AL AHLY SPORTING CLUB

04 de Dezembro de 2000

( NACIONAL/ EGIPTO )

NA SOMBRA DA ESFINGE, o maior clube do futebol africano. Um universo de faraós da bola como Hegozi, Al Tetcha, Saleh Salim, Hossan Hassan, goleador temível, Abdel-Ghany e o Coronel da União Sagrada Mahmoud Al-Gohary, todos em luta eterna comntra o grande ríval Zamalek.

Fundado em 24 de Abril de 1907
Onde Joga: Estádio Internacional do Cairo
Campeão egípcio: 1949, 1950, 1951, 1953, 1954, 1956, 1957, 1958, 1959, 1961, 1962, 1975, 1976, 1977, 1979, 1980, 1981, 1982, 1985, 1986, 1987, 1989, 1990, 1995, 1996, 1997, 1998, 1999 e 2000.
Taça do Egipto: 1924, 1925, 1927, 1928, 1930, 1931, 1937, 1940, 1942, 1943, 1945, 1946, 1947, 1949, 1950, 1951, 1953, 1956, 1961, 1966, 1978, 1981, 1983, 1984, 1985, 1989, 1991, 1992, 1993, 1994 e 1996
Taça dos Campeões africanos: 1982 e 1987
Taça das Taças africana: 1984, 1985, 1986 e 1993
Taça dos Campeões árabes: 1996
Taça das Taças Árabes: 1995
Taça Afro-Asiática: 1989

AL AHLY SPORTING CLUB1Situada nas margens do Nilo, milenar tutor da chamada África branca, a cidade do Cairo, capital do Egipto, berço de uma mais inteligentes civilizações da história da humanidade, é um mundo dentro de outro mundo, enigmaticamente fechado nos vértices das colossais pirâmides, onde o homem perde a dimensão do tempo e do espaço. No correr do último século, outro gigante se ergueu, com a força e a paixão, que só as viagens de uma bola de futebol conseguem impor, geradoras de grandes clubes, de dimensão única no continente africano. Entre eles emerge, majestosamente, por entre pirâmides, mesquitas ancestrais, palácios e mausoléus de mil-e-uma-histórias, o Al-Ahly. Fundado em 1906, por 6 estudantes egípcios ferozes opositores do colonialismo inglês, é uma projecção da alma do velho Egipto, testemunha de magicas civilizações perdidas. Orgulhosa bandeira da independência egípcia, o Ah-Ahly, mais conhecido por Nacional, pela sua independentista génese lutadora, é muito mais do que um simples clube de futebol. Desde os primeiros tempos, sofreu a oposição do império britânico, que o ameaçou com suspensões e extinção, sobretudo desde o momento em que soube que o seu primeiro presidente era Sad Zaghloul, o nacionalista líder político do Wafd, a voz do povo. Este confronto serviria, no entanto, para tornar o clube ainda mais amado por todo o país que lutava contra o colonialismo inglês.

Através dos tempos, este sentimento não parou de crescer e hoje é pacífico afirmar que na maior cidade de África, mora o maior clube africano: o Ah-Ahly Sporting Club, um nome mágico, que, na voz do povo, simboliza o popular Nacional, a equipa de todos os sonhos, que tem no presidente Hosni Moubarak o seu mais famoso adepto. O seu domínio no futebol dos faraós é quase sufocante e começou desde que, em 1948, nasceu, oficialmente, a Liga Egípcia. Devido á colonização inglesa, o Egipto é talvez o país africano de maiores tradições futebolísticas, sendo a sua Federação, fundada em 1921, a mais antiga do continente. O Nacional, no entanto, recusou sempre qualquer contacto com o jugo britânico, que, nos anos 20, tentou criar a chamada Liga da União. Altivo como uma Esfinge, o clube do povo disse que não e, inspirado nas lendas do Faraós, construiu o seu perfil mitológico, que penetrou por toda o mundo africano e árabe. Para erguer esse império, muito contribuíram, nos anos 50 e 60, os seus primeiros grandes heróis futebolísticos, então devotos amadores, como Hussim Hegozi, Mohhtar Al Tetcha, Abdel Jalel, Saleh Salim –que mais tarde seria presidente do clube- Adel Haihl, Refat Al-Fanagueli e Tarek Salim. Uma inesgotável galeria de gigantes da bola, responsáveis por, ainda hoje, o simples pronunciar do nome Al-Ahli nas ruas do Cairo, tenha o efeito mágico de logo despertar um brilho intenso nos olhos, velhos e novos, dos 16 milhões de habitantes da lendária capital egípcia, outrora chamada, em árabe, de Misr

