A última fronteira

08 de Maio de 2008

A última fronteira

Um campeonato em noventa minutos. Depois de uma longa travessia por diferentes relvados, cada qual carregando as suas bagagens, chegam à última fronteira. Raramente o onze que começa a época em Agosto é aquela que a termina em Maio. É natural. A construção de uma equipa (entenda-se a melhor equipa) é consequência dum processo evolutivo em busca da melhor interligação de jogadores em campo. Mas há um principio indispensável para tudo isto: Boas ideias!

Olhamos para trás e vemos como muitas equipas iniciaram a época com tantos problemas por resolver. Raramente isso é compatível com a construção de boas ideias. O FC Porto acaba a época com a equipa que a iniciou. É a excepção. E passeou no campeonato. Isso terá ajudado, mas diz muito da lenda da competitividade do nosso campeonato. Porque foi das equipas que mais jogos realizou (Champions, Taça e Liga) mas pouca rotatividade fez. Terá sido, porém a grande vantagem de Jesualdo. Isto é, o treinador do FC Porto não precisou de ganhar o balneário por dentro. Ganhou-o no campo, pelo factor indiscutível que constituiu o seu onze. Nenhum jogador dos pouco utilizados ousaram contestar essas escolhas tal a clareza da qualidade dos titulares. E isso “pacifica” para o ambiente do balneário. Agora sem a sombra tutelar de Baía, como no primeiro ano de Jesualdo. Mas com a atmosfera calma que só as vitórias podem construir. Criaram-se automatismos, jogou-se bom futebol, mudaram-se ritmos e o abismo com o resto do campeonato fez-se com naturalidade.

Sporting e Benfica nunca conseguiram ao longo da época partir a corda que os amarrou, semana após semana, aos problemas com que a iniciou. Alguns aumentaram, até. Muitos já parece que foram noutra vida, (a saída de Fernando Santos ou a lesão de Derlei) mas deixaram, cada qual com os seus contornos, “cicatrizes” profundas no processo de crescimento do onze. Jogo e mentalidade. Na Luz, com Camacho a equipa passou a pressionar sem jogar, lutando sem boas ideias. Apenas com intenções.

Paulo Bento emaranhou-se nas suas duvidas, caiu num “beco táctico” e a equipa passou a maior parte dos jogos a bater contra a parede invisível das suas limitações de jogo jogado. Na sombra, surgiu o Guimarães, sem “inventar”, quase com um futebol `”à moda antiga”, processos simples e as “blagues” de Cajuda. A equipa viu-se metida em problemas que não eram seus no inicio da época- o sonho da Champions- mas soube caminhar neles no “ritmo certo”.

É perturbante ver Sporting e Benfica a lutarem e festejarem a conquista de um segundo lugar. É historicamente “contra-natura”. O lado financeiro da conquista é irrelevante para o plano emocional de jogadores e adeptos. Como diria Busby, histórico patriarca de Manchester, “quero ver esse dinheiro transformado em camisolas vermelhas a correr no relvado com alegria e a ganhar jogos”. Os gestores falam mais em equilibrar orçamentos, património, lucros, imobiliárias e outros “seres estranhos” àqueles que verdadeiramente fazem do futebol um jogo de emoções. Os grandes clubes são hoje, de facto, enormes edifícios com duas entradas distintas.

A desportiva e a financeira. Em cada qual deve ter os seus “especialistas”. Depois falta a “obra” fundamental. Fazer a ponte certa entre as duas entradas do edifício e construir um gabinete no meio para cruzar e compatibilizar ideias. E, claro, tomar decisões em conformidade. Os grandes de Lisboa nunca entenderam, esta época, a lógica dessa “obra”.

Os últimos 90 minutos do último jogo são como uma última fronteira da época. Na maior parte dos relvados, serão o espelho de toda a época: sonhar “grande” com jogadores “pequenos”. Futebol sem de boas ideias.