A arte de Zagreb

24 de Novembro de 2004
UM HISTÓRICO DO FUTEBOL EUROPEU EM BUSCA DO PRESTIGIO DOS VELHOS TEMPOS.
Mescla de técnica e picardia com o indomável carácter croata. Apesar dos valores individuais que a compõem, este Dinamo de Zagreb é, no entanto, um onze tacticamente desequilibrado, incapaz de encontrar a dinâmica certa para o seu preferencial 3x5x2. Uma dilema táctico-estético que assalta jogadores como Kranjcar, Da Silva, Agic ou Pranjic. Este é a sua análise.
Herdeiro da velha escola jugoslava, Zagreb é, desde velhos tempos, um local de culto nas rotas do bom futebol europeu. No presente, símbolo da rebelde Croácia, continua em busca do mesmo tesouro. Neste contexto, o nome de Kranjkar tem uma ressonância mítica. Nos anos 80, foi um dos melhores jogadores jugoslavos, Zlatko Kranjcar. Duas décadas depois, o mesmo nome ressurge nos pés de outro mago, Niko Kranjcar, filho da estrela do passado. Ele é, com apenas 20 anos, o grande talento do novo futebol croata, o maestro que ilumina todo o jogo do Dinamo de Zagreb, uma equipa em busca de recuperar o prestigio de outrora, baseando-se, sobretudo, num grupo jovem, onde se destacam Jese, Pranjic, Buljat, Lucic, Kranjcar, Zahora, Da Silva (brasileiro naturalizado), Tomic e, claro, Kranjcar, todos presentes no Europeu Sub-21 de 2004. O fraco inicio de época já provocou, no entanto, sucessivas tempestades no seu comando técnico. Após a demissão de Jurcevic, adepto do 4x3x1x2, seguiu-se Nenad Gracan, profeta de um estilo mais aberto, o 3x5x2. Acumulando derrotas, também seria afastado. Enquanto o adjunto Djuro Bago volta a assumir interinamente o cargo, é o director desportivo Otto Baric, antigo seleccionador croata, que dita as novas regras, devendo manter o 3x5x2 sempre preconizado em todas as suas anteriores equipas, clubes e selecção. Mais do que em questões tácticas, a principal mudança na forma de jogar da equipa deve verificar-se, porém, na atitude competitiva, soltando-a para explorar o jogo pelas faixas com as entradas dos flanqueadores Pranjic e Mujcin, dois virtuosos de alto índice técnico, num onze equilibrado pela visão de jogo do volante Agic, dinamizada pela acção do médio ofensivo Bosnjak, organizado pela classe orquestral de Kranjcar e ofensivamente impulsionado pelos golos de um brasileiro de passaporte croata, Da Silva, muitas vezes apoiado, nas movimentações perto da área, por Ljubojevic e Karic, ou, nas entradas desde trás, por Zahora. É uma equipa com técnica e carácter, sem grandes fechaduras defensivas, algo desequilibrada tacticamente a defender, mas muito sedutora na forma rebelde de jogar, mescla de criatividade e picardia. Todos os jogadores estão sempre a pedir a bola.

Agic, Bosnjak e Pranjik: os pêndulos e os rompedores

Um dos maiores segredos para o sucesso colectivo de uma equipa reside no equilibrio do meio campo entre recuperadores, pensadores e criativos. Embora muitas vezes não o faça no timing certo, este Dinamo Zagreb tem jogadores para estas distintas tarefas. O ponto de partida é o médio defensivo Jasmin Agic, experiente, 30 anos, agressivo e com boa visão de jogo, sabe fazer circular a bola e, muitas vezes, é destacado para vigiar ao homem o playmaker da equipa adversária. Esquerdino, também gosta de subir no terreno e possui um excelente remate. Sobre os flancos há um nome a fixar: Pranjic, 22 anos, vindo esta época do Osijek. Veloz, rebelde, com técnica apurada, driblando e cruzando com precisão, desiquilibra as marcações de qualquer sistema defensivo. Joga sobretudo sobre a faixa esquerda, onde se sente melhor, junto á linha, arrancando desde o meio campo com a imaginação á solta. As suas movimentações fazem mexer toda a equipa na fase atacante. Também importante a atacar pelos flancos, cite-se o veterano bósnio Mujcin, 34 anos de sabedoria, embora parta quase sempre do banco. Ao lado da estrela Kranjxar, o outro homem decisivo na movimentação atacante é o ambidestro Bosnjak. Joga no centro ou nos flancos, trocando com Kranjcar. Quando este se encosta á faixa, Bosnjak emerge como pensador central.

As torres da defesa

Os pilares da defesa moram numa gigante dupla de centrais: Mijatovic (1,91m.) e Milinovic (1,89m.). Muitos fortes no jogo por alto, no corte ou a surgir, na frente, nos lances de bola parada. Algo duros de rins e com dificuldades nas rápidas triangulações junto á relva, compensam essa lentidão com um perfeita leitura de jogo, actuando em antecipação. Quando opta por jogar em 4x4x2, emerge a polivalência do médio Poldrugac, que passa para lateral-esquerdo. Na ala direita, com defesa a «3» ou a «4», a principal referência é Buljat.

JOGADORES-CHAVE

Niko Kranjcar: Poemas de futebol

Craque em croata escreve-se Kranjcar. Um grande talento do novo futebol croata que reúne, na cabeça e nos pés, todos os atributos que faz brilhar as grandes estrelas dos relvados: técnica, visão de jogo, remate, carácter lutador, fisicamente forte (1,84m. e 83 kg.) e grande personalidade. Não é muito rápido, ás vezes parece até ter peso a mais, mas a sua forma de pensar o jogo está avançada em relação a toda a equipa, um pouco ao estilo de Boban, mas com maior capacidade lutadora, inclusive em termos de recuperação da bola. A grande referência do seu jogo mora, no entanto, na imaginação do seu futebol que o levaram a estrear-se com apenas 16 anos na primeira equipa do Dinamo de Zagreb. No futuro, terás as chaves da principal selecção croata, depois de, nos últimos anos, ter chefiado a nacional Sub-21, sempre no mesmo estilo, capaz de encher o campo, jogar e fazer jogar, com classe, técnica, sentido táctico e vocação de maestro.

Da Silva: Artilheiro croata-canarinho

É cada vez mais natural, nas confusas babiblónias futebolísticas da actualidade, encontrar brasileiros a jogar por países situados a dezenas de milhares de quilómetros da sua origem. Um dos últimos casos, chama-se Eduardo Da Silva, ponta de lança. Com 21 anos, chegou á Croácia há quatro anos -com 17- após ser descoberto num anónimo clube da zona oeste do Rio de Janeiro, sediado em Nova Kennedy. Foi emprestado ao Inker Zapresic e, desde a época passada (24 jogos e 9 golos) tornou-se titular do Dinamo Zagreb. Esta época já marcou 7 golos em 12 jogos Depois de já ter jogadas pela selecção croata Sub-21, estreou-se, este mês, após um processo polémico, pela principal selecção da Croácia, em Dublin, frente á Republica da Irlanda. Principal motivo: a sua criatividade e capacidade goleadora. O seu tipo de jogo não tem qualquer contacto com o tradicional estilo croata de Prso ou Olic. Sem grande capacidade de choque (1,75m. e 61kg.) destaca-se sobretudo pela destreza de movimentos, foge bem ás marcações e é muito oportuno dentro da área. Não é jogador de dribles, prefere jogar simples e, muitas vezes, procurar entrar pelos flancos, onde há mais espaços vazios.

Equipa tipo/ Sistema: 3x5x2

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