HOSSAN HASSAN: Ponta de Lança Faraónico

 

O melhor ponta de lança da história do futebol egípcio. Rápido, com faro de baliza, tem um estilo parecido com o do francês Papin. 101 Internacional vezes pelo Egipto, marcando 62 golos, record absoluto, é o jogo africano que mais títulos conquistou: 2 Taças de África, 86 e 98, melhor marcador do CAN 98 como 7 golos; 9 vezes campeão egípcio, 1 Taça dos Campeões Africanos, em 87 e 3 Taça das Taças Africanas. Começou a carreira em 1985, no Nacional, com 17 anos. Em 1990, ingressou no PAOK Salónica, da Grécia, mas inadaptado ao agressivo futebol grego, mudou-se em 1991 para Neuchatel Xamax, da Suíça, onde recuperou estabilidade, mas dois anos e meio depois já regressava, saudoso, ao seu Nacional, onde permanece até hoje, tendo apontado, em toda a sua carreira na Liga egípcia, 106 golos. Esteve presente no Mundial-90, marcando o golo decisivo que valeu o histórico apuramento. Aos 34 anos já não possui a velocidade de anos atrás, mas, para os amantes do Ah-Ahli, continua a ser a grande estrela da equipa.

Nacional e Zamalek: MONSTROS NAS MARGENS DO NILO

AL AHLY SPORTING CLUB3Já passaram quase 45 anos, desde que, em 1957, Ad Diba marcou quatro golos á Etiópia e conquistou para o Egipto a primeira Taça de África da história. Espiritualmente virado para Meca, o futebol egípcio é essencialmente técnico. Jogada quase sempre sob temperaturas altas, cultivou um estilo de drible e toque curto, onde são muito apreciados les beaux gestes, os lances bonitos. Tacticamente algo ingénuo, está agora perto de atingir a maturidade, espelhada no perfil, algo europeízado, da sua selecção. A nível de clubes, no entanto, esteve sempre na linha da frente da evolução táctica e técnica do futebol jogado no continente africano. A primeira vitória na Taça dos Campeões Africanos deu-se em 1982, quando o Nacional venceu na final o Ashnti Kotoko, do Gana, iniciando a década de ouro do futebol egípcio na competição que se disputa desde 1964, ano em que saiu vencedor o Oryx Doula, dos Camarões. O primeiro clube egípcio a vencer o trofeu foi o Ismaili, em 1969. O Nacional só o voltaria a conquistar o trofeu em 1987. Desde a sua fundação, dono de maior vocação internacional, o Zamalek atingiria maior sucesso que o Nacional, nas provas continentais. A sua epopeia começou com os triunfos de 84 e 87, prosseguindo nos anos 90 com mais dois Taças dos campeões africanos, em 93 e 96. Na sua última conquista superou o Shooting Stars Ibadan, da Nigéria. Eis o histórico onze dessa final: El Sayed; Mostafa, Kacem, Mohamed e Abdelhadi; Ossama, Youssef e Sabry; Mansou e Kace-Said. Treinador: Olk Werner.

ABDEL-GHANY: Do Cairo a Aveiro

AL AHLY SPORTING CLUB4No final dos anos 80, os jogadores egípcios começaram a ser cada vez mais tentados por convites de clubes europeus. Em 1989, o Nacional perdia para o futebol português um dos seus grandes símbolos da época: o médio organizador de jogo Abdel-Ghany, contratado pelo Beira Mar e dono de grande prestígio em todo o Egipto, titular indiscutível da selecção dos faraós. Sempre muito correcto, era um jogador que assentava o seu jogo na técnica e no passe curto, revelando sempre grande espírito de sacrifício. O grande momento da sua carreira foi o penalty que cobrou no Mundial.90 e que valeu o empate contra a Holanda, 1-1, em jogo da 1ª fase do torneio. Depois dele, outros talentos do Egipto rumaram á Europa: Saleh Salim, para a Áustria, Hani Ramzy, que ingressou no Werder Bremen e os irmãos Hossam e Ibrahim Hassan que ingressaram no Neuchatel Xamax, da Suiça.

