Ainda existem heróis

11 de Novembro de 2009

Ainda existem heróis

Cada título tem os seus heróis. Há 17 anos que o Flamengo não era campeão brasileiro. Quando, depois do jogo do título, se ouvia Zico, o mago tetra-campeão dos anos 80 (80, 82, 83 e 87) a falar desde a Grécia, era inevitável pensar em quem pode ser o herói do onze actual a ser mais lembrado daqui a uns anos. É difícil dizer um nome. Existe, claro, o imperador Adriano, mas se procuramos pelo clássico driblador carioca que fez do Maracanâ um local mágico através dos tempos, ele não existe. Ou melhor, ele até está perto do gramado, mas sentado no banco e bem mais velho do que quando nessa linda década de 80 escrevia, ao lado de Zico, Junior, Nunes ou Adílio, poemas com a bola: o técnico Andrade, outrora médio genial desse onze artístico.

Hoje tem o estilo do velho sábio que gosta de contar histórias. Mais professor do que treinador, dizem. Estava na formação, ensinando garotos, quando com o time principal a jogar tão mal, o treinador Cuca foi despedido e Andrade foi chamado para, interinamente, assumir a equipa. Ficou até ao fim. Porque só alguém como ele, vindo das profundezas da Gávea, podia conhecer tão bem entranhas do Mengo. Olhando o maior poder (em jogadores) de São Paulo, Palmeiras e Internacional, este titulo do Fla é um autêntico milagre de Andrade. Ele trouxe de volta a alma dos anos 80.

Mas, a verdade, é que também meteu táctica no meio. Mal chegou, renegou o 3x5x2 de Cuca, e colocou a equipa a jogar em 4x4x2. Com isso, deu maior equilíbrio defensivo e dinâmica ao meio-campo. Ao mesmo tempo, alguns jogadores renasceram com ele. Foram os casos do segundo avançado Zé Roberto (a outra opção para o lado de Adriano era Bruno Mezenga) e do maestro Petkovic, então adormecidos. Foi buscar ao Internacional (onde não jogava) o veterano central Alvaro, 32 anos, e, assim, ganhou o centro da defesa. Resgatou experiente Maldonado e ganhou um volante mais maduro, fixando Airton como trinco à europeia. Sem Maldonado, soube encaixar Toró no espaço e libertou Willians, para missões mais ofensivas. Não existe aqui nenhum grande criativo. Ninguém viu este Flamengo a fazer fintas durante os jogos. Inteligente, Andrade soube manter os laterais ofensivos (Leo Moura-Juan) mais típicos da defesa a «3», no novo sistema de 4x4x2, graças à compensação dos dois volantes (Ayrton, Maldonado, Toró ou Kleberson).

São outros tempos. Outro futebol, também. Mas a alma é eterna. Só alguém como Andrade para a entender e fazer o tempo voltar para trás. Um sentimento que guiou, também, o renascimento de Adriano que saíra de Itália em depressão profunda. Mais do que regressar ao futebol, ele regressou à…vida! Como o Flamengo.

O Avaí de Silas

Ainda existem heróisAndrade foi eleito, claro, o técnico do ano, mas, olhando todos os bancos, a grande revelação da época no futebol brasileiro veio de outro nosso velho conhecido: Silas. A sua obra foi o bom futebol apresentado pelo Avaí. Ficou em 6ºlugar. O sistema de jogo que moldou as melhores exibições foi um 3x5x2 com especial atenção à marcação. A base eram três zagueiros (Anderson Luis, Rafael e Augusto) e dois volantes mais fixos na marcação, largando depois Caio para apoiar os mais criativos, onde Muriqui e Marquinhos, por vezes também pareciam avançados, dois perigos à solta.

Deste seu onze existem vários jogadores para seguir no futuro. Muriqui faz o que quer da bola quando arranca com ela. Duvido se triunfa num grande europeu (se percebe logo as marcações mais apertadas de que será alvo) mas num clube de nível médio, para começar (tem 23 anos) seria o ideal para ir crescendo. Marquinhos. 28 anos, já é um jogador feito, mais forte fisicamente. Os laterais (Luis Ricardo e Eltinho) saltam muito à vista, mas são bons sobretudo a atacar. A defender é o clássico problema de ter timing de recuo. No eixo, destaque-se o central Augusto, 23 anos, forte, tempo de corte e com boa saída de bola. Veio do Mirassol e tem tudo para crescer pois o potencial do seu futebol salta logo à vista.Entretanto, Silas vai partir. Para o Grémio. Pode estar a nascer, com recordações europeias, um belo técnico para dar cartas no futebol brasileiro.

Airton, a "âncora" brasileira

Ainda existem heróisVisto da bancada, vendo a forma adulta, serena, como resolve todas as jogadas, de forma simples, cumprindo burocracias tácticas sem tremer, protegendo a sua defesa na zona de risco junto à área, não imagina que quem está ali é um garoto com apenas 19 anos. Mas é mesmo. É este o estilo de Ayrton, um nome às portas da Europa, falado para o Benfica após um Brasileirão jogado quase num estilo táctico europeu tal a forma rigorosa como se colocava à frente da defesa, na chamada posição 6, trinco ou volante de cobertura, cortando a bola e fazendo o primeiro passe, simples e quase sempre curto, para iniciar a transição defesa-ataque.

Ainda existem heróisMuito posicional, é uma espécie de âncora (como Javi Garcia) que dá referências de equilíbrio à linha defensiva e ordena primeiros movimentos pós-recuperação na primeira linha do meio-campo. Um tipo de jogador produto da nova ordem táctica do futebol brasileiro. Em vez da finta, o passe curto. Em vez da técnica fina, a táctica certa. Espaço dominado, bola controlada. Assim, por esta ordem.

O segundo classificado do Brasilerão 2009, tinha, no onze base, melhores valores individuais que o Fla. Basta olhar para a segunda linha do meio-campo onde Giuliano, Marquinhos e o vagabundo D´Alessandro inventavam bolas de golo para Alecssandro (ex-Sporting). Atrás, Guinazu enche o campo todo, luta e joga, apoiado por Sandro, apenas 20 anos, um volante-pivot de grande categoria para brilhar na Europa