Viver ou sobreviver. Jogar ou não deixar jogar. Em campo, as equipas têm diferentes formas de expressão. O instinto de sobrevivência è um conceito, num primeiro olhar, que encaixa nas equipas ditas mais pequenas. Mas isto, por si só, não deve retirar qualidade de vida à equipa em campo. É essa a grande missão do treinador nesse território. A tendência é relacionar imediatamente jogar ou não deixar jogar com ter a bola e atacar ou não ter a bola e defender. Não é assim tão linear.
Defender é um conceito mais amplo de jogo e não implica só a não posse de bola. Saber defender quando se tem a bola, isto é, não perder o sentido posicional da organização defensiva quando se entra na transição ofensiva é um aspecto fundamental nessas chamadas equipas sobreviventes pois são as que se desiquilibram mais facilmente após a sua perda.
A qualidade de vida está, por isso, num primeiro aspecto, relacionada com saber defender com bola, temporizando a transição e organização ofensiva, circulando, ganhando tempo, controlar espaços.
O nosso campeonato suscita essa reflexão, vendo como há equipas que parecem não querer ter a bola. Não se sentem confortáveis com ela nos pés porque entrando com o chip da acção defensiva activado só o entendem sem bola. Quando a recuperam, cada jogador quase parece ter uma granada nos pés, pronta a explodir. As equipas mais pequenas serão tanto melhores quanto melhor souberem defender com a bola.
Uma equipa que causava essa sensação era o Rio Ave de Eusébio. Tinha um instinto de sobrevivência terrível sem bola. E segurava resultados assim. Quando recuperava a bola, porém, os jogadores pareciam temer perder as referências defensivas e não conseguiam ganhar a tal qualidade de vida em posse, voltando a perdê-la rapidamente. Por isso, jogava melhor em desvantagem no marcador do que quando procurava dar a volta.
Oposto ao sentido pela Académica de Domingos, que levanta até demasiado o nariz quando recupera a bola e arrisca passes de primeira instância no seu meio-campo, mesmo em bloco baixo. Salta essa zona de risco, porque opta, numa segunda fase, por um passe longo em contra-ataque para avançados rápidos. Com as contratações de Yazalde, Candeias e Coentrão, o Rio Ave também pode caminhar nesse sentido.
O Trofense de Tulipa é exímio a jogar meio-jogo, o defensivo. Impecável sentido posicional em organização defensiva. O problema não está contra equipas mais fortes, onde tenta transições rápidas, mas com adversários do seu nível, a exigir outra dinâmica de posse ofensiva. Mas, em qualquer caso, joga contra a outra equipa e persegue a bola. Diferente do Belenenses de Pacheco que, por vezes, parece mais correr atrás da outra equipa, promovendo jogos de pares. Perdidos esses duelos, desorganiza mais facilmente as posições defensivas.
Quanto menor for o espaço onde se realiza a pressão, mais hipóteses existe de recuperar a bola. Quanto maior for o espaço onde se conseguir jogar, maior qualidade vida terá uma equipa em campo. Grande ou pequena.