Os esquerdinos continuam a ter uma dimensão mágica no futebol argentino. Lionel Messi não é o novo Maradona, mas com ele e o seu estilo encantado, a Argentina descobriu um novo pibe canhoto para a fazer sonhar. No centro de um onze muito competitivo, mas pouco sedutor futebolisticamente em comparação com outras jovens selecções argentinas do passado recente, foi o seu fabuloso pé esquerdo que deu o perfume e a essência de bom futebol ao novo campeão mundial Sub-20.
Apresentando uma equipa toda composta por jogadores já a alinhar nas primeiras equipas do mundo profissional, a Argentina de Messi revelou uma elevada maturidade competitiva que, nos jogos decisivos, fez a diferença entre outras selecções mais atraentes, como Nigéria ou Brasil, mas menos realistas no plano táctico-técnico.
Sempre fiel ao sistema de três defesas (3x3x3x1) respira cultura de jogo, saber táctico e talento individual. Traços de um futebol adulto que começam no trio de defesas (Cabral-Torres-Paletta), durinho, mas que, como os dizem velhos centrais argentinos, sabe em que osso bater e sempre longe de zonas de perigo, ao contrário da atraente mas defensivamente ingénua Nigéria que, no jogo da final, cometeu dois penaltys infantis que roubaram ao continente africano o sonho de conquistar o primeiro titulo sub-20 da sua história. Em ambos as oportunidades, Messi não tremeu e, docilmente, fez os dois golos que carimbaram o título.
As chaves do onze argentino

Se Messi é o guia espiritual da equipa, o único de quem se espera um rasgo individual que pode resolver um jogo, o capitão Zabaleta, médio interior direito que sabe, a atacar, abrir na faixa direita, é quem lhe dá carácter. Com classe e picardia, rouba e transporta bolas para o ataque, onde, apesar de jogar só com um avançado fixo (Oberman), surgiam sempre, na fase de finalização, três ou quatro jogadores.
Nesses momentos, Messi, quando não inventava um lance de génio, arrastava as marcações e soltava, sobre a esquerda, o incansável Neri Cardozo, veloz e inteligente a dar profundidade de jogo pela faixa. Os quatro, Zabaleta-Messi-Cardozo – a segunda linha criativa do meio campo- e Oberman – ponta de lança- foram, na sua coordenação e dinâmica de movimentos, a base ofensiva do titulo argentino.
O circuito preferencial de jogo começava, porém, mais atrás, nos pés do trinco (Gago ou Biglia), enquanto as investidas e triangulações pelos flancos nasciam, muitas vezes, das subidas dos laterais ofensivos (Barroso-Formica), que, apesar dessa postura atacante, nunca perdiam, depois, consistência a defender.
Nigéria, a face ingénua da magia

Tacticamente alicerçada num sábio médio-centro, Mikel, a Nigéria foi, em termos globais, a equipa mais interessante do torneio. Esquematizada num coeso 4x1x3x2, revelou grande versatilidade a atacar pelos flancos, com dois extremos vagabundos rápidos e donos de um drible em progressão desconcertante, Abwo, á direita, e Owoeri, á esquerda, a faixa onde emerge um jogador que irá, certamente, brilhar no futebol europeu: Taiwo, lateral esquerdo possante, com um remate demolidor, agressivo, forte a atacar e seguro a defender.
No ataque, Ogbuke e Promise estão sempre em movimento, criando, com essa dinâmica, abrindo muitos espaços de penetração. Ferozmente cobiçado por Manchester United e Chelsea, Mikel provou que tem classe. Faz tudo bem. Quase nunca com grande velocidade, mas sempre com perfeita leitura de jogo. Cada toque seu faz a equipa avançar.
O ponto fraco que matou o sonho do título residiu no quarteto defensivo, sem agilidade posicional, dura de rins, abrindo muitos espaços e com entradas duras em locais proibidos. Uma ingenuidade fatal, protagonizada sobretudo pelos centrais, quase sempre batidos em um para um e tacticamente agravada pelo facto de jogar só com um trinco.
Llorente, Delura
e o mago Iajour

Para além dos finalistas Argentina e Nigéria, este Mundial Sub-20 teve outras equipas e estrelas para fixar.
No quadro europeu, a Espanha, onde Cesc nunca explodiu, revelou um ponta de lança gigante, Llorente, muito forte no jogo aéreo, mas, sempre em 4x2x3x1, também não teve arte, nos quartos-final, para travar a magia de Messi. Na Alemanha, Delura, atleticamente possante e tecnicamente dotado, confirmou-se, sempre em passada larga, como um médio ofensivo todo-terreno de grande categoria. Explosiva a atacar pelos flancos, a Holanda, em 4x3x3, resgatou os extremos puros, Abeye e Vincken, montou um triangulo no meio campo (Maduro-Kruys-Emanuelson) e revelou um nº9 para o futuro, Babel.
Uma nota muito positiva vinda de África: a selecção de Marrocos. Dois alas-extremos muito interessantes, Zhar, á direita, Bendamou, á esquerda, rápidos, dribladores e com sentido de baliza, e um excelente avançado centro, Iajour, inteligente a procurar espaços vazios, lutador quando recua para pegar na bola, e mortífero em frente á baliza.
Brasil: Entre a arte e a táctica

Sem grandes artistas, a selecção brasileira de René Weber nuca revelou o ofensivo e dinâmico tradicional estilo canarinho. Esquematizada em 4x4x2, sofreu com a ausência de extremos puros. O elemento mais activo pelos flancos foi o lateral direito Rafael (o melhor jogador do onze), muito ofensivo, rápido, e, com garra e técnica, muito inteligente nas triangulações á entrada da área. Na defesa, sigam o central Gladstone, personalizado e forte no jogo aéreo, nas costas do trinco Roberto.
No meio campo, Renato revelou-se o jogador mais virtuoso, o único a dar sentido ás movimentações ofensivas desde trás e, no ataque, Rafael Sóbis, embora recuando muito ou escondendo-se nas faixas, mostrou que, sem grandes fintas, sabe sempre qual o passe certo a fazer.
O ONZE DO MUNDIAL