Desejo e táctica. Jogador e máquina.

1 de Maio de 2011 16:51
Muitas vezes, no futebol, não dizer nada de especial é fazer sentir (é dizer) o…essencial. Diferentes "voos" para a eternidade.

 

Como num romance com bola, a jangada de pedra do futebol português soltou-se do seu espaço pensinsular e estendeu os seus relvados pelos territórios europeus. Três equipas com o sonho da Liga Europa agarrado à táctica. Num desses rectângulos verdes, um jogo do campeonato português. No outro, a máquina do FC Porto frente ao onze intruso espanhol.
Pairando sobre essa jangada futebolística, um ser superior colombiano, sublime ave de rapina do golo. Falcao. O primeiro finalista do sonho europeu surge através de quatro golos de puro instinto e arte de um ponta-de-lança assombroso que, na velocidade de 45 minutos, virou a história de um jogo que parecia ameaçar esse romance português.
 
No fim, questionado sobre o que teria dito ao intervalo aos jogadores que permitiu virar o jogo de 0-1 para 5-1, Villas-Boas desmistificou a palestra, não disse nada de especial, as coisas não funcionam assim. Esta resposta não é, como parece, tão vazia. Muitas vezes, no futebol, não dizer nada de especial é fazer sentir (é dizer) o…essencial.
No quadro táctico verde, a máquina portista juntou melhor as suas peças, isto é, colocou os seus jogadores, os médios, o triângulo Fernando-Moutinho-Guarín, mais juntos. A bola passou, então, a aparecer com outra clareza na área espanhola onde Falcao, por terra e ar, abriu a porta secreta para o golo. Este FC Porto tem um superior ADN de cultura táctica. Não é só a questão do 4x3x3 e suas dinâmicas. É a questão da personalidade, dos olhares que se trocam durante o jogo, da forma como, nos momentos mais difíceis, sabe agarrar a bola e controlar os diferentes ritmos de jogo. O transfer do lado emocional para a vertente táctica. Mantendo sempre o pace-maker do onze com os batimentos táctico-cardiacos correctos.         
 
Não é fácil atingir este nível de auto-controlo. O Benfica atinge, durante os 90 minutos, momentos de vertigem ofensiva que quase se traduzem em execesso de velocidade futebolística. Coentrão, Maxi, Aimar, Martins parecem voar para a baliza. A dificuldade em gerir ritmos de jogo condiciona, no entanto, a clareza do seu domínio de jogo nos momenos em que ele é mais evidente. O duelo contra o cavernoso Braga de Domingos foi um bom exemplo.
Frente a um onze bracarense em permanente sacrifício táctico, bem escondido na caverna da sua área, o onze de Jesus acelerou sempre demais os seus movimentos com bola. Numas alturas, tal podia ter sido demolidor. Noutras, confundiu as suas próprias ideias, tal a dificuldade que tem em baixar o ritmo e continuar a…jogar bem. Sempre que o tentou fazer, ou, a partir do meio da segunda parte, o foi forçado a fazer por razões físicas, perdeu o controlo do jogo. Ou seja, este Benfica não sabe jogar bem de forma mais…lenta. O seu bom futebol só conhece o ritmo alto. E, nenhuma equipa aguenta 90 minutos num ritmo acelerado. Sempre que as rotações tácticas baixaram, a tenda de futebol bracarense pegou no jogo e, através do método, jogou com o relógio. Existem mais 90 minutos depois desta primeira vida na Luz.
 
O livre de Cardozo, remate canhoto teleguiado, levou a ideia benfiquista à sua máxima potência, mas o dilema que agora se coloca (volta a colocar) ao lado estratégico do treinador Jesus é como preparar um jogo que começa em vantagem (um golo, um fosso que separa a Luz de Braga) e necessita de um inteligente controlo de ritmos superior ao que normalmente a equipa faz.
 
 
 
 
Com a língua
de fora
 
Chegados a esta fase da época, FC Porto, Benfica e Braga já não têm segredos tácticos entre si. Todos conhecem as suas diferentes formulas tácticas (4x3x3 de Villas-boas, 4x1x3x2 de Jesus, 4x2x3x1 de Domingos) e dinâmicas preferenciais. Podem inventar pequenas nuances de posicionamento ou movimentação (o Braga na segunda parte da Luz surgiu em 4x4x2, no FC Porto o cebola Rodriguez recua melhor que Varela) mas, na essência, todos dados de personalidade táctica estão lançados.  Falta o lado físico. Não vive isolado de tudo isto, mas, integrado neste cenário, é decisivo para a sua expressão.
Antes dos jogos, porém, essa questão física só se colocava (e continua a colocar) para uma equipa: o Benfica. Ou seja, sabe-se como a equipa joga, a qualidade da sua ideia de jogo e jogadores, mas neste momento, duvida-se se será capaz de a colocar em prática devido a questões de limitação física. É uma duvida perturbante. Sei que sou capaz, mas não sei se terei força para ser capaz.
Penso que, neste futebol de top, onde o volume competitivo de jogos sabe-se ir ser intenso por antecipação, uma equipa chegar à fase decisiva da época dependente desse factor sem o conseguir controlar (e até ser derrotado por ele) é o pior sintoma sobre a sua inteligência em saber gerir essa componente. A época benfiquista está presa pela questão física que, vendo a forma como o melhor jogo da equipa só está programado para surgir em alta velocidade, ameaça o seu sucesso de cada vez que as imagens revelam um jogador com a língua de fora.  
 
 
 
 
+ “Voos” para eternidade
 
Um jogador não pode viver acima da equpa, mas ninguém marca quatro golos por acaso e existem casos em que essa supra-dimensão individual devora as emoções e as análises tácticas de 90 minutos. Falcao voou para a eternidade nesta meia-final da Liga Europa. Noutro ponto da eliminatória, a força do colectivo bracarense para, em momentos certos, pôr gelo no vulcão da Luz. Perante o domínio adversário, tentar controlar os espaços.
O Braga é a equipa portuguesa mais italiana das três tal a forma como começa a (contra) atacar, através dos seus alas que recuam para pegar na bola e arrancar com ela. 
 
 
 
 
-Três tristes “trincos”
O golo de Messi é maradoniano, a expulsão de Pepe é discutivel, mas chegados a este ponto da época, independentemente dos resultados, entre a qualidade da ideia de jogo do Barcelona e do Real Madrid existe um abismo. De um lado, uma filosofia, produto acabado de várias épocas, o Barça, hoje de Guardiola. Do outro lado, o futebol camaleão que reduziu o Real a uma equipa de estratégia com três médios defensivos (Pepe passou de central a trinco e agora a médio puro).
Depois de se zangar com toda a direcção merengue por não ter um ponta-de-lança. Mourinho chegou à meia-final da Champions e deixou três no banco: Higuaín. Benzema e Adebayor. Falta Nou Camp, para a assinatura definitiva. 

 

 

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