ABRINDO O “CORAÇÃO” DO MUNDIAL

29 de Julho de 2014

ABRINDO O “CORAÇÃO” DO MUNDIAL

Os quartos-final vão reunir a “elite do melhor futebol” deste Mundial. Cada seleção, uma ideia, estrelas, dilemas e sonhos. Esta é uma viagem por dentro dos debates táticos e técnicos. Posse ou velocidade? Faixas ou interiores) No fim, tudo vai dar ao essencial: os craques decidem com organização.

O futebol muda, as equipas evoluem, as ideias, essas, não podem ser tão sensíveis a mudanças. Uma coisa é interpretar as inúmeras variantes (tácticas, técnicas....) que um jogo provoca, outra coisa é encontrar um fio condutor (um fio de jogo) que guia essas equipas ao longo dos 90 minutos (ou mais). E, de repente, estamos nos quartos-de-final. Se nos deslumbram jogadores como Neymar, James, Muller, Messi e Robben é porque ainda a criatividade ainda faz a essência do futebol e do que nossos olhos veem.

Restam outo seleções Arrisco dizer que são as melhores (partindo, claro, de estilos diferentes) deste Mundial. Não vale a pena tentar distingui-las pelos sistemas, embora elas tenham os seus desenhos diferentes. Alemanha, França (4x3x3 com um pivot), Brasil, Argentina e Bélgica (4x2x3x1) Colômbia (4x2x3x1 ou 4x4x2, contra o Uruguai), Holanda (3x4x1x2 ou 4x4x2) e a surpresa Costa Rica (5x2x3, talvez...). Alguns destes desenhos suscitam debate porque a movimentação, mais fixo ou mais solto, do segundo nº6 com ambições a ser nº8 concretiza-se mais vezes do que outras.

Isto é, quantas vezes esse segundo pivot-defensivo deixa o rótulo de defensivo? Poucas, para a categoria e obrigação de pegar no jogo que essas equipas deviam ter em campo. Penso, sobretudo, no Brasil e Argentina. Os casos Paulinho e Gago. Se no primeiro, Scolari encontrou uma boa solução de saída para o jogo com Fernandinho, na Argentina Gago (ou até Biglia) continua a prender demais a equipa, apesar de ter, para mim, o melhor 6 deste Mundial, o raçudo com técnica, corte e condição: Mascherano. No Brasil, Luis Gustavo é uma âncora. Na argentina, Sabella ainda não se deve ter cruzado com Enzo Perez neM nos corredores do hotel para nunca o lançar nessa posição problemática.

O resto é, claro, Messi (que consegue ser ala, interior, 8, 10, mesmo 9, tudo na vida dentro de um relvado).
Em termos de modelo de jogo dominante este Mundial tem marcado um ruptura. A superioridade moral (e prática) da cultura de posse de bola sofreu um forte abalo. Não só pela eliminação precoce da Espanha, mas porque nessa luta de formas de ver e jogar, o modelo da velocidade ligada à transição-ofensiva e ataque rápido, buscando mais rapidamente profundidade, do que explorar o jogo através da construção apoiada em posse e passe curto, tem, claramente, triunfado e imposto a sua superioridade em campo.

A Colômbia e, em alguns momentos, a Argentina (mais tentação que vocação), serão as seleções que tentam mais resgatar o conceito de posse, mas se até Brasil e Holanda traíram essa escola (seu berço e raiz) e passaram a jogar mais em profundidade, à procura da velocidade/drible dos seus velocistas, este debate parece, neste Mundial, um “livro praticamente fechado”. Mas atenção, convêm distinguir: Não ganhará quem andar em “excesso de velocidade” mas quem “jogar mais rápido com precisão”.

OS QUE PARTIRAM

Tenhamos em primeiro respeito por algumas seleções que já partiram e despeçamo-nos delas com respeito. A Inglaterra, com o seu “manual de sofrimento”, que exibiu um jogo rápido e empolgante; o Uruguai que lutou até ao limite mas que não resistiu à partida do “dentuça”; o Chile da careca pensante do técnico Sampaoli, o homem que mudava o sistema da equipa como ela fosse feita de plasticina e, claro, os saltos, gritos e momentos enlouquecidos de um “piolho” mexicano feito treinador, Herrera. Todos eles ficam na nossa memória.

