de De Boer logrou montar o trio de meio-campo. Schone-Klaassen-Ziyech não se ‘conheciam’ antes da presente época. O primeiro, aliás, muito longe de ser imprescindível em temporadas passadas, conheceu uma autêntica transformação no seu jogo, deixando de deambular entre a zona ‘10’ e a ala direita para se fixar como primeiro homem à frente da defesa e unidade propulsora do estimulante jogo ajacien. Mais à frente o capitão Klaassen – a realizar a melhor temporada da sua carreira, destaca-se pela quase omnipresença, fiabilidade, chegada à área e pressão constante em relação aos adversários. E, finalmente, Ziyech. O marroquino contratado ao Twente tem confirmado todos os atributos que lhe eram reconhecidos (excelência no passe, apurada visão de jogo, fortíssimo pontapé e eficiência no drible), a que soube aliar uma valência que não lhe era descortinada em Enschede, a da disponibilidade defensiva constante, fundamental numa equipa que pretende recuperar a bola tão rapidamente quanto próximo da baliza adversária.

Tem sido esta tríade o motor do Ajax, com uma associação plena nas suas acções em jogo, destacando-se pela predisposição para assumi-lo, por um lado, e anular, de forma rápida e incisiva, a construção adversária, por outro. Um meio-campo em que prevalece a criatividade e habilidade técnica (leveza e critério) face a características mais condicionais (presença física e impetuosidade). Com rotação permanente – sobretudo entre Klaassen e Ziyech, com ausência de uma fixação irrevogável em termos posicionais – e fruto de poucos movimentos interiores sem bola por parte dos extremos (oferta de amplitude total à equipa), é a este trio que cabe manobrar o espaço nevrálgico do terreno, combinando não raras vezes ao primeiro toque e com poder de fogo para chegar/acompanhar o homem mais avançado no terreno.

Se se prevê que a conquista da Eredivisie volte a fugir – sobretudo em virtude dos 14 pontos perdidos na 1ª volta –, o Ajax renasce incisivamente em plena Europa do futebol, chegando à meia-final da Liga Europa. Muito em função da já referida tríade, sempre acompanhada pela repentina imprevisibilidade pela esquerda de Younes, pelo despontar ‘a matar’ de Dolberg e pela consistência em terrenos mais recuados da dupla Sánchez-Viergever. Uma bela ideia da autoria de Bosz e com materialização em campo por parte de protagonistas que só buscam a bola.