África: bola, relva e táctica

19 de Fevereiro de 2012

África: bola, relva e táctica

Sem alguns dos seus gigantes (Camarões, Egipto, Nigéria) é uma CAN diferente. Qual o ponto de evolução do futebol africano? Que destaques e impressões ficam deste Torneio? Eis algumas dessas reflexões e respostas.

1. Cada vez mais se impõe um ritmo lento de jogo. Num ponto, porém, a CAN evoluiu. Antes olhava para os seus jogos e concluía que era o torneio mais defensivo do mundo, tal a forma como as selecções, grandes ou pequenas, se preocupavam sobretudo em manter posições defensivas. Talvez fosse resultado das ordens mais insistentes dos treinadores europeus que chegados a África viam logo que o grande problema eram as deficiências, quase ingenuidade, a defender, a nível táctico. Nisso, o jogo melhorou.

As equipas estão mais equilibradas nos três sectores (organização e transições). Tudo, porém, como saída desde trás lenta, embora depois acelerem a atacar, mas isso resulta mais das características dos avançados, quase corredores de fundo em termos de pedir bolas para desmarcações.

Está um jogo cada vez mais físico. O jogador africano que mais seduz a Europa deixou de ser o driblador tecnicista, para ser o mais forte atleticamente. O «protótipo-Yaya Touré» aplicado a várias posições. Tal nota-se mais na África negra. Não penso que isso faça crescer o futebol africano. Pode aumentar o seu poder competitivo, mas, sem um enquadramento proporcional, turva-lhe as raízes que o tornam diferente e sedutor.

2. A sensacional Zâmbia conquista o Torneio seguindo a pista do melhor futebol do Torneio. É uma equipa, primeiro, muito bem entendida e, depois, muito bem montada, pelo francês Hervé Renard, sábio dos bancos africanos.

Em 4x2x3x1 aguenta muito bem as posições com dois médios defensivos fortes, onde se destaca Sinkala, 21 anos, atlético e com visão de primeiro passe (e ainda joga na Liga zambiana, no Green Buffaloes…) e uma linha de três médio-ofensivos, com alas (excelente Kabala, ora a verticalizar à linha, ora a ir para zonas interiores, com bela visão de jogo e passe) e dois avançados (o versátil Mayuka e o experiente Chris Katongo, 30 anos, que ora recua para segundo avançado, ora sobe e faz um 4x4x2). É a sedutora aliança Kabala-Katongo-Mayuka, o trio que faz voar a Zâmbia.

A melhor equipa da CAN a unir, no jogo, poder atlético e imaginação, mas sem perder posicionamento táctico.

3. A Costa do Marfim, terra de Drogba, em 4x3x3, dependeu, nos últimos 25 metros, da inspiração dos extremos Gervinho-Kalou, mas ao subir Yayá Touré para a segunda linha do meio-campo ganhou capacidade de pressionar e recuperar bolas muitos mais perto da área adversária. Atrás, Tioté é um médio, jogando num duplo-pivot, discreto mas tacticamente muito completo.

A equipa aguenta as posições a defender (laterais mais posicionais). Por isso, parte-se em duas no jogo. Ataca com velocidade, defende posicional e sai lenta mas com força. Raramente perde a bola em inicio de transição.

Diferentes Mundos

África: bola, relva e táctica Receberam o torneio, caíram nos quartos-final, mas deixaram aromas de bom futebol. Gabão e Guiné Equatorial, entre sonho e realidade.

4. O Gabão é a selecção africana que mais cresceu nos últimos anos. Ganhou a Can Sub-23 e vai estar nos Jogos Olímpicos. Um trabalho de continuidade. Tem um avançado de top, emprestado pelo Milan ao St.Etienne, Aubameyang, 22 anos. Pode ser um 9 clássico, como mais móvel, porque também vai buscar a bola às faixas e, com noção de equipa, procura triangulações e lê bem os espaços vazios.

5. A Guiné Equatorial continua a viver do impulso espanhol que lhe dá muitos jogadores desde divisões secundárias. Desde o patriarca Bodipo até ao lateral-direito tornado herói ao marcar um golão ao minuto 95 que eliminou o Senegal: Kily Alvarez, joga no Langreo da III Divisão espanhola! Juvenal, 33 anos, do Sabadel, é o patrão da equipa, como pivot. Bolado, do Cartagena, é um 10 móvel e Randy o ala mais perigoso. Balboa, extremo em Portugal, na selecção joga no meio em rupturas, atrás do ponta-de-lança Fidjeu.

Um onze solto a atacar no qual foi titânico ver Rui Gomez, o central patrão, a saltar da II Divisão B, do Logroñes, para tentar travar Drogba e seu exército da Costa do Marfim. Um choque de diferentes galáxias. Fica a notado excelente trabalho táctico de Gilson Paulo, o técnico que saiu das camadas jovens do Vasco da Gama para orientar esta selecção sonhadora.

Relatório-Angola

África: bola, relva e táctica Analisar a selecção de Angola é, sobretudo, tentar perceber o que correu mal.

6. Passando pelas polémicas das convocações, o onze de Lito Vidigal caiu a partir das bases, ou seja, da sua defesa. Laterais com vontade de subir mas pouco cultos a fechar por dentro e centrais (Zuela-Dany) lentos a reagir perante aumentos de ritmo adversário. Embora tenha um pivot, Macanga, lento (que, com a experiência se coloca bem mas trava muito a equipa na transição ofensiva) e não veja vantagem em puxar Gilberto de lateral ou ala esquerdo para médio-interior (o seu jogo perde, num ápice, espaço e profundidade) a equipa tem um trio atacante muito perigoso.

Manucho confirmou-se como um grande nº9 de torneios curtos. Porque não rende num campeonato ao mesmo nível só quem o treina poderá responder.

E a palavra «treino» será importante neste contexto. Mateus é quem lê melhor o jogo, Flávio a falso-avançado disfarçado de 10 não agita o jogo e quanto a Djalma não vejo que esta transformação física, está muito mais robusto, esteja a melhorar o seu jogo como ala esquivo que é na sua essência.