A armada de Tiblissi

24 de Novembro de 2004
HISTÓRICO DA VELHA URSS, GRANDE SÍMBOLO DO FUTEBOL GEORGIANO.

Moram cada vez mais longe as memórias do outrora temível futebol de leste. Num novo tempo, o actual Dinamo de Tiblissi é quase uma equipa-fantasma, que, agora como símbolo da independente Geórgia, busca resgatar os velhos tempos. Uma missão quase impossível a cargo de figuras como Nemsadze, Melkadze ou Kankava, principais estrelas de um onze distante do chamado ritmo internacional. Este são os seus pontos fortes e fracos.
Histórico emblema da velha URSS, o Dinamo de Tiblissi é hoje, a nível de clubes, o grande símbolo do renovado futebol da Geórgia. O seu onze é, quase sempre, todo constituído por jogadores de origem georgiana. A única excepção resume-se, em alguns jogos, á entrada do ala-esquerdo brasileiro Romero. Longe do estilo mecanizado que fez escola no leste, o actual Dinamo de Tiblissi é uma equipa desenquadrada do chamado ritmo internacional. Se tiver espaço, sabe trocar a bola, desenhar triângulos de penetração, em futebol apoiado, pelos flancos, mas, apesar do valor técnico da maioria dos seus jogadores, falta-lhe, depois, velocidade para mandar no jogo frente a adversários de nível europeu. Tacticamente, partindo de um 4x2x3x1 de rosto conservador, com as duas linhas do meio campo muito recuadas, a dinâmica do sistema, em termos ofensivos, fica comprometida pela incapacidade do onze em defender alto, incapaz de fazer o fora de jogo (em Newcastle falhou sempre quando o tentou fazer, deixando os avançados adversários isolados na cara do guarda-redes Irakli Zoidze), revelando-se, nesta postura, uma equipa demasiado macia, nem faz faltas, nem recupera bolas, fechando muito mal nas faixas. Ou seja, tem técnica, mas falta-lhe tempo para a por em prática. A juventude do onze, todo, á excepção do patriarcal médio centro Nemsadze, com idades inferior a 25 anos, assegura-lhe a irreverência competitiva, mas, depois, falta-lhe consistência táctica defesa-ataque. Neste contexto, o ponto mais equilibrado do onze reside na dupla de volantes Kankava-Kandelski, personalizada com a bola nos pés, capaz de a fazer girar, mas, após a perder a sua posse, pouco combativa na sua recuperação. Na defesa, os centrais revelam tendência para marcar ao homem, perdendo, muitas vezes, nessa acção de perseguir os pontas de lança adversários, o sentido posicional no coração da área, enquanto os laterais sobem no terreno a apoiar os médios-alas sempre que a equipa parte para o ataque. Nesta atitude revela-se um onze aberto, lento mas sem defensivismos exarcebados, tenta jogar e deixa jogar, dando muitos espaços.

AS ESTRELAS DE TIBLISSI

Nemsadze, o capitão da Geórgia

Para a equipa progredir no terreno existe uma condição indispensável: a bola passar pelos pés de Nemsadze. Ele é o patrão da equipa, um médio centro que organiza os movimentos do onze com sabedoria e tranquilidade. Aos 32 anos, o seu futebol pausado, cerebralmente lento, evidencia-se sobretudo pela sua notável capacidade de passe, desmarcando os avançados. 66 vezes internacional, capitão do Tiblissi e da selecção, fez grande parte da sua carreira no estrangeiro, regressando esta época á sua Geórgia após três épocas na Escócia, no Dundee. Antes, passara pelo Reggina (Itália), Grasshopers (Suíça) e Trabzonspor (Turquia). Todos os seus toques na bola são pensados previamente. Quando solta a bola, ela leva sempre indicações precisas sobre o caminho a seguir.

Kankava, o futuro

A maior promessa para o futuro do futebol georgiano: Kankava Jaba. Um interessante médio volante defensivo, que, apesar de ainda só ter 19 anos, revela já uma postura competitiva muito adulta, quer em tarefas de contenção, quer ao soltar a bola na saída para o contra-ataque. Avança sem medo no terreno, procura fazer girar a bola e é, ao mesmo tempo, o elemento mais agressivo do onze na sua recuperação. Internacional Sub-21, promovido esta época da equipa de reservas do Dinamo, já tem valor para jogar na principal selecção georgiana treinada por Giresse.

O MEIO CAMPO E O ATAQUE: A importância dos alas

Na dinâmica ofensiva da equipa, destaca-se o papel dos médios ala, tecnicamente dotados, dando profundidade atacante ao onze, procurando, muitas vezes, perto da área, espaços para rematar, centrar ou executar diagonais de apoio ao ponta de lança. É nesse espaço que actua o único estrangeiro da equipa, o brasileiro Cesar Romero, vindo esta época do Paraná., ocupando a faixa esquerda. O elemento mais talentoso, actua, porém, na direita, com o habilidoso Aladashvili, 21 anos, rápido e tecnicista, muito inteligente a procurar tabelas. Também destro, Kakladze, que também pode alinhar á esquerda (como fez em Newcastle), é, por sua vez, mais cerebral. Ambos recuam muito no terreno, para tentar marcar a meio campo, mas nenhum deles se sente vocacionado para essa missão. É quando o onze recupera a bola e tenta partir para o contra-ataque que melhor evidenciam as suas qualidades técnicas ofensivas, talvez o ponto mais forte do onze.

As armas ofensivas: Melkadze, Dvali e Gancharov

Na frente de ataque, o jovem técnico Gia Geguchadze, antigo adjunto do mítico David Kipiani, dispõe de três opções, variando a sua utilização consoante jogar com um ou dois avançados. Isto é, em 4x4x2 ou 4x2x3x1. Como nos jogos frente a adversários mais fortes tem tendência a optar por sistemas mais conservadores, com um só ponta de lança, o homem abandonado entre os centrais adversários é, preferencialmente, Melkadze, possante (1,86m. e 83kg.) e com grande mobilidade, sempre em busca de espaços vazios, mas tecnicamente limitado. Se jogar com uma dupla de avançados, poderão surgir, a seu lado, o jovem Dvali, 19 anos, saído este ano da equipa B, ou o esquivo Gancharov, contrado ao Sioni Bolnisi e que, em 99/00, alinhou no Arsenal, embora sem nunca passar da equipa de reservas. No final da época, Wenger acabaria por deixar partir a promessa georgiana que, antes, fora buscar ao TSU tiblissi com apenas 19 anos. Hoje, busca relançar a carreira no Dinamo.

O Esquema Táctico / Sistema: 4x2x3x1

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