O futebol pensado através de Shakespeare. “O espectáculo. Eis a armadilha onde apanharei a consciência do Rei”. A sublime frase, em Hamlet, é uma lição de vida inteligente que atravessa o tempo como uma lança afiada. Lembrei-me dela esta semana e imaginei-a a espetar-se, implacavelmente, num moderno relvado de futebol inglês. Anfield Road, Liverpool. O lanceiro tinha outro sotaque, vindo do Vodka, mas poucos como ele sabem montar armadilhas de futebol para apanhar a consciência fria que hoje o domina. É o duende russo Arshavin. Quatro golos e o futebol devolvido ao espectáculo das emoções por uma equipa que há vários anos respeita um estilo que, ganhando ou perdendo, já conquistou dos adeptos imparciais o mais nobre nível futebolístico: admiração.
É, claro, o Arsenal de Wenger. Qualquer jogo seu é uma esperança renascida no bom futebol. Um atrevimento que tem base na cultura circular de posse de bola, gerindo diferentes velocidades, pelos três corredores (centro e flancos). No lado táctico, este Arsenal tem, no entanto, sombras que o condicionam os resultados.
Primeiro ponto: a defesa, claramente. Como o 4-4 de Liverpool disse sem pestanejar. Faltaram Clichy, Djourou e Gallas. Jogou Silvestre a central (ao lado de Touré) e nunca garantiu segurança na ocupação dos espaços, sobretudo num lado onde o lateral-esquerdo, o litle boy Gibbs, ainda está preso ao berço e treme quando sai dele. Sem uma defesa segura, sem e com bola, na saída em transição, a equipa perde inclusive consistência para segurar e trocar a bola a meio-campo, pois fica com receio de a perder e ser apanhada defensivamente desequilibrada.
Segundo ponto: o enigmático turn-over. De um jogo para o outro, Wenger mudou o seu plano ofensivo. Walcott-Van Persie-Adebayor, contra o Chelsea. Bendtner, nº9 fixo na frente, Fabregas nas costas, mais Nasri e Arshavin a entrar das faixas, contra o Liverpool. Vendo o festival Arshavin a questão que saltou foi: mas porque não jogou ele na meia-final da FA Cup contra o Chelsea sábado passado? Não fez sentido,sobretudo porque o russo já nem pode alinhar na Champions.
Tacticamente, é uma questão de garantir equilíbrios. Teria de sair um avançado. Como acho dever ser proibido mexer em Van Persie, o elo mais fraco é Nasri (até porque tenta jogar da mesma forma que o russo). Ou seja, mantinha o esquema de Anfield, com Fabregas mais atrás, Van Persie nas costas de Abebayor, Walcott extremo e Arshavin continuava no seu lugar.
Seja qual for o xadrez de Wenger, o bom futebol, esse, existe sempre. Mas só com Arshavin, ganha, em russo, a uma moderna expressão shakesperiana.