ÁFRICA: A IMAGINAÇÃO DE DEUS

27 de Abril de 1997

ÁFRICA A IMAGINAÇÃO DE DEUS

Graham Greene, escritor inglês que atravessou o século, profundo conhecedor de África, escreveu em The Heart of the Matter: "Cuidado, este não é um lugar para emoções!". Mas para os amantes do futebol, África continua a ser um lugar onde "nasceram" muitas emoções. Um continente de muitos contrastes, mas sempre com uma atitude vibrante a gerir todas as situações por maís dificeis que sejam. Todo o homem, mesmo que afirme o contrário, é facilmente hipnótizável por palavras como mistério, mística, Deus, sagrado, caminho, feiticeira, etc.

Todo o imaginário que lhes está implícito atraí irresistivelmente o espirito humano. Um "cocktail" de emoções que Africa abriga e que a "expressão corporal" primitiva do futebol do continente negro parece "desenhar". O futebol africano, a sua história, vida e futuro, só pode ser analisado e entendido por entre estas enigmáticas atmosferas. Só agora a Europa, que em princípios do século junto com os seus soldados, comerciantes e colonos, introduziu o jogo que tanto intrigava os índigenas, descobriu as riquezas do futebol africano. Mas a magia do futebol sempre agitou e "mergulhou" no entusiasmo ou na tristeza, nações inteiras com um património sócio-cultural ainda frágil, influenciado pelo tribalismo e pela herança das ditaduras coloniais.

Com o ínicio dos anos 50, e a eclosão das independências, a inexperiência do príncipio fez com que se copiasse as formas tradicionais do mundo ocidental: jogo defensivo e contra-ataque, na procura de resultados imediatos, o que levou a uma espécie de "descolonização conceptual" do futebol africano. Os maus resultados de um estilo "contra-natura", confundiu os "espiritos africanos". A unica forma de apoiar o futebol africano é ajudá-lo a tomar consciência do que o instinto lhes dita: jogo criativo inato e vocação ofensiva, integrando-o nos disciplinados esquemas técnico-tácticos europeus. É dentro deste "novo estilo" que surgiram nos ultimos anos as fabulosas equipas africanas.

OS "LEÕES INDOMÁVEIS" E AS "SUPER ÁGUIAS"

ÁFRICA A IMAGINAÇÃO DE DEUSA última década marcou uma viragem do poder do futebol africano da África do Norte, a região mais rica do continente, com o Egipto e Marrocos, para terras a sul do Sarah, onde na zona Ocidental, irromperam os "leões indomáveis" dos Camarões e as "super águias" da Nigéria. Em 1982 e 1990, Camarões, com o seu génio atacante conquistaram o público e levaram-no a descobrir África. John Fashanu, nigeriano, ex-jogador do Wimbledon, conta: "Nesses tempos falei com muita gente sobre os Camarões e todos pareciam pensar que Roger Milla vive lá sozinho. Julgavam que só existia um país africano e Milla vivia lá sozinho, sem mais ninguem." Mas, tal como a maioria do continente, os Camarões, país da Africa Ocidental, independente da França há mais de 30 anos, vive uma grande crise económica. A democracia não existe, e o governo usa o futebol como forma de unir o povo. Antes do jogo Camarões-Zimbabwe, decisivo para o apuramento do EUA-94, estava convocada uma greve geral para o dia seguinte. Os seus organizadores apostavam na derrota e na tristeza, o que levaria ao caos no país. Mas o Camarões venceu 3-1. Grande euforia, o presidente decretou feriado nacional e foi o fim da greve. Isto prova como o futebol pode ajudar este regime.

Em 1994 "explodiu" a Nigéria, a "noiva de África", comandadas pelo polémico holandês Westerhoff, durante 5 anos- o treinador europeu que mais tempo esteve em África- o que, para, o sucessor Jo Bonfrere é uma proeza notável:"Não dava mais de um mês á maioria dos treinadores europeus na Nigéria. Eles iam-se embora. Isto é incrivel. Você não é apenas treinador, também é dirigente, apanha-bolas e enfermeiro. Têm de organizar as viagens, bilhetes, reservas de hotel, visas. A maoiria dos treinadores ficaria loucos em pouco tempo!".

Westerhoff recorda: "Ás vezes os jornais diziam que não precisavam de mim. Mas sabiam que estavam enganados. O Christian Chokino, meu adjunto, é um bom treinador, mas não o ouvem, não o respeitam. Eu grito com eles. Sou duro, sou um lutador de rua, directo e sincero. Eles são loucos por futebol, eu sou louco por este país". Em 1996, com Bonfrere, o mundo "descobriu" nas Olímpiadas de Atalanta uma fantástica equipa nigeriana, onde brilhavam Kanu, Bababangida e Amokachi, entre outros, num grupo empolgante: "Tive sempre uma excelente relação com os jogadores.", conta Bonfrere, "Estavam sempre prontos para treinar. Estivemos juntos seis semanas seguidas, sem qualquer recreio. Treinavam e dormiam. Uma união inacreditável. Alguns jogadores, profissionais, tiveram, por vezes de dormir no chão, sem protestar, por que não havia mais lugares. Em que outro lugar do mundo alguém viu uma coisa assim?"

