A posse e circulação de bola é decisiva no bom futebol mas nem todos os espaços têm a mesma importância. Por definição, as zonas centrais servem para equilibrar a equipa e pensar o jogo. As zonas laterais, para desequilibrar e abanar com o jogo. Depois, é procurar a relação perfeita entre essas diferentes espaços. Em geral, é nas faixas que, a atacar, moram os menos responsáveis tacticamente no plano defensivo. Com bola, porém, criam os tais desequilíbrios individuais. No centro, devem estar os mais cultos a gerir ritmos.
Há equipas e sistemas que nos levam a pensar mais em tudo isto. O At.Madrid é um desses casos. Joga num 4x4x2 clássico. Apesar do valor dos jogadores, não consegue essa relação entre-espaços. Tem dois avançados móveis terríveis (Aguero-Forlan) alas com técnica e picardia (Simão-Maxi-Reyes-Luis Garcia) mas, depois, falta-lhe dimensão pensadora no corredor central à medida que sobe no terreno.
O problema está no perfil, posicionamento e dinâmica do duplo-pivot defensivo. Em geral, Motta-Raúl Garcia. Outras opções, Cléber Santana e Jurado. O condicionamento nasce, desde logo, no facto de, por princípio, jogarem de perfil. Ou seja, falta quem, em posse, assuma a condução de bola para queimar-inhas com noção de construção, servindo como referência de circulação de bola para os extremos. Jurado é o que tem mais perfil para isso, mas é pouco intenso. Raul Garcia lê bem o jogo, mas não é um patrão. A solução poderia estar num dos alas flectir na segunda linha do meio-campo, e, já perto da área adversária, pegar na bola. Penso, claro, em Simão.
Sempre que o vejo jogar, acabo a pensar que um jogador com o seu nível de talento inteligente teria de jogar numa amplitude de terreno muito maior do que apenas na faixa. De todos os nossos extremos -Figo, Ronaldo e Quaresma- Simão é, claramente, o que tem maior noção táctica do jogar quando confrontado em diferentes espaços durante o mesmo jogo. Sobre a ala-esquerda, o seu habitat, tem a perfeita noção do equilíbrio ataque-defesa da sua posição. Por isso, sabe medir quando é o timing táctico de flectir, pegar na bola e, no centro, pensar o jogo e desequilibrar também através do passe.
Aqueles jogos que fez no Benfica como vértice ofensivo do losango foram os em que o seu jogo inter-activo com a equipa atingiu maior dimensão. E continuou a desequilibrar individualmente. No At.Madrid tal poderia ser feito sem mexer no sistema, ou, em alternativa passando a jogar em rombo (o losango em espanhol). De outra forma, a equipa, embora perigosa a atacar, joga se lhe detectar uma linha de pensamento colectiva. Seria o papel ideal para Simão. Para a equipa e, sobretudo, para a sua dimensão como jogador.