O Império do "futebol nascente"

January 25, 2012 12:24 PM
Sasaki e Sawa, treinador e jogadora, o futebol feminino japonês que assombrou o Mundo (Helena Costa)

SATELITE DE FUTEBOL - HELENA COSTA

No Planeta do Futebol, a visão do satélite de futebol Helena Costa. Desde o Qatar, a sua forma de “pensar” futebol, FUTEBOL! Atmosferas e ideias, a partir de várias dimensões
 
 
 
 

JAPÃO: O IMPÉRIO DO FUTEBOL NASCENTE

Por entre os cinco continentes e os sete mares, um novo império do Futebol Feminino nasceu nos últimos anos. Este foi “apenas” o ano da consagração, no qual se colheram mediaticamente os frutos de uma política desportiva visionária, há muito estabelecida.

 Foram vários os talentos “alimentados”, essencialmente ao longo dos últimos dez anos, rostos agora populares, que desde o primeiro jogo deram ao Mundial de Futebol Feminino um perfume diferente, com fragrância táctica arrojada, competente e inteligente. Do início ao final do Mundial, a equipa nipónica demonstrou uma cooperação enorme, impôs um ritmo frenético na maioria das suas acções. Fez da posse da bola e da velocidade de circulação desta a sua maior carta de apresentação.
 
Norio Sasaki seleccionou uma mescla de juventude e experiência, irreverência e ponderação capazes de transportar para o jogo uma variedade de recursos que não beliscaram nunca o ritmo e intensidade de jogo elevadíssimos transpirados por um colectivo, no verdadeiro sentido da palavra. Polivalência táctica e competência são talvez os melhores termos para definir a prestação Japonesa.
 
Na fase defensiva o espólio foi variando consoante o adversário. Foram capazes de alternar um bloco médio/baixo com linhas muito próximas, basculação colectiva, defesa zona com ocupação posicional e racional dos espaços, até ao momento de provocação de erro adversário, com um bloco mais alto, linhas igualmente próximas, zonas e timings de pressão definidas, devidamente acompanhadas por cortes de linhas de passe. O sentido colectivo do momento defensivo foi enaltecido pela referida variedade de recursos e impôs aos adversários uma crise de pensamento táctico.
 
Treinador da Selecção Olímpica e adjunto da selecção principal desde 2006, Sasaki foi semi-finalista dos Jogos Olímpicos de Beijing, e campeão da zona Este da Ásia em 2008, quando assumiu o comando da Selecção Principal. Num Continente de grandes potências Mundiais do Futebol Feminino como China, Coreia do Sul, do Norte e Austrália (recentemente inserida na Confederação Asiática), foi campeão Asiático em 2010: um bom prenúncio para o Mundial que se aproximava.
 
Mais que apostar num líder e nas suas ideias, apostou-se na continuidade de alguém conhecedor das diferentes gerações nipónicas. Sasaki foi o ideólogo táctico da estratégia política, tendo sido o responsável técnico pela escalada vitoriosa de um país discreto e sem visibilidade no Futebol Feminino. Não blindou um grupo aos talentos que agora surgiram e surgem, mas blindou uma CULTURA no Futebol Feminino do seu país.
 

HOMARE SAWA, A LIDERANÇA DISCRETA 

A jogadora que mais sobressaiu joga curiosamente na mesma posição que Sasaki jogou. Embora não o tenha sido durante a Asian Cup 2010, e estando a ex-capitã ainda presente, foi Capitã de equipa e mais do que isso, foi treinadora dentro de campo. Com um perfil muito discreto, impôs a sua liderança com naturalidade pela sua competência. Completou neste Mundial a sua 173ª internacionalização
 
Jogando o Japão com uma dupla de pivots, Sawa foi o melhor exemplo do que deve ser uma jogadora que desempenha estas funções. Defensivamente posicionada à frente a uma defesa de quatro, revelou inteligência na ocupação de espaços, persistência na pressão ofegante ou na gestão de esforço que fez com uma atitude agressiva, embora mais posicional. Permutou e compensou defensivamente as defesas, sempre que se criaram alguns desequilíbrios, mas mais importante, foi a principal responsável pela construção de jogo ofensivo. Inteligência de Sasaki ao atribuir liberdade de construção e responsabilidade a quem mais competência tinha.
 
Restringir um pivot a funções defensivas, limitando o seu espaço de acção apenas a deslocamentos laterais e compensações defensivas é, na minha opinião, castrar o processo ofensivo num momento fundamental: a sua construção, mais ainda se o fizessem com Sawa. Cabe ao treinador dar “armas” às suas jogadoras para que a equipa se equilibre defensivamente , caso a pivot assuma funções de construção.
 
Com técnica apurada, drible fácil e qualidade de passe curto/longo exímia, pôde gerir ritmo e tempo do ataque, ora variando o ataque rápido com ataque posicional, desgastante para o adversário pela sua intensidade e duração; muito inteligente tacticamente, soube assumir o jogo com criatividade, progredindo em condução, transportando a equipa para perto da baliza adversária, e variando o centro de jogo como ninguém. É uma média definida como box-to-box: em fase defensiva posiciona-se em frente das defesas, está em todo o campo e aparece na área para finalizar, tem sentido de oportunidade, escolhe o momento certo, fá-lo e fê-lo como ninguém. Ser a melhor marcadora de um Mundial e desempenhar a função táctica de pivot não é de forma alguma comum. Foi o melhor exemplo em todos os aspectos, deu ao Futebol Feminino um golo histórico e foi merecidamente considerada a jogadora do ano.
 
A Psicologia confirma que depois de catástrofes, os grupos de trabalho saem sempre unidos; depois do tsunami foi isso que aconteceu: Sasaki teve um grupo coeso com espírito de sacrifício, humilde e agradecido ao mundo pela ajuda, inspirado pela liderança de Sawa, pelo seu talento mas também das demais companheiras. 
 
Mais do que ambos serem coroados pela FIFA,  como melhor treinador e melhor jogadora 2011, uma Cultura de Futebol nipónico foi cristalizada, um novo império do Futebol Feminino surgiu, subindo ao trono uma política desportiva.
 
Helena Costa, Qatar 2012
 
 
 
 

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