Império do «duplo-pivot»

4 de Janeiro de 2010 23:31
Uma questão cultural: 17 de 20 equipas espanholas jogaram na última jornada com dois pivots-defensivos.

 

A posição adquiriu no futebol moderno uma importância táctica cada vez maior. A importância nasce da relevância do seu espaço para, primeiro, equilibrar a equipa a defender (uma âncora táctica) e, depois, em posse, ordenar a sua saída de bola (um farol táctico). É a clássica posição do nº6. Ou melhor, o seu espaço. No passado, um mero trinco. A visão defensiva da posição. Hoje, o chamado pivot-defensivo. Porque a ideia de construção adquire prioridade de pensamento no seu jogar. O futebol brasileiro chama-lhes volantes. O espanhol adoptou, desde há vários anos, o termo pivot. Sem rótulos defensivos.
A nota táctica mais interessante do jogar das equipas espanholas é, porém, que, ao contrário de muitos outros países (como Portugal) a maioria esmagadora das equipas joga com o chamado duplo-pivot. Isto é, com dois jogadores nesse espaço à frente da defesa. Vendo, por exemplo, a última jornada da Liga espanhola, 17 das suas 20 equipas jogaram (quer em 4x4x2 como em 4x2x3x1) com o chamado duplo-pivot.
Excepções apenas o Barça de Guardiola (4x3x3) o ainda estruturalmente dúbio Real de Pelegrini (jogou em losango, mas que já o vimos num híbrido 4x2x2x2) e o novo Almeria de Lillo (4x3x3) que substituiu Hugo Sanchez (que jogava em 4x2x3x1). Todos os outros jogam com duplo-pivot. É uma questão cultural de estilo de jogo. Viu-se quando Camacho e Quique estiveram no Benfica e tornaram essa opção num dogma.
Neste debate, recordo sempre o que dizia Redondo, velho catedrático nº6: “Quando nessa posição me colocam outro jogador ao lado é como se me tapassem um olho!”. Com isso, queria apenas chamar a atenção para a, digamos, especial sensibilidade táctica desse lugar. Ou seja, para o duplo-pivot funcionar são indispensáveis dois factores táctico-colectivos.
O primeiro, relaciona-se com o espaço, exige uma quase perfeita complementaridade das características dos seus ocupantes, para assegurar um equilíbrio de jogo posicional e dinâmica de saída de bola. Por princípio, um deles fica mais preso e outro sai mais para o jogo. É um bom exemplo das tais “pequenas sociedades” que devem existir dentro de um onze.
O segundo, relaciona-se com os movimentos dos alas, sobretudo na opção pelo 4x4x2. É indispensável que, pelo menos um deles, seja muito forte a flectir no terreno, para pegar na bola no espaço central da segunda linha do meio-campo e jogar bem por dentro. Outra opção para ocupar esse espaço central reside no recuo de um dos avançados, o mais móvel, mas nesse caso já entramos no 4x2x3x1. Várias equipas explicam bem como se faz isso em campo. Outras, nem tanto. Vejamos, noutro ponto desta página, algumas dessas construções
 
 
 
Equipas espanholas
 
 
Vendo La Liga a partir do duplo-pivot, recorda-se como o Valência fez história com a dupla Baraja-Albelda. Hoje, com Emery, ainda resiste Albelda, aos 32 anos. Esta jornada (4x2x3x1) teve ao lado Banega, 21, a melhor promessa de nº6 da Liga. A principal dupla do Sevilha (4x4x2) é Duscher-Romaric. Mas nela também podia entrar Renato, hoje em posições mais ofensivas.
Outras duplas a reter: No Osassuna de Camacho (4x2x3x1) Punãl-Nekounam, ambos mais fixos atrás. A defender é um 4x4x1x1. No Corunha de Lotina, Tomás-Sérgio (ou Dominguez); O Santander de Portugal cerra mais os dentes com a dupla Lacen-Colsa (ou Diop); O Espanhol de Pocchetino, com Hurtado-Javi Marquez (4x2x3x1, com Verdú solto). No Málaga de Muniz (4x2x3x1), Juanito-Apoño. O Getafe de Michel, com Celestini-Boateng e alas fortes (4x2x3x1); No Bilbao de Caparros, estão os mais posicionais Javi Martinez e Orbaiz (ou Gurpegui) soltando os movimentos interiores de Yeste. No At.Madrid, Assunção é atropelado por Cleber Santana.
A mais incómoda de ver é a do Villarreal porque nela está o jogador que brilhou na bela selecção espanhola jogando sozinho nesse espaço. O brasileiro naturalizado Senna. Contra o Barcelona, jogou com Bruno ao lado. Costuma ter Eguren. Combinam bem e Senna continua a marcar os ritmos, mas não tem a mesma autoridade de jogo. Perde ele e perde a equipa… 
 
 
 
O Mallorca de Aduriz
 
A actual equipa-sensação da Liga (está em 4ºlugar) será das que trata melhor o seu duplo-pivot. É o Mallorca de Manzano. De início, no papel, parece um clássico 4x4x2, mas depois, no jogo, desenha quase sempre um 4x2x3x1 mais compacto e com futebol apoiado. No último jogo (bateu o Bilbao) lançou o duplo-pivot Marti-Mario. Jogaram muito posicionais, sobretudo a controlar o espaço (Mario libertou-se mais e revelou bom tempo de passe) num 4x2x3x1 (ver quadro ao lado) que colocava Borja Valero na posição 10 (temporização perfeita e passe) atrás de um avançado muito móvel, o perigoso Aduriz (fixem este nome!). Nas alas, Castro, à esquerda ficava mais aberto, mas Jesus Alvarés, desde a direita procurou sempre movimentos interiores (e fez um golo assim).
Outra opção é meter um avançado mais fixo (seja o possante Webo como o esquivo Keita) e deixar Aduriz nas suas costas. É então mais um 4x4x2 e será, até, a estrutura em que Aduriz se sente (e move) melhor. Atrás, como guarda de honra táctica, o duplo-pivot nunca treme.
 

 

 

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