A turma do Conca

10 de Dezembro de 2010

A turma do Conca

Em 1984, o herói era um paraguaio que parecia jogar ligado à corrente eléctrica, Romerito. Em 2010, ano de reencontro com o titulo de campeão, o herói também veio de outras paragens, o argentino Conca, um jogador que nunca pára (de correr, pensar e organizar) durante 90 minutos. Fez todos os jogos (38) do longo Brasileirão. Entretanto, em 26 anos, o futebol brasileiro mudou muito. Em 84, o Fluminense tinha Parreira no banco, mas a referência ideológica era Telê Santana, o homem que o técnico herói do presente, Muricy Ramalho diz ter abraçado em sonho na noite anterior ao jogo decisivo com o Guarani: “Cara, eu vi o Telê vivo! Eu abracei ele!”

O actual Flu não é uma equipa empolgante. Tirando os momentos em que a bola ia parar aos pés de Conca ou Deco e o jogo ficava mais bonito, no resto do tempo jogava sobretudo em esticões (a subida dos laterais Mariano ou Carlinhos), com pressão sincronizada (a importância da dupla de volantes, Diogo, Diguinho, Valência ou Fernando Bob) aos avançados, uma dupla que sempre teve um nº9 mais fixo (o pesadão veterano Washington ou o complicado Fred) e outro mais móvel (Rodriguinho, Emerson ou Tratá).

A importância dos maestros baixinho, num espaço onde também entrou Marquinho, foi tanta que levou Muricy a mudar o sistema de jogo da equipa a meio da época (pós-Mundial), altura em que Deco foi contratado. Para os conciliar e soltar mais Conca em apoio aos avançados, passou de 3x5x2 para 4x4x2, com Deco a pegar no jogo mais atrás ou a descair na ala. Com esta transformação, manteve a segurança defensiva, aumentou a criatividade e deu maior ligação entre-sectores ao onze.

Estruturalmente lentos, os jogos do Brasilerão são muito sensíveis às mudanças de velocidade que uma equipa saiba fazer. Quer a atacar como a recuperar a bola. O Flu fez isso muito bem. Valência é um comedor de relva, Diogo sabe onde se posicionar, Diguinho é um corre-caminhos, Fernando Bob enche o campo. Citei quatro volantes, médios-defensivos. São eles que mandam hoje no estilo das equipas brasileiras. Como Jucilei e Elias mandaram no Corinthians. Neste contexto, o Cruzeiro, que acabou em segundo, foi, muitas vezes, a equipa mais equilibrada na mescla organização-criatividade. Foi a obra do nº10 Montillo, volantes fortes (Fabricio-Henrique) e um avançado que surgia por todo o lado (Tiago Ribeiro).

O titulo do Flu é um retracto fiel dos dilemas de estilo do actual futebol brasileiro. O duelo entre volantes e criativos. Quem manda na equipa? Em campo, a resposta de Conca acabou com a discussão. A melhor táctica é uma boa finta. E, nos pés de um argentino, os gramados brasileiros reencontraram o espírito de Telê. Irónico, não?

Laterais que hipnotizam

A turma do ConcaÉ uma sensação perturbante de tão contraditória. Porque, no jogo, eles são os primeiros jogadores que mais impressionam (rápidos, com técnica, executando em progressão). São, também, pouco depois, os primeiros a termos a certeza que, apesar de toda essa qualidade, poucas possibilidade teriam de vingar na Europa.

Falo dos laterais brasileiros (não escrevi defesa e não foi por acaso). Os empolgantes laterais do Fluminense (Mariano, à direita, e Carlinhos, à esquerda) são o exemplo.

É uma questão de «cultura de lugar». Completamente diferente no Brasil e na Europa. Basta ouvir narração algo como “ataca como um lateral” para se perceber que, nos modelos brasileiros, eles têm prioritariamente um estilo de jogo de alas. São, claramente mais membros do processo ofensivo do que do defensivo. Na hora de recuar, salvam-se os mais rápidos. Mas atenção: nada disto é um defeito, é outra ideia de jogar. Depois Conca, foram os jogadores que mais me empolgaram. Se apostava neles para um clube europeu? Difícil. Talvez Carlinhos…