Aprender a pensar… jogando

22 de Junho de 2016

As expressões do futebol britânico continuam a mudar. As clássicas e as modernas.

Gales já ganhou o “seu Euro” ao vencer o “grupo da Inglaterra”, mesmo derrotado nesse confronto direto, no jogo em que recuou mais para defender e perdeu a acabar. Bale disse então que ainda “faltava à equipa saber gerir melhor o jogo”. Referia-se aos momentos em que é necessário controlar melhor a bola (ter a posse pela posse).

Mesmo não acreditando que alguma vez uma equipa britânica aprenda a meter um jogo no “congelador”, a evolução que revelam na qualidade táctico-técnica nesses momentos é o seu principal factor de crescimento competitivo no estratégico futebol moderno. É verdade que as duas Irlandas continuam mais puras, na combatividade dividida, jogo direto e a colocar os adversários sob pressão (mesmo posicionadas mais atrás) mas o sucesso de Gales, confirmado frente a um fantasmagórico onze russo, teve essa base na qualidade do seu “jogo interior”, em posse, passe, desmarcação e finalização.

Uma equação que se estende desde Ledley (mais “lenhador” a trinco) até à gestão de passe de Joe Allen e os movimentos de avanço-recuo-avanço de Ramsey, que tanto marca como sai procurando rupturas nos espaços vazios. Gales é, por isso, muito mais do que apenas Bale.

Chris Coleman descodificou na perfeição o código genético do conceito de grupo, ou seja, que tipo de “jogo colectivo” esta equipa podia construir e, nesse sentido, Joe Alenn e Ramsey são as chaves para fazer mover todo o onze.

A Inglaterra mudou muito contra a Eslováquia de bloco baixo. Ao trocar Rooney-Alli por Henderson-Wilshire queria (para além da gestão física dos seus principais médios) jogar mais com a posse de bola , com isso, desgastar o que tinha sido a até agora forte zona de pressão central do meio-campo eslovaco (com Peckovsky-Kucka-Hamsik). Conseguiu isso, não parou de circular, pedindo jogo interior aos alas (Sturridge-Lallana) mas falhou no ultimo elo com golo. A intencionalidade de jogar apoiado, de flanco para flanco, até ao fim (então já em 4x4x2 losango) foi a melhor prova de maturidade táctica no jogo. Em vez de a fazer chegar depressa a bola à área, querer fazer antes lá chegar o jogo de forma pensada e com qualidade.

De Walker a Sommer

Olhando jogadores acima das equipas, há dois que, em locais e estilos muito distintos, gostaria de destacar até este momento neste Euro:

O primeiro é Walker, o lateral-direito inglês, uma “seta sobre carris” na sua faixa, com uma velocidade e disponibilidade física impressionante a passar por tudo que o tenta travar (desde extremo, médio ou lateral adversário). Mete a bola na frente e vai lá buscá-la, chegando sempre primeiro, mesmo que parta bem desde trás. O modelo inglês sem extremos puros (mesmo em 4x4x2) favorece este seu estilo que brilha também no Tottenham e pode marcar a diferença em qualquer equipa de maior dimensão.

O outro elemento que queria detectar foge a dinâmicas tácticas e é um... guarda-redes: Sommer, na baliza da Suíça. Tem feito grandes defesas (garantindo resultados) é forte no um-para-um frene a adversários isolados que surgem à sua frente, mete respeito nas saídas sem ser um monstro fisco (“apenas” 1,84m) e posicionalmente está sempre bem colocado, como “vocação emocional”, pela serenidade que transmite, a todos que jogam à sua frente. Um guarda-redes destes até parece tornar logo uma equipa melhor. E, na verdade, torna mesmo.