A “babilónia” do Milan

1 de Outubro de 2010 12:04
De Ronaldinho a Boateng: como encaixar a importância dos jogadores “normais” no meio de tantas estrelas?

 

O ego de Ronaldinho, disfarçando a barriguinha com a camisola fora dos calções, o nariz no ar de Ibrahimovic, a garra de Gatuso e Inzaghi que, nascido no limite do fora-de-jogo, continua festejar um golo ao Génova da mesma forma que faz na final da Champions. A babilónia do Milan continua um fosso de paixões. No meio, um treinador. O debate sobre o Milan de Allegri apaixona Itália. Primeira dedução: um ataque reune Ronaldinho, Ibrahimovic, Pato e Robinho tem de ser demolidor. O futebol não tem, porém, uma lógica tão simples, muito menos em Itália. Por isso, Allegri não descobre um módulo (como os italianos chamam aos sistemas) que concilie esse quarteto. O início é um 4x3x3 com Pirlo pivot e dois interiores mais de pressão e transporte atrás do trio atacante largo, com Ronaldinho à esquerda e Ibra solto no meio, deixando aberto o lado direito para Pato ou Robinho.
No último jogo, porém, contra o Ajax, em Amesterdão, Allegri surgiu em 4x3x2x1. Seja qual for a opção, joga só com um pivot, Pirlo. A intenção é meter no onze dois jogadores mais terrenos mas tacticamente mais úteis: Seedorf, o eterno playmaker de veludo, e Boateng, a contratação que, sem o rótulo de estrela, pode ser, tacticamente, a melhor para a equipa. Porque Boateng é um médio completo, força com critério na recuperação e transporte de bola, a defender e atacar. Allegri já os tentou juntar em 4x3x3 como interiores num triângulo com Pirlo atrás. Nesse módulo, Boateng continua a soltar-se bem, mas Seedorf fica num espaço mais indefinido, pois é no centro que gosta mais de jogar, como fez contra o Ajax, no tal 4x3x1x2, atrás da dupla atacante Ibra-Robinho. Outra alternativa, nesta variante, seria Boateng encaixar no «3» recuado, ao lado de Gattuso, mas assim retiraria do onze um…avançado-estrela.   
 
Allegri vive hoje nesse dilema. O cenário europeu é diferente dos jogos do Scudetto, onde defronta equipas mais fechadas com 7/8 jogadores sempre atrás da linha da bola. Nesses casos, é necessária uma circulação de bola mais paciente, com largura, para ir desmontando esses muros. Para tal, é decisivo o critério, como placa-giratória, de Seedorf em zonas centrais e os passes (rasgos) de Ronaldinho desde a esquerda, embora quase sempre a passo. Fazer isso em 4x3x1x2 é, em termos de jogo posicional, quase impossível, pois a equipa perde, por natureza, largura de circulação. O natural será manter o 4x3x3 no Scudetto, e o 4x3x1x2 na Champions, mas essa alternância de módulo pode, em nome das estrelas, retirar a influência táctica aos dois jogadores que, à frente de Pirlo, fazem, na verdade, a equipa mover-se na construção de jogo: Boateng e Seedorf. 
 

 

 

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