AMÉRICA LATINA: PELAS ROTAS DO NOVO MUNDO

20 de Outubro de 2001

Ainda hoje, séculos passados, a verdadeira origem da maíz, uma planta com caule grosso, com três metros de altura, permanece um mistério para todos os estudiosos e perde-se na noite dos tempos. Para muitos historiadores românticos, teria sido ela a matéria com que, muitos séculos atrás, antes da tenebrosa chegada dos homens brancos de botas e longas barbas vindos do Velho Continente, teria moldado e feito o corpo e a alma das bravas poulações índigenas do Novo Mundo. Uma imagem de força e mistério que se expressa no semblante de homens destemidos, calcinados pela sua própria história.

Um orgulho que desenha um temperamento. Agressivo e destemido como um velho chefe índio, apaixonado e sedutor como um romântico amante latino-americano. Todo o homem, em qualquer parte do mundo, procura as suas raízes. Elas o geraram e moldaram, no passado e para o futuro. É uma busca incessante. Os nossos antepassados, nossas aldeias, nossas recordações nostálgicas. O nosso futebol, também. Tudo começou com um burguês liberal: Simon Bolivar, de todos o mais mitificado combatente pela independência das antigas colónias espanholas. Em 1783, quando nasceu, em Caracas, o futuro território venezuelano ainda estava unido á Colômbia e ao Equador, formando o vice reino de Nova Granada. Em 1808, iluminado pela corrente liberal que eclodira no Velho Continente, Simon Bolivar, então um jovem sonhador, iniciou, destemido, o histórico movimento militar que iria levar á independência destes países, rumando depois com o seu exército para paragens a sul, onde largou a semente independentista em outros territórios.

AMÉRICA LATINA PELAS ROTAS DO NOVO MUNDODesde 1519, quando o conquistador espanhol Cortez desembarcou na Costa do Yucatan e iniciou a colonização hispânica da América do Sul e Central, que a separação entre o Índio e o Europeu continua a dividir esses territórios. No México, apesar dos novos tempos, permanece sem se notar, na morfologia do povo mexicano, acentuados indícios de miscegenação. Paradoxalmente, num território com mais de 70 milhões de habitantes, continuam a ser os descendentes de europeus a reger os destinos do país, mas basta um simples passeio pelas ruas e vilas do México profundo, para sentir-mos que ainda são os índios os verdadeiros donos do carácter mexicano. Por todo o país continua a existir um grande respeito pela cultura do índio, um símbolo do orgulho nacional e matriz do Museu de Antropologia da Cidade do México, onde se pressente a condenação histórica da sangrenta invasão espanhola e se abriga a memória da lendária civilização Azteca e Maya, que ela destruiu. Um sentimento recordada no culto a Juarez e Zapata, heróis revolucionários índios. No futebol, o semblante índio do mexicano Hernandez e do chileno Salas, que tem nas veias o sangue espanhol cruzado com o dos índios mapuche, diz muito da história e de um estilo que se estende por toda a América Latina. Todas as equipas da América Latina parecem jogar a vida em cada partida que disputam. Uma atitude que ficou desde os Sec. XVI ao XVIII, quando os europeus atravessaram o atlântico e, conquistadores, desenharam um novo mapa do mundo.

AMÉRICA LATINA PELAS ROTAS DO NOVO MUNDOEm 1930, o México foi umas das treze nações que participaram na primeiro Campeonato do Mundo de futebol. Eram os distantes tempos de Manuel Chaquetas Rosa e Roberto Gayón, os primeiros heróis do futebol mexicano que teria o seu orgulho supremo quando inaugurou em 1970 o seu gigantesco Estádio Aszteca, com capacidade para mais de 130 mil pessoas. Nesse dia, no entanto, um homem sentia-se diferente: António Carbajal. Pela primeira vez em vinte anos não seria ele a estar entre os postes da baiza mexicana durante um Mundial. Estava nessa altura perto de fazer 41 anos e o tempo obrigara-o a ceder o lugar aos mais jovens. Distante estava já o ano de 1950, quando brasileiros e mexicanos inauguraram o Estádio do Maracanã. Nesse histórico dia Carbajal sofreria quatro golos, mas com esse jogo iniciava uma saga que o tornaria no primeiro jogador do mundo a estar presente em cinco fase finais do Mundial: 1950, 1954, 1958, 1962 e 1966, até que em 1970, com mágoa se sentou na bancada. Pela sua memória passa a história do futebol mexicano, desde o primeiro ponto conquistado pelos asztecas no Mundial, em 1958, num empate com o País de Gales até á primeira vitória, em 1962, no Chile, frente á Checoslováquia, futura finalista, por 3-1.

