“ACIMA DISTO JÁ NÃO HÁ MAIS NADA!”

30 de Julho de 2014

É o momento que todos sonham desde que, na rua, em baldios de terra esburacados ou pátios de escola apinhados, começam a correr atrás da bola. E, atenção, nesses “grande jogos da infância” joga-se mesmo para ganhar até ao rasgar das calças e arranhão na cara. Depois os anos passam. E a vida adulta, tantas vezes, é um cemitério de sonhos. Para alguns, não é. Para uns eleitos que, com classe, acasos, qualidade ou coisas da vida, chegam ao local onde gosto de dizer que “acima disto já não há mais nada!”. A Final do Mundial. Onde esteve Andrade, Meazza, Piola, Gigghia, Puskas, Pelé, Garrincha, Charlton, Jairzinho, Cruyff, Kempes, Rossi, Maradona, Matthaus, Romário, Zidane, Ronaldo “fenómeno”, Del Piero, Iniesta. Um nome, o primeiro que me veio á cabeça, por cada grande Final, de 1930 a 2010.

Honestamente, não me apetece muito prever esta Final, nem entrar por detalhes tácticos. A estratégia de Sabella contra o maior poder inquestionável da “máquina” de Low. Só para deixar um apontamento que não torne esta crónica algo estranha, direi que espero um jogo com um tendência semelhante à ultima Final que estas seleções jogaram em 90 (Maradona meio lesionado contra Matthaus no máximo). Foi um jogo com os alemãs a dominar e a Argentina à espera do contra-ataque. Não será assim tão evidente e permanente, mas a tendência será essa. Naturalmente.

Honestamente, o que me apetece é pegar nesta crónica (faltando mais duas para fazer o balanço total deste Mundial) para dizer que o que me deixa mais feliz foi ter-se cumprido aquilo que escrevi na primeira, quando a acabei desejando é que este Mundial me fizesse voltar a sonhar. Sim, fez.

Consegui voltar a sonhar, embora, claro, seja impossível, neste país que às vezes penso ser gerido desde o ar por alguém gozador num helicóptero ás bolinhas, não voltar em breve à realidade. Disfrutemos, pois, deste dia. São momentos, noites e luas, para ter vontade de ver, falar e escrever de futebol como nunca. Tudo, claro, sempre “especialmente dedicado apenas aqueles que amam verdadeiramente o futebol!”

O MELHOR “JOGADOR”

ACIMA DISTO JÁ NÃO HÁ MAIS NADA

A regra nasceu nos Olímpicos de 92, após um soporífero Mundial 90. Era preciso fazer alguma coisa e proibiu-se os guarda-redes de apanhar a bola com as mãos após um passe dum colega. Desta forma distinguiam-se duas gerações de guarda-redes. Os da era antiga (para quem a bola nos pés era quase um objecto misterioso) e os pós-modernos (que tiveram a aprender a jogar muito mais com os pés).

Quando a regra mudou Neuer tinha 6 anos. Cresceu e fez-se guarda-redes, portanto, com essa nova obrigação com as botas. Até ser hoje ser dos “adultos” que melhor entende e executa essa ação que torna o guarda-redes também num verdadeiro “jogador de campo”.

No modelo duma equipa grande que sobe a defesa 30 metros e deixa muito espaço nas costas (a tal profundidade) passa então quase a libero. Mais do que defender a baliza, ele tem de antes saber “ler o jogo” e sair em antecipação, rápido, bem fora da área e jogar com os pés (afastando a bola). Neuer tem sido perfeito nessa ação. Por isso acho incrível que não esteja nomeado para melhor jogador e só para melhor guarda-redes. A divisão, com ele, deixou de fazer sentido.