No futebol são raros os chamados triunfos de autor. Em geral, os méritos para a vitória têm deflagração colectiva, mas existem casos em que há alguém para quem se olha mais. As conquistas do FC Porto na época passada têm produção sobrenatural: Campeonato, Taça, Supertaça, Liga Europa. Para além disso, por entre exibições de táctica e técnica, deixou pelo caminho vários records, com o utópico, à luz do futebol moderno, campeonato sem derrotas. A próxima época coloca pois um dilema impossível: como fazer para melhorar?
A questão, claro, deve até colocar-se mais aos seus directos adversários, suspeitos do costume, Benfica e Sporting. Embora em prismas diferentes, todos encaram essa questão que, na prática, divide-se em várias interrogações: comprar muito ou pouco? E quem comprar e para que posições? Reforçar o onze base ou as alternativas do plantel? E vendas, quantas fazer, quem e por quanto?... Já são perguntas suficientes. Bastam para colocar a preparação da equipa (planos do treinador e gestão dos directores) num autêntico labirinto.
A primeira tentação, ganhando ou perdendo, é comprar mais. Não considero que seja necessariamente um mau começo. Desde que, claro, tal signifique contratar jogadores importantes para aumentar a dimensão competitiva da equipa e dar-lhe o que faltou na época anterior. O FC Porto já tem a equipa feita, solidificada. Ao Benfica também parece faltar pouco para encontrar um onze capaz de transmitir semelhante sensação. Nessa busca, há jogador para quem é imperativo descobrir um lugar no onze: o belga de carapinha farta Witsel. Jesus já percebeu isso e, na Turquia, tentou conciliar o aparentemente... inconciliável: Witsel e Aimar, juntos e perto um do outro no corredor central. A fórmula: Aimar reciclado a segundo avançado e o anfíbio Witsel incorporando missões de condutor/organizador desde trás.
Quase como devolvido à mera existência terrena, Jesus resgatou um discurso mais soft. Na casa azul-branca, Vitor Pereira faz o upgrade de poder de comunicação clássico na imagem e cadência de discurso assertivo, típico dos treinadores do FC Porto. Ambos combatem, porém, vitórias passadas em que existiram os tais triunfos de autor. No caso portista, André Villas-Boas, o último passageiro da cadeira de sonho. Nenhum outro treinador no FC Porto, desde Mourinho, conseguira, em certos momentos, parecer ser superior à estrutura, ou, pelo menos, capaz de antes de ser ela a faze-lo ganhar, ser ele a faze-la crescer. No caso encarnado, o autor é o… Jesus da primeira época. Será, talvez, o pior dos inimigos. Combater a sua própria existência numa outra vida futebolística sem ceder à tentação de repetir os meus actos e palavras. Diferentes versões do fantasma do passado.
E, entretanto, a época começa e o mercado continua aberto. A parir de agora, porém, funciona não como janela de oportunidades, mas antes como terrível ameaça. O FC Porto blindou o mais possível (percentagem do passe e cláusula de rescisão) Falcao, Hulk e Moutinho. Em muitos jogos eles ou deram socos individuais que derrubaram jogos (entenda-se adversários) ou meteram os companheiros às costas e levaram a equipa à vitória. Outros rostos dos triunfos de autor. A nova época, que abre com a Supertaça, arranca ainda com todas estas mentes privilegiadas (no banco, com a estratégia, ou na relva, com a bola) a pairar sob ambas as equipas e sua estrutura. Ainda bem. Nada agita mais as consciências do que uma missão impossível.
