Arsenal? Eu ainda lembro de como verdadeiramente jogava Fabregas

29 de Março de 2017

1.

Não penso que uma boa ideia se perde ou desvanece com o tempo. As boas ideias, como principio para a vida, duram (vivem) para sempre. No futebol, também. As boas ideias de jogo não se perdem com o tempo. Exigem, porém, uma capacidade de reinvenção permanente. Não só nos nomes próprios para as interpretam como, sobretudo, na forma de as transmitir.

Ou seja, a mesma ideia necessita de instrumentos de sedução diferentes ao longo dos tempos. Um treinador pode pensar o mesmo (em termos macro de estilo para além das estratégias), mas é impossível que a forma de transmitir essa ideia (aos jogadores) seja hoje a mesma que era há 20 anos.

Não é só uma questão de mudar terminologia. É questão de expressar a ideia transmitindo sensações, convicções e, no jogo em concreto, formas de a colocar em prática adaptada aos novos tempos (de ritmo táctico-técnico) em que vivemos.

Wenger perdeu-se (de 1996 a 2017) em algum ponto desse caminho no Arsenal. Perdeu, talvez, os melhores meios de expressão para transmissão da sua mensagem. Não entro, nesta reflexão, de como treina hoje (por desconhecer a evolução dos seus métodos nesse “atelier”), mas isso também é muito importante. Porque mais do que uma crise de resultados (pensando na dimensão do Arsenal que quer ganhar títulos), é uma crise de estilo de jogo.

Durante muito tempo, a melhor forma de responder ao que era jogar bem, era sugerir ver um jogo do Arsenal. Estava ali tudo o que fazia a base do jogo enquanto respeito pela bola (posse) e ocupação dos espaços (passe, recepção, desmarcação), tudo nos ritmos certos, com a bola a ir percorrendo todos os pedaços de relva.

2.

Foi nesse habitat que vi, talvez, o melhor médio-centro de construção de jogo a partir da posição 6: Cesc Fabregas. Não este que agora existe, irreconhecível na forma de jogar em relação a esses tempos. No atual Chelsea de Conte, como já fora no de Mourinho, mudou totalmente de discurso (no campo e fora dele). Pelo meio ficou uma passagem incompreendida em Barcelona que lhe terá fundido definitivamente os “fusíveis” do belo estilo de jogo que exibira nos bons velhos tempos do Arsenal (mesmo perdendo).

Hoje o Fabregas desse belo Arsenal é uma “causa perdida”. O atual Arsenal é uma “casa assombrada”. Tem alguns bons jogadores mas, vendo-os em Munique contra o Bayern (como em tantos jogos da Premier League), fico na duvida se ainda sabem mesmo verdadeiramente que proposta de jogo têm e o que terá Wenger dito ao longo da semana (e como).

Não sou nada adepto de analisar exibições pelas estatísticas, mas constatar que este Arsenal “preso no limbo estilístico no tempo” teve, em Munique, apenas 27% de posse na primeira parte (e 31% no fim), diz, no entanto, muito do que se tornou a ideia original de Wenger de posse construtiva e respeitadora da bola até fazer da técnica a... táctica (e, vice-versa, da táctica a técnica).

Confesso: faço um esforço para não ver jogar o Fabregas atual, para que o impacto do presente não mate a recordação da sedutora imagem do passado.

3.

Mas nem tudo são pesadelos no futebol atual.  No Parque dos Príncipes em Paris, emergiu, no mesmo cenário, subitamente tornado romântico outra vez, um coelho gigante e esguio no onze dos da capital francesa: Rabiot, um médio “corre-caminhos” que passa pela posição 6, 8 e 10, e volta para trás (10, 8, 6...) ao longo de todo o jogo com a mesma fluidez física e inteligência. A sua passada larga leva a bola colada à bota e joga sempre de cabeça levantada. Numa frase: tem estética no jogo.

Depois de o ver durante 90 minutos, voltei a sentir-me melhor. O futebol tem sempre o talento certo em qualquer lado como antídoto para qualquer veneno que nos queiram dar a provar.