Argentina: Os “enganches” perdidos

18 de Agosto de 2012

Argentina: Os "enganches" perdidos

O ano passado quando desceu, o River vendeu Lamela, promessa de trato fino da bola, à Roma. No ano em que jogou na II Divisão argentina, acabou a vender Ocampos, pibe de 17 anos, que joga mais sobre uma faixa, procurando diagonais, ao Mónaco. Ambos saíram da sua cantera por muitos milhões de Euros. Eles são dois símbolos da permanente regeneração do futebol argentino numa altura em que o nível do seu campeonato, sobretudo nos grandes clubes, continua a cair. Um cenário que permitiu o fenómeno do Arsenal de Sarandi ser campeão á frente do Tigre.

Um dos sintomas desta encruzilhada, é a chamada crise do enganche. Isto é, as equipas deixaram de querer ter o tal criativo misto de médio e avançado. Preferem volantes mais físicos e alas que façam diagonais. Tendências que levaram Riquelme a sair do Boca de Falcioni, em busca de outra rotação de jogo. No River, Almeyda coloca o seu criativo (Lanzini) encostado à ala esquerda. No ataque onde Trezeguet perdeu instinto degolo e Funes Mori é um bom jogador mas que parece mentalmente frágil. Luna (ex-Tigre) pode ser a solução. A força do onze está nos pivots: Ponzio, experiente, e Cirigliano, revelação, enquanto Sanchez equilibra a equipa na meia-direita. É um 4x4x2 clássico puro.

O Boca atenua a falta do enganche com Chavez a nas costas da dupla atacante Silva-Viatri (ou Blandi), todos essencialmente físicos. É um 4x1x3x2 com Somoza sólido a pivot e Ervitti-Ledesma a equilibrarem nos flancos mas a jogar sempre muito por dentro, pelo que a equipa sente dificuldade em ganhar profundidade pelas faixas (depende da subida dos laterais, Sosa-Clemente Rodriguez). Chavez tem visão e passe mas não é explosivo. Contra adversários muito fechados, a equipa precisava desse poder de ruptura.

Argentina: Os "enganches" perdidosO Arsenal Sarandi também monta um 4x4x2 seguro pelo pivots: El Marciano Ortiz, ladrão de bolas, e a âncora Marcone. Também joga sem enganche, mas ás vezes Carbonero aparece no centro desde a direita. Na esquerda, o canhoto Aguirre é um bom flanqueador ebate muito bem os livres laterais para a área. No ataque, sem Leguizamon (foi para o Independiente) a nova dupla Zelaya-Luguercio sabem mover-se mas cria poucas oportunidades. É, porém, o central Lisandro Lopez a grande mais-valia da equipa. Não entendo como ainda não está a jogar na Europa.

De resto, uma equipa que poder crescer é o Velez Sarsfield, o único onze com enganche puro: El Pocho Ínsua, 32 anos, no centro da segunda linha de uma espécie de 4x4x1x1, com Cabral forte desde trás e o elástico Pratto a nº9, sem nunca deixar um defesa adormecer. Nas alas, solta dois pibes saídos da cantera que provam a tal fonte de regeneração gaúcha: Allione, 19 anos, à direita, e Ferreira, 18, à esquerda. Junto com a dupla dos milhões Ledesma-Ocampos que o River inventou, eles são a melhor prova que, mesmo numa fase de relva queimada, a crise existencial nunca atinge o coração do fútbol argentino.