A BULGÁRIA DE STOICHKOV

27 de Dezembro de 2001
O futebol rebelde de Stoichkov e Balakov moldou a aventura búlgara, mentora dos melhores momentos vividos pelo futebol de leste nos anos 90, embora com um estilo, que por ser sobretudo um must de individualidades, foi o oposto da sua tradicional velha escola. Um contraste de estilos, uma simbolica fronteira que, dentro das quatro linhas, espelhou os ventos de mudança.
O terno roncar do Mercedes cabriolet que estaciona junto ao Hotel Princesa Sofia em Barcelona, a poucos quarteirões do gigantesco Nou Camp, não suscitaria por si só especial atenção no meio de tantos sinais luxuosos que espreitam do hall de entrada. Dentro dele está, no entanto, o génio que dinamitou o talento de toda uma inteira geração e com um carácter indomável vulcanizou o futebol da Catalunha e, muitos quilómetros a leste, o de toda a nação búlgara: Hristo Stoickov. Pode um jogador mudar sozinho o curso do destino? Esta é uma das tais perguntas que nunca se deve fazer a um homem com o ego do tamanho do explosivo búlgaro de Plovdiv. Tal nem mereceria que se perdesse tempo a responder. É evidente que sim. Desde que esse homem, mortal na vida humana, imortal no brilho dos relvados, se chame Stoichkov. Apesar de ser um participante usual nos Campeonatos do Mundo, a Búlgária chegara ao limiar do século sem produzir, na sua essência, uma verdadeira grande equipa e um autêntica estrela capaz de figurar ao lado dos melhores jogadores do mundo. Em meados dos anos 80, por fim, um irascível avançado deslumbrava as multidões de Sofia e começava a fazer-se falado na Europa, envergando a pesada camisola do CSKA, filho preferido do regime socialista búlgaro do pós-guerra, data a partir da qual passou a figurar ao lado dos seculares Levsky e Slavia, todos de Sofia, historicamente os mais fortes clubes do futebol búlgaro. Por várias vezes, por confusões políticas ou por ditames presidenciais, o CSKA mudou de nome. De 1985 a 1989, foi Sredetz. Em 1990, como em quase todo o leste, o poder político caiu e o clube, que saiu do controle militar, recuperou o seu lendário nome de CSKA, Centralen Sporten Klub na Armiata, que paradoxalmente eterniza a sua origem militar. No mesmo ano, Stoichkov, o mago búlgaro que conseguia virar um jogo sozinho partia rumo ao sonho de uma vida: jogar no Barcelona sob as ordens de Joahn Cruyff.
Ao contrário de todos os outros países de leste que após a queda dos regimes socialistas que os suportaram durante grande parte do século, viram o seu futebol outrora temido perder força e capacidade competitiva no decorrer dos anos 90, a Bulgária descobriria exactamente nessa era a sua geração de ouro, liderada no banco pelo treinador Penev, velha glória do CSKA e da selecção dos anos 70. O futebol rebelde de Stoichkov, Balakov, Kostadinov, Letchkov, Ivanov e Sirakov, moldou a aventura búlgara, mentora dos melhores momentos vividos pelo futebol de leste nos anos 90, embora com um estilo, que por ser sobretudo um must de individualidades, foi o oposto da sua tradicional velha escola. Um contraste de estilos, uma símbolica fronteira que, dentro das quatro linhas, espelhou os ventos de mudança e teve o seu apogeu no Mundial 94, nos EUA, quando, após afastar a poderosa Alemanha, acabaram o torneio em quarto lugar. Por entre a imensa euforia que invadiu todo o país, Stoichkov emergiu como um Deus do futebol búlgaro. Melhor marcador do Mundial, com seis golos, os mesmos do russo Salenko, e vencedor da Bola de Ouro, para o melhor jogador europeu do ano, um trofeu que já perseguia, sem sucesso, desde há várias épocas. Stoichkov foi em jogador empolgante, encostado quase sempre a um flanco, quer o esquerdo quer o direito, era uma constante vê-lo de braço no ar, pedindo a bola, seu objecto de desejo. Veloz, agressivo e virtuoso era um fosso de emoções.
Quando se analisa “o perfil dos jogadores”, dois aspectos dividem-se, aquilo que os jogadores produzem nos relvados e o que são fora deles, enquanto homens. Para muitos o golo que se marca ou a grande jogada são tão importantes como a dimensão humana, o comportamento social. Robert de Niro numa entrevista onde fala da forma como constrói as suas personagens na película com uma mescla de anarquia e disciplina conta que “quando decido interpretar tento primeiro entender a personagem em toda a sua existência, corpo e alma. É, de inicio, um processo intuitivo, emocional e comtemplativo dirigido pelo intelecto. Primeiro permite-me ser selvagem e excessivo, depois devo fazê-lo de forma precisa e controlada”. São assim os grandes actores, serão assim os grandes jogadores de futebol. Os grandes artistas dos relvados na última década do século escondem a arte sob a provocação e o imprevisto sob a agressividade. Com o génio e a loucura confundindo-se. Jogos de luz e sombra. O olhar de Stoichkov, com o eco dos aplausos como “cenário de fundo” vislumbrava, a cada passo, a posse da bola, símbolo do seu império. O êxtase do estilo impressionista das “estrelas” do futebol dos anos 90. Stoichkov parecia feito de um outro material, de uma linhagem diferente. Um talento puro no verdadeiro sentido etimológico do termo, guiado por impulsos sedutores e perturbantes, incómodos e agressivos, com o condão de deslumbrar e provocar, mas nunca submisso. Após um período de acesas polémicas, acabou por sair para o Parama, em conflito aberto como Cruyff. Um ano depois, com a saída de El Flaco, regressou, com o menos nariz empinado, e continua com o mesmo estilo genial e polémico. Genial, mas não louco: "Louco, eu? Não, pelo contrário, tenho é carácter. Como todos os grandes jogadores. Platini não tinha carácter? E Fernandez, o melhor médio de sempre? E Cantona ou Michel? Ele é indispensável para triunfar. Sou um génio, sim, mas não louco, apenas adoro com o meu jogo e poder oferecer prazer a quem me vê jogar. Tenho meios para isso, não me vou privar deles." Mas, por vezes o comportamento no relvado de Stoichkov atinge os limites do aceitável. Sempre a reclamar e a gesticular com árbitros e fiscais-de-linha, em 1992 foi suspenso por seis meses após pisar um árbitro, revoltado por este o expulsar na sequência de protestos sucessivos num jogo com o Real Madrid para a Super-Taça de Espanha: "Faço muitos gestos e falo muito? E depois? Prefiro isso que atingir um adversário. Mas quem são os árbitros? Eles gostam de expulsar jogadores como Schuster, Futre, eu e outros só para fazerem publicidade de si próprios, apenas isso!"
Quando jogava Stoichkov era um poema épico, mas, num ápice, tornava-se "exterminadores", rebelde com ou sem causa, na senda da máxima de James Deen, "viver depressa e morrer novo". Quase reinvenções dentro de um campo de futebol, das figuras de Dr.Jeckyl e Mr.Hyde! Amen-no ou deixem-no. Apaixonado, o futebol búlgaro elegeu-o como o seu grande símbolo. Com a sua retirada, vive de novo num estado de anarquia sem magos que a decorem, pelo que os grandes feitos são quase impossíveis de se repetirem nos tempos próximos. Blagodarya Hristo Stoichkov! Obrigado, Hristo Stoichkov!

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