A última coisa que devemos desconfiar é do talento

16 de Outubro de 2014

1. Seleção Sub-21: deviam alguns já estar nos “A”?

A seleção Sub-21 cativou pela qualidade e forma alegre como jogou. Continua, também, sem ter um ponta de lança para o futuro, mas a verdade é que, neste advento do 4x4x2, diga-se que Rui Jorge foi pioneiro nas estruturas da seleção. Pois, enquanto o onze principal mantinha o 4x3x3, já ele, há vários anos, desde que pegou na seleção, a colocara na estrada do 4x4x2. Por opção e por necessidade.

Ver Bernardo Silva com a bola, controlando-a/conduzindo-a em finta progressiva, ou ver Rúben Neves a distribuir jogo e a ler linhas de passe como se visse o jogo desde a bancada, cria grandes expectativas do que podem ser estes jogadores no decorrer da carreira.

Há quem os veja já feitos para a seleção principal, até. As coisas não funcionam assim. Podem ser solução, mas na tal formação de jogador de elite de seleção essa construção deve sempre resistir a cair em tentações fáceis e esperar antes que seja o tempo a determinar naturalmente quando lá devem entrar. A sensibilidade do selecionador (em articulação com o edifício de técnicos da seleção) é decisiva para determinar esse momento.

Filosoficamente, o futuro é o único local para onde se pode ir. Numa adaptação futebolística desta realidade, prefiro ir acompanhado de boas ideias de construção do que só de bons jogadores. Porque estes, por si só, pelo seu talento, não fazem a equipa/seleção.

O mais importante é vê-los crescer nos locais certos. Se no clube é discutível e foge ao nosso controlo, na seleção podemos, por pouco tempo que seja, dar-lhes o local e o tempo certo para o fazerem. Sem ilusões.

2. A última coisa que devemos desconfiar é do talento

A última coisa que devemos desconfiar é do talentoA nova seleção venceu na Dinamarca com o alucinante golo ao minuto 95 e esteve uma semana a viver junta, o que lhe mudou a forma de pensar, agir e... reagir. Nesse campo de reações estão fatores humanos (regresso de jogadores antes fora das hipótese) e futebolísticos (as alterações para 4x4x2).

São ambas importantes, mas é revelador ver Quaresma (quando o adversário se contentava a embrulhar o empate) puxar a bola na faixa, fazer o centro e colocá-la no sítio onde Ronaldo já sabia que esta iria cair, porque conhece o Ricardo há muito tempo. Numa palavra: talento(s).

Quaresma nunca foi um jogador de seleção no sentido exibicional do termo dentro dela. Ignorar o seu talento no momento de a formar é outra questão. É olhar para o seu talento e desconfiar dele. E o futebol português não está em tempo (geração e conjuntura) de olhar de lado para os seus talentos.

O 4x4x2 é uma solução que, acredito, só nasce porque não temos hoje um ponta de lança de valor indiscutível para ser o n.º 9 da seleção. De outra forma, acredito que Fernando Santos mantivesse o 4x3x3 e lhe desse, claro, um cunho pessoal.

Em Paris, percebeu-se que aquele 4x4x2 tinha de aperfeiçoar o seu processo defensivo. William Carvalho a 6 e Tiago-Moutinho a relacionar as faixas e as zonas interiores foram o upgrade táctico necessário. Primeiro, sem bola. Depois, com ela.

Os laterais são um falso problema. Nenhum deles é um fenómeno (Coentrão, quando estiver bem, volta naturalmente), não podem é ser expostos às vulnerabilidades do sistema, como foram de início. O selecionador viu e reagiu. Na frente, a liberdade de Nani, Danny e Ronaldo necessita de maior coordenação.

Sendo o futebol português uma fábrica de extremos, é natural que o 4x3x3 continue uma opção. O valor dos adversários pode mudar (e mudou da França para Dinamarca), mas nestas duas estradas táticas se escreve o futuro da nossa seleção.

3. PIVOT, JOÃO MÁRIO, ÓLIVER E “LIVROS”

Ambas as equipas sentem que este jogo chega demasiado cedo no percurso normal que deviam seguir na Taça.

A questão pivot no FC Porto continua ser o livro táctico mais aberto a debate. Com Casemiro, volta a opção natural de Lopetegui, mas não a resolução do problema, porque rotatividade no pivot é algo que choca contra os mais elementares princípios de construção do modelo de jogo (seja ele qual for) de uma equipa (salvo estratégicas para jogos específicos).

No Sporting, há um jogador que até parece ter crescido depressa demais nos últimos tempos. Digo isso porque o ando a elogiar desde os 16 anos e a dizer também que precisava de uma injeção de intensidade/motivação de jogo. Falo, claro, de João Mário. De repente, ei-lo a aparecer na primeira equipa (e na seleção principal) no timing certo de jogo; nunca será um jogador rápido no sentido muito rotativo do termo, mas tem uma visão de jogo que estabiliza melhor o setor que Marco Silva busca, de início, mais em posse do que com as ruturas de André Martins (mais avançado).

No FC Porto, Óliver é o jogador que parece, hoje, poder ocupar melhor o maior número de locais e espaços no meio-campo (à frente do n.º 6). Atenção que não digo posições, digo espaços. Isso revela a sua inteligência de movimentos. Faz, por vezes, demasiados passes de dificuldade elevada (o que é diferente de passes de risco) quando tenta virar em diagonal o jogo de flanco, mas isso, afinal, revela, sobretudo, a sua amplitude periférica de visão de jogo. Saber utilizar bem estes dois jogadores, é saber utilizar da melhor forma duas diferentes leituras de jogo.