A vingança “pincharata”

17 de Dezembro de 2010

A vingança “pincharata”

Oito campeonatos, oito campeões diferentes. Face à crise dos gigantes River e Boca, outras equipas furam no topo da Liga argentina. Depois de Banfield e Argentinos Jrs, surge o Estudiantes, os pincharatas (por ter sido fundado por estudantes de medicina que tinham nas aulas esses pequenos bichos como cobaias). O título disputou-se até ao último jogo, com o Velez, e colocou em choque dois conceitos de futebol muito distintos. O Estudiantes, a equipa tacticamente mais culta. O Velez, a equipa tecnicamente mais sedutora. De um lado, o 3x5x2 do Estudiantes. Do outro, o 4x4x2 do Velez. Ambos, com muitas variantes.

Em termos de realismo táctico, sobretudo a meio-campo, o Estudiantes é o onze mais competitivo, forte nas bolas paradas (com a subida dos centrais, sobretudo Desábato, o chefe do sector, ao lado de Fernandez e Ré) e com médios ladrões de bolas. Por isso, ao tentar destacar um herói deste seu título, o mais natural é falar no trinco-pivot Braña. Robusto, come a relva e a bola, soltando Benitez para missões de transição, enquanto, mais adiantado, quase como enganche com o ataque, surge a veterana brujita Veron, 35 anos, que descaí um pouco sobre a direita.

Nas alas, dois laterais ofensivos (à direita, Mercado, que sai muito de posição, e, à esquerda, Rojo, passada larga). É interessante notar que o onze não tem um verdadeiro ponta-de-lança. Jogou sempre com um ou dois avançados móveis, a toda a largura da frente atacante, o território de La Gata Fernandez, sempre com a baliza nos olhos, apoiado por Nunez (também esquivo e rápido) ou Enzo Perez, que tinha tudo para ser a estrela deste onze. Tem grande qualidade de jogo. O seu melhor lugar é na ala direita, como falso-ala, que tanto vai à linha, como puxa para dentro. Quando jogou, porém, o técnico Sabella colocava-o quase sempre no corredor central.

A vingança “pincharata”O Velez revelou um grande segundo avançado: El Burrito Martinez. Joga muito futebol, ora organizando/criando jogadas, ora surgindo desde trás, em torno do nº9 possante, El Tanque Silva. Vagabundo, Martinez, a par do baixinho serpenteado Morales, desenharam os melhores momentos de futebol-arte deste Torneio. Somoza assume-se como pivot (o nº5 mandão tradicional das equipas argentinas) com Zapata a apoia-lo e Fernandez a dar profundidade pela direita. Faltou à equipa talvez maior rigor defensivo, sobretudo a fechar nas faixas, espaço onde o Estudiantes quando recuava os laterais e fazia uma linha defensiva de «5» nunca deu espaço aos adversários.

O título dos pincharatas é, por isso, tacticamente lógico, mas o futbol argentino tem de rever muitos dos seus conceitos. Em risco está a sua identidade mais tecnicista.