Jogador, bola, baliza: o "triângulo das bermudas futebolístico" de Cardozo a Rodrigo.
Durante um jogo, o jogador confronta-se com diversos adversários. O defesa a travar o avançado, este frente ao guarda-redes mais ágil, lances divididos, uma sucessão de confrontos quase como saíssem debaixo de um alçapão no relvado. Falta, porém o confronto maior. Quando o jogador se confronta consigo próprio. Quando já não existem adversários, defesas, guarda-redes, nada! Só ele, uma baliza desprotegida e a bola mesmo á sua frente. Junte-se, neste imaginário, esse jogador ser o ponta-de-lança dessa equipa. Parece simples. O nº9 cumpre a burocracia de aproximação ao lance, remata e a bola vai para...fora.
Existe explicação para isto? Pode ser estranho mas em vez da displicência que pareceu emergir da forma como Cardozo fez aquele remate na Madeira, esse falhanço incrível terá resultado antes do excesso de confiança com que foi para a bola. Na sua cabeça, ela já estava dentro da baliza. No transfer para a realidade, esse convencimento traduziu-se num gesto técnico tão imperfeito que a fez virar costas ao destino das redes e ir embora amuada.
Em campo, o confronto do jogador com a sua cabeça tem desígnios insondáveis, mas o jogo esconde muitos outros alçapões e quando, perto do fim, esse duelo consigo próprio voltou, ironicamente, a repetir-se, Cardozo não falhou. A bola nunca entra ou vai para fora por acaso.
Cardozo é um jogador difícil de gostar por muitas razões (este perturbante mundo de contrastes será uma delas) mas dá uma presença na área que permite movimentação mais livre ao resto dos jogadores que o rodeiam a atacar. Todos eles, alas ou segundos avançados, buscam rupturas desde trás, pelo que sentem mais dificuldade quando nesse lugar em vez de uma referência fixa surge um nº9 mais móvel, como Rodrigo, que, nessa mobilidade, sobrepõe-se muitas vezes nesses outros espaços aos outros jogadores, sobretudo nos flancos, retirando o melhor jogo posicional para a dinâmica ofensiva da equipa nos últimos 25/30 metros.
Rodrigo pode jogar na faixa, mas não é um ala. Fez por vezes essa posição no Bolton mas num modelo de jogo mais anárquico, sem a maior exigência de posicionamento que o futebol português exige. Quando Jesus disse que mudou a táctica com que entrou, falava sobretudo do posicionamento dos jogadores. Variando as suas características, mudava as dinâmicas de cada posição.
Funcionou em alguns pontos. Com Bruno César (bem a passar no centro) ou Witsel (que sabe dar largura, jogar e voltar para dentro) mas não favoreceu Rodrigo que necessita de um enquadramento táctico-posicional (com mobilidade, claro) mais definido, para não se perder por entre constantes trocas posicionais sem nunca encontrar o seu melhor espaço.
A solução nunca é fácil e estará, em campo, na tal a cabeça dos jogadores em confronto consigo próprio. Trata-se de jogar bem individualmente sem ferir a ideologia móvel colectiva.
