Além de empolgante, o craque tem de ser determinante!

21 de Agosto de 2016

Dizem que começou o campeonato mas tenho dúvidas que isso tenha acontecido pois a procura pelo craque continua. Rafa acabou por assinar pelo Benfica após longas semanas de debate. Centremo-nos no puramente futebolístico. Vendo a forma de jogar das equipas e suas circunstâncias atuais, escrevi há dias por estas páginas que seria muito mais útil ás opções/necessidades táticas do Benfica que do FC Porto.

Isto pensando numa “nova expressão de Rafa”, jogando menos com as diagonais com que viciara o seu jogo mas sendo, como surgira no sistema de Peseiro na mudança da Supertaça e em Guimarães, jogando mais vertical desde o centro, a arrancar desde trás para se juntar (ou passar com a bola controlada) ao lado do nº9 clássico. Nunca será Jonas, na inteligência acumulada com que processa o jogo, mas pode andar pelos mesmos espaços. O FC Porto, mesmo o que jogou contra a Roma, que resgatou Adrian Lopez para uma zona central semelhante mas missões/dinâmicas tácticas diferentes do que faz Jonas, tenderia a coloca-lo sempre mais sobre uma faixa (sobretudo em face de Brahimi ser hoje um “passageiro clandestino” de saída).

É natural que Rafa volte a cair na faixa também na Luz, se pensar nele numa lógica mais de entrar no onze, mas imagino mais Rui Vitória a pensar nele numa lógica de compor o plantel, e nesse sentido, não tem nenhum jogador para se “mascarar” de Jonas. O jogo de Tondela provou isso ao tirar a aposta Gonçalo Guedes dessa posição quando o jogo fugia do controlo e ser mesmo obrigado a mudar o sistema (para 4x2x3x1).

Mas, é mesmo Rafa um “jogador de equipa grande”? A questão não coloca em duvida o seu valor mas o seu estilo de futebol. Foi Paulo Fonseca que o aproveitou mais num modelo muito especifico de 4x4x2 que o fazia jogar como “extremo em zonas interiores”. Ou seja, fez os seus melhores jogos num “futebol de autor” de um treinador. Não num futebol dito global além de princípios tão específicos. Quando metido numa ideia assim mais global, foi mais “jogador de picos” do que de talento consistente táctico. É este o seu grande desafio agora na Luz.

joao mario

Joga, faz jogar, aumenta a autoestima do próprio clube e começa a provocar respeito nos adversários. André Horta é a primeira figura deste campeonato. Mais ainda porque o está a ser a partir duma posição onde se exige mais sabedoria acumulada, nº8 em 4x4x2 de só dois médios puros. Depois de Renato Sanches, o Benfica volta a apostar num “craquezinho” ainda com a “casca de ovo na cabeça” para essa posição.

Pode, porém, também subir para 10 e entrar na linha de pensamento que fiz atrás para o Rafa de zona central? Pode e penso que até tem mais margem de progressão táctico-técnica para isso. As necessidades da equipa e a sua visão adulta precoce do jogo, colocam-no, porém, numa posição dita de maior responsabilidade táctica no sistema. E ele não treme. Transforma-se facilmente no Horta dos arranque de segunda velocidade para um Horta de parar, escutar, olhar o jogo e... passar (com qualidade).

Continuo a ver o melhor futebol a partir desse prisma: o passe, sempre o passe. Gosto de dribles, mas eles não me transmitem pensamento. Transmitem-me rebeldia, magia até, mas para mim o bom futebol é “penso, logo jogo”. Por isso, no Sporting perder João Mário não é perder um jogador. É perder a capacidade superior de ter quem pense o jogo (e o execute) em campo. Em diferentes espaços. É mais difícil substituir jogadores destes.

O debate-mercado Sporting centra-se muito na questão da busca pelo ponta-de-lança mas aqui será uma questão de opção num “portfólio” vasto. Complicado é descobrir “cérebros de futebol”.

Todo este texto é, afinal, sobre como pensar melhor o jogo. Após os “piques” de Rafa, o essencial é o “manual do passe”. Como Horta já revelou ter. Como João Mário tem com um toque que se estende a toda a equipa. Porque para além de empolgante, o craque tem de ser determinante!