O número, frio, mas com curvas e dimensão interessante, suscita diferentes reacções. Foi o exacto registo de golos marcados esta época no campeonato. Uma quantidade (2,43 por jogo) que pode levar a pensar de diferentes formas que tipo de futebol que se joga nos nossos relvados. Quais as tendências dominantes? É um debate importante de se fazer (mobilizando toda a sociedade civil futebolística do país) porque, na opinião geral (imprensa, congressos, táxis ou cafés) o nível qualitativo do futebol português é, quase sempre, considerado fraco, com jogos monótonos, cheios de paragens e pouco estimulante ao chamado adepto imparcial (se é que isso existe). É, diria, uma visão demasiado empírica. O nível de futebol praticado nos nossos relvados é muito superior ao que uma simples análise a olho nu pode suscitar. Não quero com isto convidar os leitores a pegar na tal lupa táctica que os leve para as trevas do futebol científico que muitos criticam. Não, o que se pretende é enquadrar o nosso campeonato (e todas as idiossincrasias desportivas, financeiras e sociais que o rodeiam) no conjunto da realidade europeia.
Nesse enquadramento geral, uma equipa (ou melhor, o clube) ultrapassa claramente a realidade global. O FC Porto. Transformou a utopia de ser campeão sem derrotas numa realidade palpável (apenas 3 empates em 30 jogos) e com isso cravou um abismo para o resto da população de calções e chuteiras. O facto, narrado como feito épico, de termos metido três equipas nas meias-finais da Liga Europa, tem, sobretudo, o condão de percebermos o nosso verdadeiro lugar na união europeia futebolística. Não há uma bola única europeia. Porque para atingir aquele ponto, todas as três equipas tiveram que começar esse percurso com um…fracasso: não entrar (caso do FC Porto, por força da época anterior falhada) na elite a eliminar da Champions (casos de Benfica e Braga, prematuramente eliminados na fase de grupos). Mesmo considerando que este FC Porto é, indiscutivelmente, uma equipa com pedigree de Champions, estes simples factos já dizem muito da chamada segunda linha competitiva em que vive o nosso futebol.
Não partilho, no entanto, da ideia tão cinzenta quanto ao futebol praticado. Numa tentativa de catalogação global, diria que o nosso campeonato, pelo jogo dominante nele, será o mais próximo do estilo italiano. Pela táctica (os treinadores são mais importantes do que os jogadores na maioria das equipas) ritmo e qualidade técnica. É um futebol difícil para as individualidades brilharem, tal os treinadores das chamadas equipas médias-pequenas metem um cadeado táctico na maioria dos jogos. Para perceber isto basta ver a dificuldade em destacar um ou dois jogadores para além dos três/quatro primeiros. Predominam os chamados jogadores de equipa, os operários que trabalham na sombra.
Estamos, cada vez mais, perante um futebol feito de impactos. Em campo, dá ideia que as equipas estão sempre na berma do precipício, mas depois descobrem sempre uma tábua de salvação. A diferença é que quando antes esta era individual, agora é colectiva. A táctica tornou-se num conceito credível. E o FC Porto da cultura de posse de Villas-Boas campeão após o das transições rápidas de Jesualdo e o do Benfica da vertigem veloz ofensiva de Jesus, foi a maior confirmação da necessidade de, para além do jogo de impactos individuais de Hulk e Falcao, morar nessa superior visão (identidade) conjunta a grande base para mandar de forma clara na fábrica de golos 584.
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