Quando em 1986 voltou a organizar o Mundial, as estrelas mexicanas eram outras e brilhavam ao ritmo das Tijeras de Manuel Negrete e dos golos impossíveis de Hugo Sanchez, o acrobata ponta de lança do Real Madrid, graças ao qual, muitos disseram que, no fundo, a verdadeira magia da Quinta del Buitre, a grande equipa madrilena dos anos 80, eram 30 golos de Hugo Sanchez por época. Saindo da América central e rumando a sul nas rotas do novo mundo, descobrimos um universo infinito de personagens futebolísticas fascinantes. Para além da paixão incontrolável, para além das jogadas de génio, dos locos latinos e das declarações de amor eterno, o futebol na América Latina é, sobretudo, um fantástico veículo de promoção social que pode mudar a vida de um jovem habituado a uma vida simplesmente vulgar ou, por vezes, até muito difícil, que o obriga a andar descalço enquanto menino e a trabalhar antes de se fazer homem.

Caleidoscópio de países históricos, pobres e com desigualdades sociais enormes, onde as evoluções ocorrem ao ritmo do bater do coração dos seus povos, ora mártires da colonização hispânica, ora sufocados por sangrentas ditaduras militares, o primeiro brinquedo que uma criança pode receber desde pequeno dos seus pais é uma bola, que custa pouco dinheiro. Mais que um divertimento, a bola é uma esperança. A esperança de fazer carreira, a esperança de viver melhor. Por vezes, esse inicial e deslumbrado toque com a pelota quase se traduz num metafórico encontro com a lâmpada de Aladino em forma de bola de futebol. Três desejos: ser um grande jogador de futebol, jogar perante milhares de pessoas e ganhar muito, muito dinheiro. O perturbante e o mágico de tudo isto é que muitas vezes, entre os dois estados, passa-se apenas um curto espaço de tempo, poucos meses ou semanas. Às vezes, é da noite para o dia. Sumptuosamente dominado pelo Brasil e pela Argentina, o futebol sul-americano, ciclicamente, descobriu que também noutras latitudes do continente habitavam outros artísticos magos da bola. Nos anos 70 e início dos 80, a nossa memória lembra o hoje eclipsado Peru de Cubillas e Sotil, contemporâneo das diabruras chilenas de Czaley, Yanez e Figeiroa, antepassados do presente fulgor de Salas e Zamorano, sedução dos anos 90, junto com o “toque” colombiano de Valderrama e Asprilla, talentos do futebol-arte.

AMÉRICA LATINA PELAS ROTAS DO NOVO MUNDORecordando o velho Uruguai, a primeiro grande país do futebol sul americano, também o Paraguai abriga só cerca de 3 milhões de habitantes. Entre eles poucos atravessaram as fronteiras da celebridade. O escritor Augusto Bastos e a dançarina Eliana Rodas acariciaram a fama. No futebol, Arsenio Erico foi uma lenda nos anos 30, que brilhou no Independientes da Argentina. Tudo começara durante a guerra do Chaco, entre a Bolivia e o Paraguai, quando muitos jogadores paraguaios sairiam do país integrando uma equipa da cruz vermelha para arrecadar dinheiros destinos a auxiliar os feridos de guerra. Arsenio Erico foi um desses casos, mas quando, na Argentina, foi visto por dirigentes do Independientes, logo cativou os seus olhares. Convidado a ficar, disse logo que sim, ingressando no clube rojo em 1924, com apenas 18 anos. Alinhou entre 1934 e 1946, tornando-se o maior goleador de todos os tempos no campeonato argentino, apontando 293 golos em 325 jogos, record que permanece até hoje. O seu jogo, no entanto, não resumia aos golos. Ilusionista dos espaços curtos, driblava e planava como uma pluma, pousando depois sobre a bola como um falcão sobre a sua presa. Sempre sorridente como que pedindo desculpas por fintar tantas vezes os adversários. Adorava dar toques de calcanhar e Cátulo Castillo dedicou-lhe um tango onde a certo ponto se tocava: Pasará un milénio sin que nadie repita tu proeza, del pase de taquito ou de cabeza.

