“Arca de Noé” do futebol

10 de Julho de 2011

“Arca de Noé” do futebol

Os torneios jovens são o meio mais fiável para conferir a evolução genética do futebol de um país. O Mundial Sub-17 no México tem sido um excelente ponto de observação para esse fascinante mundo com bola em movimento. Já vi muitos jogadores e equipas, mas o primeiro que me salta à vista é da selecção da França. Não é novo, mas cada vez mais o futebol gaulês muda de cor e é expressão supra-continental do jogo.

Olho o onze, fruto das suas seculares relações com outros territórios antigas colónias, e ele é constituído quase todo por jogadores negros, ou outros, craques de visão Zizou, vindos do Magreb. No meio, quase como ironias, dois franceses brancos de faces rosadas parecendo saídos de uma máquina do tempo. Sinceramente, a ideia que muitas vezes me dá durante os jogos, pela morfologia técnico-táctica, é que estou a ver uma selecção africana. Benzia, avançado, joga com o perfume de Zidane, o mesmo que Yaisien, médio nº10, tenta reproduzir. Até na baliza, Mpasi Zau, com origens senegalesas, transmite a sensação dos loucos guardiões africanos, tão felinos como malabaristicamente ingénuos. Acabaram eliminados nos quartos-final pelo México, quando o factor-casa que ganhou emocionalmente o jogo.

Na América do Sul, o Uruguai é a selecção que mais evoluiu nos últimos anos. Tomou consciência das suas limitações. Está menos agressiva no estilo, mas mais elaborada tacticamente e com traços técnicos evoluídos, expressos desde o trinco País, ao condutor Varela, o ala Alvarez e a dupla de ataque Aguirre-Charamoni. A crise existencial do futebol argentino estende-se pelos diversos escalões das suas selecções (e vai até aos principais clubes). É um problema estrutural, profundo, financeiro e desportivo. O onze sub-17 joga em função de impulsos individuais (sobretudo do médio ofensivo Ferreira), mas sem uma boa ideia de jogo, esses talentos não sabem onde encaixar a técnica natural no plano global de jogo. O Brasil merece análise especializada através das chuteiras de Adryan.

A Alemanha tem maior fidelidade antropológica. Olho os dois pivots (Can-Yalcin) a sair com a bola, fisicamente imponentes, peito para fora, e vejo a cara e alma do futebol alemão. Botas cardadas em vez de chuteiras antes dos 18 anos. Tem atrás o tradicional central que quer mandar (Perrey), mas a cada grande plano seu que surge, apesar das boas indicações de corte e personalidade no jogo, percebe-se que ainda tem muito para caminhar. E é natural que assim seja.

Os próximos dias vão revelar o novo campeão mundial Sub-17 (Final: Mexico-Uruguai). O futuro do Planeta de Futebol para seguirmos com lupa e livro de história aberto. Este domingo, estou no Aszteca!

Adryan, novo craque a nascer

“Arca de Noé” do futebolOlho o Brasil, sempre fonte de craques moleques e mulatos, mas vendo a sua selecção Sub-17, apesar do avançado Ademilson ainda arrepiar nas suas arrancadas e remates, existe já uma espécie de triunfo da chamada classe média no jogo canarinho. Tacticamente, os dois volantes da selecção sénior são reproduzidos neste onze Sub-17 (através de Misael e Marlon Bica) com uma naturalidade que perturba mais (pela ausência de arte) do que cativa pela coerência de construção (cadeia alimentar) estabelecida entre as várias selecções.

Nas alas, Lucas Piazon e Nathan (ou Leo) têm arte escondida. No meio, a atacar ou a dar sentido histórico ao nº10, um miúdo que já brilhara na Copinha Sub-18 interna, Adryan. Não tem a pinta esquiva de quem joga descalço na favela. Tem mais o jeito da escolinha moderna da relva com mensalidade paga. Mas, na Gávea, casa do Flamengo há quem saiba ir às raízes. E então basta um toque na bola, finta e passe, para o loirinho Adryan mostrar que está ali mesmo um genuíno exemplar do futebol brasileiro.