ARARAS, TUCANOS E UMA BOLA DE FUTEBOL

24 de Julho de 2014

A Amazónia será o pulmão do mundo, com pássaros exóticos multicores, araras e tucanos, de todas espécies e plumagens, e patriarcais árvores Sumaúmas imperando numa imensa floresta verde. No meio de tudo isto, um relvado de futebol. Sterling é um “little boy” inglês com raízes jamaicanas que, de repente, surgiu a fintar e dançar com a bola por entre todo este ambiente tropical. Uma espécie de “anãozinho da floresta” por entre o calor, a humidade e onze italianos elegantes, sem parecenças com índios nativos, mas com igual sabedoria para sobreviver por entre todo aquele clima.

O jogo foi, de inicio, mais rápido do que os italianos queriam mas apesar de então ter seguido mais a vertigem que os ingleses desejavam, foram eles que, depois, acabaram por pagar tacticamente essa fatura física na parte final. É dos factores mais interessantes em termos de cultura tática para analisar o poder da personalidade de uma equipa em campo: o conseguir mudar/mandar no ritmo do jogo (tornando-o mais lento ou mis rápido, conforme as preferências do seu estilo). nisso, isso italianos deram sempre lições ao mundo. Para uma equipa que quer, por estilo, ter um ritmo mais lento de cultura de posse (como os italianos) é mais fácil, em contraste com outra forma de jogar em velocidade e transições rápidas (como os ingleses), saber depois “jogar... cansado”.

Pelo meio, nessa altura, as maldades do “duende” Sterling foram-se esfumando na fadiga físico-táctica-mental que devorava as equipas até à alma mais profunda. Apenas Pirlo, “pirata barbudo” de velhas batalhas, resistia no mesmo ritmo. A razão é simples. Para chegar melhor a esta fase do jogo (e a ganhar) os italianos souberam antes fintar sempre a ideia de que para jogar rápido é preciso correr mais (e mais depressa). Não é. Muito menos num jogo no meio de uma floresta tropical. Onde Pirlo explicou que até sem tocar na bola se pode faze-la rolar melhor até o sitio certo do remate para o golo. Mais uma prova como o bom futebol começa na cabeça. E neste caso, até acaba.

FUTEBOL “HIP-HOP”

Da mesma forma que é possível crescer uma flor no deserto, também é possível crescer na Costa Rica um verdadeiro craque para o Mundo do futebol. O fenómeno da “Los Ticos” é Campbell. O SEU jogo de estreia neste Mundial caçou o fantasma do Uruguai que ameaçava assombrar o Brasil reminiscente de 50 e fez dele um boneco de trapos. Uma exibição que até contrariou a ideia das suas primeiras aparições europeias (é jogador do Arsenal emprestado ao Olympiakos) onde parecia só um velocista de contra-ataque. É muito mais do que isso. E pode ser, até, tudo o que quiser. Ganhou robustez, remate potente, e passe/visão, sem perder mobilidade. Aos 21 anos, já não é um dançarino (esqueçam um “Fred Astaire negro”) mas pode fazer do “futebol hip-hop” uma nova moda.

A Costa Rica sabe como usar o seu sistema (3x5x2 ou 5x3x2). Três centrais com sentido posicional (Gonzalez é um líbero à moda antiga que joga de “cadeira” atrás da linha defensiva, nas dobras), dois trincos que metem o pé (bola, espaço e adversário) e na frente, Ruiz e Bolaños que falam como a bola como se fossem “velhos amigos”. E são. O resto é o “futebol hip-hop” de Campbell.