AMÉRICA LATINA PELAS ROTAS DO NOVO MUNDONo final do século, apesar de manter o mesmo limitado campo de recrutamento, o Paraguai revelou, no entanto, uma vocação sublime para a arte de domar a bola. expressa nos movimentos de Romerito, Gamarra, Ayala, Arce, Benitez e, claro, Chilavert, o guarda redes goleador, exímio cobrador de livres e penaltys. O seu carisma, personalidade e imponência, qual pavão real exibindo a sua plumagem, não têm hoje paralelo no futebol mundial Chilavert é, porém, mais do que um simples guarda-redes. Ele é o líder espiritual de uma geração destemida que jura nunca ir mudar de atitude: “A minha arrogância protege-me”. Chilavert substituiu Julio César Romero, o popular Romerito, no coração dos guaranis, o povo paraguaio que, no início dos anos 80, descobrira, finalmente, o seu libertador futebolístico, capaz de o fazer sonhar e resgatar a imagem de Enrico. Rápido e lutador, o pequeno Romerito, com um centro de gravidade muito baixo temperando, dono de um futebol serpenteado, causava o pânico entre as equipas contrárias. Em 1980, com 19 anos, após um fantástico Mundial de Juniores, onde disputou com Maradona o título de melhor jogador, já jogava no Cosmos de Nova Iorque ao lado de mitos como Beckenbauer e Neeskens. Este convite chamara, porém, a atenção da ditadura militar.

O ministro das Finanças, perante tanto dinheiro, quis saber o que se passava. Falou-se, especulou-se e, no final, Romerito lá rumou para Nova Iorque. Chilavert, que diz ambicionar tornar-se um dia, depois de abandonar o futebol, o presidente do Paraguai, nunca entendera esta pretensa amizade de Romerito com o antigo ditador, General Stroessner. Com o passar do tempo, Romerito tornara-se um jogador adorado pelo velho ditador paraguaio, falecido em 1989, responsável pela nação gauarani, ter sido, junto com o Chile, o país da América do Sul que mais tempo – 40 anos – sofreu a opressão da ditadura militar. Consta que, muitas vezes, o general telefonava a Romerito durante os estágios da selecção. A sua imagem jovem e vitoriosa era a ideal para um regime soturno e decrépito. Depois, Romerito não falava, não criticava a situação do país, não falava dos atentados aos direitos humanos, nem da falta de liberdade de expressão.

O cenário do Paraguai era, afinal, semelhante a outros países latino-americanos, mas, no caso do futebol, genuína expressão da paixão popular, foi o que lhe dedicou maior atenção e melhor soube manipular a seu favor, criando uma instituição, a Comissão Nacional do Desporto, que controlava todos os núcleos desportivos do país, entre eles todos os clubes da I Divisão. Em troca de construção dos seus estádios, os clubes faziam publicidade e grandes elogios a Stroessner, sendo todos os presidentes filiados no Partido Colorado.

Cenários só imagináveis na América do Sul, um continente onde os clubes se orgulham de ser “do povo e para o povo”, identificando-se, assim, com as massas populares que os idolatram. Os olhos da política sempre o sentiram e aproveitaram-se disso. Sinistra e, por vezes, lunaticamente, como a proposta de um deputado argentino que, eufórico com o final da ditadura, propôs um projecto de lei onde, para alegria e bem-estar do povo, as suas equipas passariam a estar proibidas de descer de divisão.

AMÉRICA LATINA PELAS ROTAS DO NOVO MUNDOO escritor chileno Luís Sepúlveda não é um grande amante do futebol, mas foi, no inicio dos anos 80, que ficou fascinado por um dos seus símbolos: o pequeno raton goleador Cazely. Para Sepúlveda, porém, o melhor golo foi marcado fora do relvado. Um dia, após uma grande vitória, toda a selecção foi recebida no palácio presidencial por Pinochet que procurava, assim, identificar os êxitos do futebol com a imagem do seu regime opressor. Contrastando com todos os membros da comitiva, Cazely envergou uma gravata vermelha e recusou-se a estender a mão ao ditador: “Conta quem viu que, corajoso, olhou o general e disse-lhe que não podia cumprimentar o assassino de centenas de companheiros seus da juventude comunista”. Mais do que golos, Sepúlveda deseja que Zamorano para quem a maior tristeza foi o seu pai ter sido um dos principais activistas da onda de greves que em 1973 começou a minar o regime de Allende, transporte em si o mesmo espírito e carácter de Cazely. “É um grande herói do desporto, por quem sinto um profunda admiração.”

