A aventura de "pensar" o jogo

29 de Setembro de 2011 12:21
As diferentes sensibilidades entre mexer numa equipa quando se está a ganhar ou quando se está a perder

O que é mais difícil? Mexer na equipa para esta, apesar de em vantagem no marcador, recuperar o controlo de jogo que estava a fugir, ou fazer essas alterações quando se está desvantagem para virar o resultado? Dirão que ambas têm a sua dificuldade e depende de muitas circunstâncias, mas a verdade é que as duas exigem sensibilidades tácticas muito diferentes. Ambas, em bancos diferentes, passaram pelo último FC Porto-Benfica a meio da segunda parte. Vítor Pereira no primeiro dilema, Jesus no segundo.


Confesso que imagino a primeiro caso como um maior desafio ao treinador. Procurar o golo tem um raciocínio mais lógico em termos de necessidade ofensiva. Ver a equipa a perder o controlo do jogo e ter de lhe mexer para o resgatar, quase procurando impor um jogo «sem balizas», exige meter o bisturi táctico com maior precisão. Existem casos em que tudo se resume a fechar a porta, reforçar coberturas defensivas, mas, em geral, no chamado futebol de top, o segredo está quase sempre no meio-campo. É o sector que melhor pode esconder a bola e decifrar os segredos tácticos da posse pela mera posse. É a arte de meter o jogo no congelador.


Por isso, quando este dilema invadiu a cabeça de Vítor Pereira, a sua primeira reacção foi, claro, olhar para o meio-campo, o seu sector dos «três médios». O desafio: mexer para lhe devolver intensidade e capacidade de posse. Uma cirurgia táctica que se traduziu em trocar um dos elementos desse trio (Guarin), o mais pressionante, por um outro (Beluschi), mais artístico. O jogo necessitava, porém, de uma equação táctico-matemática mais complexa. A perda de intensidade do sector não nascia dentro dele mas sim de...outro sector: os alas do ataque tinham deixado de recuar. Uma descompensação de transição defensiva e ocupação do sector intermédio que, para resgatar o seu controlo, necessitava realmente de um novo médio mas sem perder o trio de origem. É o «segredo do quarto médio» como arma de por gelo num jogo. Quando, do outro lado, entrou em campo o «avançado natural» (Saviola), metido pelo treinador que precisava virar o resultado, ele descobriu mais espaços do que em condições normais existiriam num jogo que estivesse congelado.


O campeonato vai ter muitas outras páginas tácticas para serem escritas até ao final. Uma equipa, em campo, tem de ser, por definição, uma interacção permanente. As alterações que o treinador lhe faz durante o jogo devem ter essa intenção permanente (tentando resgatá-la, manter ou reforçar). O pior que pode fazer é esperar que um único jogador decida o jogo ou até, numa visão mais táctica, que seja só através dele que um dos seus momentos (defensivo ou ofensivo) funcione. O jogador mais importante é aquele que agarra o jogo na fase mais delicada para a equipa. Raramente, porém, esse jogador nasce por si só no campo. Necessita que o treinador o lance.

Artigos Relacionados