Partiu, também os EUA, e, com o seu onze, o tipo de médio que eu mais gostaria de ter numa equipa minha: Jermaine Jones. A meio-campo, já sabemos, há sempre muita gente para chocar e lutar, mas evitar esses riscos, só a “agressividade táctica”. Não a física de deitar abaixo o adversário. Falo em chegar primeiro ao espaços, em antecipação, meter o músculo da perna, ganhar a bola, avançar com ela e depois recuperar para buscá-la outra vez, no centro, na ala, na terra ou no mar. É isto Jones. Com a devida vénia.

ORGANIZAÇÃO

O SEGREDO

ABRINDO O CORAÇÃO DO MUNDIAL 1O sucesso da Costa Rica é daquelas coisas que, como reação imediata, me faz ter uma sensação fantástica: ganhou o futebol! Uma equipa/seleção com incomparáveis menos argumentos chega aos quartos do Mundial. Uma lição que mostra como uma equipa bem organizada pode debater-se e ganhar frente às mais poderosas.

É, também, o triunfo dum sistema e forma de jogar que molda muitas equipas daqueles continentes (latino)americanos: a defesa a “3”, os três “centrais” , laterais a subir, médios de combate e avançados vagabundos com frasco de veneno atado à cintura. Sou um fã incondicional do médio Tejeda e acho que Campbell deve ter cola na bota esquerda para controlar tão bem a bola. É pena o Ruiz ser tão lento na maiorias das vezes.

Vão jogar contra a equipa mais rápida do Mundial no contra-ataque, a Holanda. Quer dizer, o “expresso Robben”. A melhor forma de defender é dar-lhe espaço para correr desde longe e não nas costa da defesa (retirar a tal profundidade). Tem sido esta a grande batalha táctica da maioria dos jogos. Não permitir latifúndios de relva perto das balizas.

COMO “VIVE” A COLÔMBIA

Pensando em sedução, pensa-se na Colômbia. É a seleção que ainda combina melhor posse (James a travar e a dançar com a bola) e velocidade (o velocista Cuadrado na ala direita). Tem, depois, atrás, quem saiba cortar e bater na...bola. A dupla Aguilar ou Mejia e a “rocha” Sanchez. O nº9 tem várias faces, desde a elegância de Jackson ao faro de Teo Gutierrez.

Esta Colômbia de Perkerman tem uma das bases que considero para uma boa equipa se montar e funcionar: a ordem é o ponto de partida para começar a jogar mas nunca pode é o ponto de chegada durante o jogo. Ou seja, cada jogador saber usar a sua liberdade “ordenada”. Atingir a tal “desorganização organizada”. Este pequeno artigo pode estar a ficar um pouco confuso. Não faz mal. A seleção da Colômbia também provoca o mesmo efeito nos adversários. No fundo, até é uma equipa com ideias simples. Passes bem feitos, velocidade e remates.
Com o Brasil terá de ser mais atenta sem bola. Por isso a “montanha” Ibarbo que ataca e fecha logo muito bem no meio-campo pode ser chave para que tudo isto ganhe corpo táctico mais forte e trave o samba mais veloz.

A BÉLGICA E O ESPAÇO

ABRINDO O CORAÇÃO DO MUNDIAL2Continuo a achar que a melhor posição para Fellaini é a interior. É onde começa mas depois ora o vejo demasiado avançado ou recuado. O problema é Witsel ter futebol para ter muito mais influência em posse de bola nesta Bélgica. Ele é que devia ser o nº8 do onze. Na frente, Hazard é um eterno “aprendiz de feiticeiro”. Falta-lhe sempre um pouco mais de objectividade a acabar a jogada. Quem joga mesmo muito é De Bruyne, mesmo andando pelo centro, ele que é mais um flanqueador da faixa e cruza as bolas em parábolas perfeitas. Mas, o talento encontra sempre uma saída. E contra os EUA, De Bruyne, no golo e no passe, encontrou-as por caminhos numa altura em que na frente, em vez das deambulações perigosas de Origi, já estava um nº9 para “arrombar” defesas: Lukaku.

As “chuteiras de ballet” de De Bruyne junto com as de “aço” de Lukaku derrubaram o muro Howard na baliza americana. Será um grande desafio para a confundida corte de Messi que vive essencialmente do talento individual. Algo que, claro, também pode ganhar um jogo por si só. E, na maioria das vezes, ganha mesmo.