AMÉRICA LATINA PELAS ROTAS DO NOVO MUNDOO Peru, um país milenário encostado á Cordilheira dos Andes, com o lago mais alto do mundo, o Tticaca, abriga uma história que se perde nos confins dos tempos, desconhecendo-se exactamente quem foram os seus primeiros povoadores. Narra a história que foi ali, no ano de 1500 a.C. se estabeleceu a civilização Huaca Prieta e que por volta de 1200 d.C. surgiu entre os Quéchuas, a mítica dinastia dos Incas que se manteria no governo do território peruano durante cerca de trezentos anos até á chegada dos conquistadores espanhóis chefiados por Pizarro, entre 1532 e 1533. Foi então que a colónia espanhola determinou Lima como capital. Só em 1821 o Peru se tornaria independente. Durante séculos a busca pelo tesouro dos Incas alimentou o imaginário de muitos aventureiros.

Nos relvados, o futebol peruano descobriu o seu tesouro nos anos 70, com um geração composta por talentos como Hugo Cholo Sotil, Chumpitaz, Ramirez, Muñante e, como grande símbolo do futebol peruano, Teófilo Cubillas, um génio com pontapé de canhão. Em 1970, treinados pelo brasileiro Didi, os peruanos foram até aos quartos-de-final, onde defrontaram o Brasil de Pelé, sendo derrotados por 4-2. Durante séculos a busca pelo tesouro dos Incas alimentou o imaginário de muitos aventureiros. Nos relvados, o futebol peruano descobrira esse nas botas fulminantes de Cubillas. Finda esta dinastia, o futebol dos incas perdeu encanto e desapareceu dos grandes momentos. Por isso, sempre que surge outro tesouro da bola, os peruanos sonham com o regresso desse tempo.

AMÉRICA LATINA PELAS ROTAS DO NOVO MUNDONo pôr do sol da Florida, no crepúsculo de Tampa Bay, como no mar das caraíbas que namorava o pueblo de Santa Marta na Colômbia, Carlos Valderrama ainda parece o mesmo Pibe que há três décadas atrás começou, no Unión Magdalena, a dar os primeiros pontapés na bola, pela mão de seu pai Carlo Jaricho, então defesa central do clube que, em breve, iria descobrir o jogador mais famoso da história do futebol colombiano. Em 1996, depois de passar por França e Espanha, deixou La cancha de Barranquilla e partiu rumo ao American Dream. Hoje, com 40 anos, tornou-se uma estrela do soccer, onde passeia o seu futebol rendilhado, poema de técnica. Conserva o mesmo estilo dengoso e cerebral. O cabelo enorme, louro e desordenado, ecos do Gullit branco, as pulseiras e os colares da Sierra Nevada, a camisola por fora dos calções e o olhar meio perdido, sempre de poucas palavras Todo bien, todo bien, repete ao ritmo do toque, o estilo de jogo que, nos anos 90, deu uma nova identidade própria ao fútbol colombiano. Em certos pontos da história foi comum acusar-se o futebol sul americano de falta de objectividade. Atraente, repleto de brilhantes gestos técnicos, mas, muita vezes, abstraído da baliza.

Excesso de toque de bola, insinuava-se. Estava a polémica neste ponto quando, no inicio dos anos 90, emergiu uma sedutora selecção colombiana, idealizada por um dentista negro de Chocó, a região mais pobre da Colômbia, Pacho Maturana, que congeminou um onze dotado de grande capacidade técnica onde o fundamento do seu jogo era o “toque”. Não como mera opção estética, mas antes como a estratégia de jogo ideal para talentos irreverentes como Valderrama, o “Gullit branco”, Asprilla, Valencia, Rincón, etc. O “toque” colombiano era uma espécie de teia que avançava com a bola de pé para pé, envolvendo o adversário, confundindo-o, até descobrir o caminho seguro para o golo. Claro que o “toque” exige velocidade e disciplina táctica. Caso contrário torna-se previsível, lateralizado, e, por isso, ineficaz.

Apesar de este tricotado estilo colombiano não tivesse atingido consagração no palco dos Campeonatos do mundo, o espirito que transportava, herdade na sua géneses da beleza futebolistas sul americana, foi o suficiente para Pacho Maturana colocar numa tabuleta, plantada no jardim de sua casa, com a seguinte frase de boas vindas: Recinto de um louco feliz!, É o orgulho de habitar no continente dos magos, imprevisíveis poetas da bola, expresso no futebol mágico e truculento de génios loucos e fascinantes.