MARROCOS: O REI E A TAÇA

Em 1949, na equipa do At.Madrid que conquistou a Liga Espanhola, a sua grande figura fora uma "pérola negra" chamada Larbin Ben Barek. Permanecendo Marrocos uma colonia de França, logo a selecção francesa o convocou. Originário de um meio pobre, Ben Barek acabou por morrer na miséria, mas o seu estilo deixou marcas nos anos vindouros, foi o primeiro grande jogador africano de sempre, estava simplesmente avançado para o seu tempo. Ainda hoje em Marrocos é recordado como um mito, num país de mercados e "kashbas", devotamente muçulmano, onde o porte e a nobreza do cavalo simbolizam uma nação cujas raízes estão intimamente ligadas á monarquia do Rei Hassan II. O Rei adora futebol e em Marrocos, para um jogador, ser internacional ou vencer um campeonato não é nada. O máximo da realização do futebolista-cidadão é jogar a final da Taça do Rei, e subir á tribuna para beijar duas vezes a mão de Hassan II. Nem importa se ganhou ou perdeu o jogo.

ETERNAMENTE EUSÉBIO

ÁFRICA A IMAGINAÇÃO DE DEUSPara Graham Greene "as africanas têm as costas mais bonitas do mundo". Para os amantes do futebol, a beleza suprema de África estava nos movimentos do corpo "cor de chocolate" de Eusébio. Durante os anos 60 só o seu nome gerava medo nos adversários e extâse nos seus adeptos. Quando Eusébio chegou, em 1960, o Benfica tinha ganho 10 campeonatos, tantos como o Sporting. Nos 15 anos em que jogou na Luz, o Benfica conquistou mais 11 e o Sporting apenas 4. O "rei" deixou obra e desiquilibrou a história do futebol português. Desde esse tempo que muitos clubes portugueses procuram descobrir um fenémeno semelhante ao "pantera negra". A memória retêm nomes como Jordão e Dinis "brinca na areia".

No recente, o caso mais evidente desta ânsia de "reencarnação" de Eusébio, esteve no clamor que rodeou a contratação de Akwá pelo Benfica. De comun, porém, só a origem. Nunca mais voltará a existir outro Eusébio, como nunca mais haverá outro Péle. A história nunca se repete. Repetida apenas a imagem dos "meninos da rua" a jogar, por entre "poeira de areia", nas clareiras de terra queimada pelo sol, ou em espaços nostálgicos sob a sombra de uma secular palmeira vergada.

Mas muitos são os que vêm a força do futebol africano no regresso da "gigante" África do Sul. Finalmente os "madibas" (velhos, em linguagem zulu) vêm o futebol, desporto dos negros, sair dos terrenos pobres do Soweto e encher os estádios onde antes só se jogava raguêbi, desporto dos brancos. A força do futebol sul africano é o orgulho da maioria negra que viveu sufocada durante muitas décadas. As "armadilhas" da história dentro das"quatro-linhas" de um relvado de Soccer. Fala-se de África como se fala de uma mulher por seduzir, fatal, de uma paixão proibida. Fala-se do seu futebol como de um "diamante" em bruto, finalmente a ser lapidado. Como diz John Fashanu: "Dá-se a um miudo branco uma bola e diz-se-lhe: ok, vamos treinar-te! Dá-se a mesma bola a um miúdo negro e diz-se-lhe:ok, joga!". África!

De 1970 a 2000 OS MELHORES JOGADORES AFRICANOS

1970 – Keita (Mali / St. Etienne)

1971 – Sunday (Ghana / Ashante Koyoko)

1972 – Souleymane (Guiné Conakry /Hafia)

1973 – Bwanga (Zaire / TP Mazembe)

1974 – Moukila (Congo / Cara Brazzaville)

1975 – Faras (Marrocos / Mohammedia)

1976 – Milla (Camarões / Canon Yaounde)

1977 – Dhiab (Tunisia / Esperance)

1978 – Razak (Ghana / Ashante Kotoko)

1979 – N `Kono (Camarões / Canon Yaounde)

1980 – Ouguene (Camarões / Canon Yaounde)

1981 – Belloumi (Argélia / Mascara)

1982 – N `Kono (Camarões / Espanhol)

1983 – Al-Khatib (Egipto / Ah-Ahly)

1984 – Abega ( Camarões / Toulose)

1985 – Timoumi ( Marrocos / Mallorca)

1986 – Zaki (Marrocos / Mallorca)

1987 – Madjer (Argélia / FC Porto)

1988 – Bwalya (Zambia / Brugges)

1989 – Weah (Liberia / Monaco)

1990 – Milla (Camarões / St.Pierroise)

1991 – Abedi Pelé (Ghana / Marselha)

1992 – Abedi Pelé (Ghana / Marselha)

1993 – Abedi Pelé (Ghana / Marselha)

1994 – Weah (Liberia /PSG)

1995 – Weah (Liberia / PSG) *

1996 – Kanu (Nigéria / Ajax) **

1997 – Ikpeba (Nigeria / Monaco)

1998 – Hadji (Marrocos / Corunha)

1999 – Kanu (Nigeria / Arsenal)

2000 – Mboma (Camarões / Parma)

* Vencedor da Bola de Ouro Mundial

** A partir de 1996, Jogador do Ano da CAF