Afinal, quem joga melhor?

06 de Maio de 2016

Uma coisa é o que os resultados (a classificação) diz, outra coisa é o que os jogos (as exibições) dizem. Jesus lançou o debate nas últimas semanas e ele paira em cima das jornadas decisivas do campeonato embora para Rui Vitória só interesse, neste momento, o primeiro discurso. Dizer qual a equipa que “joga melhor”, o titulo que Jesus afirma já ter ganho, é levar o debate futebolístico Benfica-Sporting para outro nível onde entram muitas variantes. Nenhuma delas é conclusiva porque as formas de... jogar são diferentes. Nem penso aqui na questão da eficácia. Penso que há momentos do jogo em que uma é melhor e noutros em que já é a outra mais forte.

1.
O Benfica, com o decorrer da época, afinou melhor o seu processo defensivo em jogo posicional. Controla melhor a profundidade dos adversários subindo a defesa devido à colocação e ação... reativa dos seus centrais (sobretudo Jardel) a ler o espaço livre nas costas (e a ocupá-lo em antecipação). A entrada de Fejsa no processo defensivo foi chave e colocou a equipa a defender melhor nos equilíbrios a partir do meio-campo. A atacar não mudou os seus princípios. Acrescentou algumas dinâmicas individuais distintas (desse que saiu Gonçalo Guedes e Pizzi surgiu para relacionar a faixa com as zonas interiores). Ao longo da construção da sua identidade, a evolução do jogo encarnado passou pela evolução do seu equilíbrio sem bola (ou nos momentos da perda). É esse primado da organização (acima da dinâmica por si só) que faz hoje a equipa ser forte mesmo quando desgastada física e mentalmente. Nesses momentos só a cultura da organização (a defender e a atacar) a pode salvar.

2.
O Sporting tem uma forma de jogar “macro” inalterável desse o inicio. Não tem o mesmo “jogo posicional” a defender, mas será das equipas de Jesus a que menos tem tendência a “partir-se” no processo defesa-ataque-defesa porque é aquela que mete melhor os alas “por dentro”. João Mário é o dono dessa caixa de velocidades táctica da equipa. Junta-se como “terceiro médio” numa equipa que tem uma falsa estrutura de 4x4x2 pois não cultiva o segundo-avançado da mesma forma que fazia Jesus nas suas anteriores equipas. Quando joga Gutierrez é quando se aproxima mais disso, mas nunca de trás para a frente em ruptura. Pega melhor na bola colectivamente em velocidade apoiada (dizendo que o jogo apoiado não tem necessariamente de ser feito em passes essencialmente curtos para ser rotulado dessa forma).

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Estes conceitos-macro das duas equipas não impedem, claro, “nuances de princípios” (ditadas pela estratégia ou variabilidade das dinâmicas). Por isso, em transição para o ataque, o Sporting procurar algumas vezes a profundidade como primeira opção. O Benfica faz mais vezes uma “transição ofensiva individualizada” o que resulta não só da estrutura como também das características e jogar de Renato Sanches, o “condutor de jogo” pelo corredor central.
Nenhuma equipa grande se pode demitir de saber “construir curto” que vai muito para além da simples referência das relações de superioridades numéricas. Ambas defendem, por principio, num bloco médio/alto, mas quando o fazem bem é quando a sua consistência defensiva começa antes (por isso o crescimento do Benfica de Fejsa)
Olhando para a época desse o inicio, o Sporting foi, das duas equipas, a que mais vezes melhor futebol jogou. Cada jogo, porém, tem depois a sua história e a chave está na capacidade das equipas usarem as suas forças para o ganharem. Jogo a jogo, nessa perspectiva, a partir de meio, foi o Benfica.