Alucinações

14 de Maio de 2009

Alucinações

O futebol têm desígnios insondáveis, mas ver Maradona preso a debates tácticos desafia todas as lógicas. Conseguiu, pelo génio, fugir deles enquanto jogador. Era impossível, enquanto treinador. A sua Argentina é hoje um caso táctico. Perdeu personalidade e varia de sistema sem criar uma ideia base. Nos últimos quatro jogos (Venezuela. Bolivia, Colômbia e Equador) alternou entre os três defesas, 3x3x1x3, e o 4x4x2.

Depois da goleada na Bolivia (1-6), jogando em 4x4x2 mas sem pegar no jogo no centro, com Mascherano desligado, entrou contra a Colômbia num 3x3x1x3 sem mecanização no processo defesa-ataque, que teve como principal desvio a colocação de Gago como lateral-direito carrilero, ao lado dos três defesas de Demichelis-Cata Diaz-Heinze, ficando Gutierrez com o corredor esquerdo e Mascherano a volante.

Incapaz de entender a posição, e sua missão, Gago não resistiu à tentação de jogar sempre por dentro e deixou a faixa quase sempre liberta. Nem defendeu, nem atacou e a equipa partiu-se, acabando por expor ainda mais Verón, resgatado por Maradona, que desprezou Riquelme, para ser o enganche organizador com o trio atacante Messi, Aguero, Tevez. A brujita, é hoje, no entanto, aos 34 anos, uma sombra do que já foi. Custa-lhe a acompanhar o ritmo do jogo quando ele acelera e demora no passe. Foi quando mudou o sistema, tirando Gago e metendo Zanetti a lateral direito, passando para a defesa a «4», que a equipa reequilibrou-se e jogou melhor.

O jogo no Equador, quatro dias depois, ressuscitou, porém, os fantasmas tácticos. Voltou ao 4x4x2, com a dupla de volantes-centrais Gago-Battaglia, mas perdeu o enganche com o ataque ao jogar, com Maxi Rodriguez e Gutierrez demasiado abertos nas faixas, na altura da condução de bola para o ataque. Era quando MesSi ou Tevez recuavam no terreno, para pegar na bola nas zonas entre-linhas, que esse enganche de organização surgia, mas, depois, faltava o avançado na frente.

Em cada jogo, Maradona tenta inventar um novo sistema, mas na maior parte do tempo, o meio-campo joga sempre em linha, não faz diagonais e não desenha linhas de passe para o ataque. Sem bola, não existe uma pressão colectiva. O chamado achique, como dizem os argentinos. Pelo contrário, é, sem bola, uma equipa passiva. Os médios não protegem as suas costas e a defesa, que joga muito perto da sua área (o bloco ou é baixo ou médio-baixo) também faz a equipa recuar.

É difícil imaginar do Maradona treinador e estratega táctico. Por isso, cada vez que vemos o seu grande plano no banco emerge um sentimento estranho. Ele continua a parecer um jogador. E, acho, continua a pensar como tal. Uma selecção fantasma.