Ainda é possível um treinador criar um “futebol de autor”?

23 de Maio de 2015

Olhando a época, Jesus identificou como decisivos os jogos de Alvalade e o clássico da Luz. Empatou ambos (1-1, 0-0) com as estratégias mais fechadas do Benfica desta época, chocando contra o seu modelo, porque “eram jogos que não podíamos perder”.

Esta nova consciência de pensamento marcou a diferença nos mais frios jogos encarnados.

Fala-se que este bi-campeonato abre um novo ciclo no futebol português: o “ciclo do Benfica”. Não é bem assim. O que estas seis épocas abriram (nos títulos ou nas lutas até ao fim) foi o “ciclo do Benfica... de Jesus”. Ele mudou a face de outros projetos-Vieira, com Quique, Camacho (duas vezes), Koeman e até Trapattonni (campeão numa época atípica). Jesus mudou a forma de jogar e trouxe um modelo (sistema/dinâmicas) invulgar (pelo risco e sedução ofensiva) nos nossos relvados. Criou um “futebol de autor”.

É óbvio que o Benfica pode voltar a ganhar sem Jesus mas é totalmente impossível voltar a ganhar desta forma sem Jesus. E isso é que faz um ciclo no sentido puro, futebolisticamente falando.

O fim de um ciclo é o fim de uma ideia. Neste momento não faz sentido falar disso na Luz. Nem, noutro contexto, no Dragão.

Vejamos o caso do ciclo de Lopetegui. Independentemente da política de contratações, a questão é saber se o seu estilo e ideia de futebol continua a ter condições para serem aplicadas e se existe vontade para isso pelo “status" portista.

Se sim, como tudo indica, o seu ciclo permanece vivo, apesar de (mesmo atendendo que Jesus está há seis épocas na Luz e Lopetegui só há uma no Dragão) não se identifique esse tal diferenciador “futebol de autor” como no modelo-Jesus.

Sempre achei, porém, um mito a questão do tempo para fazer grandes equipas ou construir ideias de jogo. Jesus, por exemplo, ganhou logo no primeiro ano com este modelo de ataque rápido (e risco defensivo). Como no FC Porto também ganharam, só para pegar na última década, Mourinho, Adriaanse, Jesualdo, Villas-Boas e Vítor Pereira. O tempo é uma falsa questão. Nenhuma ideia sem uma base positiva poderá tornar-se boa por mais tempo que decorra. Qualquer ideia com uma base positiva revela-se logo boa na equipa no primeiro ano. O segredo, para essa aceleração de construção, é muitas vezes não recuar na coerência da ideia (na forma de jogar e jogadores escolhidos).

Jesus nunca teve (para o bem e para o mal) dúvidas. Lopetegui (com a escola espanhola de posse circular em mente) mudou muito nas primeiras etapas de construção do seu modelo. Isso faz, muitas vezes, os jogadores cresceram com dúvidas.

Os sucessivos jogadores benfiquistas que chegam desde 2009 crescem com certezas e se algum ousa sair um centímetro desse manual táctico, leva um grito que lhe abala o cérebro e rapidamente volta para o seu lugar.

AS MÃOS E A IMPRESSÃO DIGITAL

A história do futebol está repleta de grandes treinadores, mas os que ocupam um espaço especial intemporal, são aqueles em que se identifica um chamado “futebol de autor”. Aqueles que mais do que os associar a títulos, associamos a uma ideia de jogo (que, em qualquer época, marcou uma ruptura).

Não interessa se esse estilo seduz mais ou não, se é mais ofensivo ou defensivo. O “treinador de estratégia” não fica na história pelas ideias (fica pelos resultados). O “treinador de futebol de autor” fica mesmo não sendo o mais vitorioso.

Jesus cresceu em equipas secundarias a falar no sonho de jogar em 3x4x3 da escola holandesa (tentou meter uma versão em clubes pequenos como o seu Felgueiras de 95), mas quando chegou a uma equipa grande, nunca teve ousadia de o tentar fazer.

Algumas bases holandesas, sobretudo a polivalência multi-posicional dos jogadores, estiveram sempre presentes.

Não é possível todos os treinadores criarem um “futebol de autor”, mas desconfio sempre muito dos que não se identificam com uma escola e andam camaleónicamente pelos bancos de tantas, tantas equipas.