90 ANOS DE GRANDES DERBYS NACIONAL-ZAMALEK

Depois de conquistar nove títulos nacionais consecutivos, entre 1949 e 1959, o Nacional descobriu, no inicio dos anos 60, um outro clube capaz de combater o seu domínio. Era um clube fundado em 1911, que nascido no popular bairro de Meet Okba, começou por chamar-se El-Mokhtalat, até 1941, ano em que passou a Farouk Club, até que em 1952 ganhou o nome que o tornou célebre: Zamalek, a chamada escola do futebol bonito, por, desde sempre, as suas equipas terem a fama de, mesmo perdendo, praticar um futebol atraente, de fino recorte técnico. O seu primeiro titulo só surgiria, porém, em 1960. Durante as duas décadas seguintes, torturadas por 5 anos de guerra, entre 1967 e 1971, figuras como Ali Mohsen, Taha Basri, Ahmed Mostafa, Farok Jaffar e Ahmed Refast, continuaram a justificar a elegante e virtuosa tradição do Zamalek, agora acompanhada de vitórias. Foi neste período que os grandes derbys Nacional-Zamalek começaram a incendiar todo o Cairo. Frente a frente, duas escolas do futebol egípcio e duas facções sociais. De uma lado um clube nacionalista, do outro um clube que desde a sua criação, onde o primeiro presidente foi o belga Sir Merbach, sempre se abriu para o estrangeiro. A rivalidade atinge tal dimensão, que é quase impossível encontrar um árbitro egípcio para apitar esses titânicos confrontos. Por isso é usual, serem convidados árbitros estrangeiros para os grandes derbys do Cairo, o que já aconteceu, por exemplo, com o inglês George Courtney, os italianos Pairetto e Agnolin, e os franceses Vautrot e Biguet.
Os dois gigantes defrontam-se desde há 90 anos. O primeiro confronto foi em 48/49 e terminou empatado, 2-2. Ao longo dos anos, encontraram-se por vezes para o campeonato e o domínio pertence claramente ao Nacional que conta com 29 vitórias, contra 19 do Zamalek, para além de 37 empates. Paradoxalmente, o Zamalek tem atingido maior projecção internacional. Nos anos 90, passaram pelo clube do bairro das pequenas casas, estrelas egípcias como Al Sayed, Yaken, Ramzy, Masour, Al-Ghandor, Iman, Nabil, Youssef e o nigeriano Emanuel Amunike. No seu palmarés moram 8 Campeonatos (60, 64, 65, 78, 84, 88, 92 e 93) e 18 Taças do Egipto. Aos poucos, a escola do futebol bonito começa a cativar as gerações mais jovens, aquelas que ainda sentem ter direito a sonhar com o futuro diferente, onde as brutais desigualdades sociais que rasgam o incomensurável Cairo deixem de fazer sentido.

Mahmoud Al-Gohari: O Coronel da União Sagrada

AL AHLY SPORTING CLUB7Quando começou a rivalizar com o Nacional pelo domínio do futebol egípcio, o Zamalek não hesitou em contratar algumas estrelas ao seu mítico adversário, como foram os casos de Yakan e Zaki. Poucos foram os homens que conseguiram passar pelos dois clubes e atingir a unanimidade nacional. O caso mais emblemático será o de El-Gohary, o grande renovador do futebol egípcio, na passagem da década de 80 para a de 90. Como jogador, El-Gohay foi um médio aguerrido que fez quase toda a sua carreira no Al-Ahly, onde entrou em 1955, com 17 anos, conquistando 5 títulos de campeão do Egipto. Chamado pela primeira vez á selecção em 1957, com 19 anos, atingiu o ponto mais alto quando venceu a Taça de África, em 1959. Até 1964, foi titular indiscutível do Nacional e da selecção, até que uma grave lesão no joelho, obrigou-o a encerrar a carreira com apenas 28 anos. Foi um choque tremendo que o levou a fugir dos relvados, passando a seguir a carreira militar, onde possui a graduação de Coronel. Em 1977, porém, voltou a sentir o apelo do futebol e regressou para treinar o seu Nacional, com o qual conquistou, em 1982, a primeira Taça dos Campeões Africanos da história do clube. Em 1988 tornou-se seleccionador nacional e levou o Egipto ao Mundial-90, após 56 anos de ausência. Depois de abandonar a selecção, ingressou no Zamalek, onde voltou a ser, em 93, campeão africano. Apesar de se ter transferido para o grande rival, os adeptos do Al-Ahly continuaram a vê-lo como um herói, o único homem a conseguir a chamada união sagrada, entre governo, federação e os dois maiores clubes egípcios, seus directores e adeptos. Por isso, regressou, no final dos anos 90, ao comando da selecção dos faraós.