A última “rock-star” do futebol mundial  

27 de Junho de 2016

Não adianta. O tempo e os anos podem passar que continuo a olhar para o futebol como da primeira vez que o vi. Não, não acredito que não exista amor como o primeiro. Ás vezes, até o décimo quarto pode ser o melhor. O que não existe são sentimentos como os primeiros. A primeira aproximação que temos ao futebol é selvagem e, até, excessiva. Desde as “peladas de rua” (perdidas o tempo) até à forma como então olhávamos para os jogadores como se fossem algo que não existia de verdade, mas só quando a jogarem.

Olhava para eles de baixo para cima e todos pareciam enormes. Agora, que sou mais velho que todos eles, já não tenho, claro, esse sentimento. Todos parecem mais pequenos. Todos? Não, há um que, dono de um “irredutível mundo próprio” me continua a provocar a mesma perturbante e sedutora reação de miúdo: Zlatan Ibrahimovic.

Anunciou que acabava após jogar o seu último jogo neste Euro a sua carreira internacional na seleção. Despediu-se como uma derrota quase inevitável frente à Bélgica. Esta Suécia não dava para muito mais. E o próprio Ibrahimovic já não é, aos 34 anos, o mesmo “super-herói” capaz de a fazer ganhar sozinho. O seu arranque quando a bola lhe chega já não é o mesmo. Fica quase parado quase como uma projeção da “estátua-símbolo” de que vai tornar.

Com ele parte a última “rock-star” do futebol mundial. Os que ficam agora são meras “pop-stars”. Na senda do estilo com madeixas e calças rasgadas Dolce & Gabana de Beckham ou da vida lunática de Balotelli.

Ibrahimovic era (é) diferente de todos. Não se confunde nem com as camisolas largas mágicas de Messi ou o gel exterminador do Adónis Ronaldo. Ibra invoca aqueles que nos fizeram crer e lutar por causas. Como foram Best, nas essência dos anos 60 onde a vida se reinventou Cantona, as frases míticas e as golas para cima, Cruyff, que mandava em tudo no campo e fumava nos intervalos, Maradona, tatuagem do Che, Sócrates entrava em campo na ditadura brasileira com uma fita “viver e jogar mas sempre em democracia”. Jogadores desses que pareciam desafiar o mundo em cada olhar. Hoje, só Ibrahimovic consegue criar esse impacto.

Percorremos o Europeu e até todo o futebol mundial ao mais alto nível e não encontramos estes traços em mais nenhuma personagem. Mesmo a Itália perdeu esse porte. Na França, Pogba é um exemplo de como quando os craques modernos crescem começam logo a revelar mais sintomas “pop”. Rooney é uma espécie de “boxeur” em forma de futebolista tal a forma como parece com o seu jogo dar murros no jogo, mas nesta reciclada seleção inglesa aparece com um “médio de equipa” escondido na casa nº8.

Hoje as revoluções são um “livro fechado”. Na vida e no futebol. Por isso, com a partida de Ibra dos relvados das seleções, dos Mundiais e Europeus, o grande cenário do futebol internacional nunca mais será o mesmo. Nem todos os rebeldes, porém, conseguem alcançar algo mais nobre do que apenas a sua própria rebeldia. Imaginá-lo no Manchester United mais do que imaginar a forma com poderá jogar, leva mais a imaginar o impacto que pode provocar a sua presença por si só. O futebol inglês seria o habitat ideal para ele nesta fase, quase, em Old Trafford, como uma reinvenção do perfil-Cantona.

Um jogador destes não faz uma equipa no sentido táctico do termo mas pode-a transformar na personalidade de forma decisiva. Muitos jogos começam a ganhar-se dessa forma. Neste Euro, nenhuma seleção tem um jogador desses. O onze alemão parece jogar de “botas cardadas” no meio-campo e a Espanha criou o seu domínio a partir de um “exército de baixinhos”. Gostava de ver David Silva como protagonista deste Euro. Pelo que joga e para... mostrar o que joga.

Nesta altura do texto já estamos, como é fácil repararem, muito longe do mundo das “rock-stars” como se começou. O futebol (as suas personagens) tornou-se demasiado real ou superficial. Depois de Ibrahimovic não existe mais nada.

Parece desafiar o mundo em cada olhar olhar. Hoje, só ele consegue criar esse impacto. Agora, ficam as meras “pop-stars”.