O cenário, a sumptuosidade do Estádio Olímpico de Moscovo, é o mesmo, mas entre este actual onze russo e as velhas selecções soviéticas de outrora, já não existe qualquer ponto de contacto. O estilo colectivo e automatizado desapareceu e mesmo os valores individuais (antes muitos de origem ucraniana) também já não têm a mesma dimensão. Nos últimos x anos, desde a desintegração da URSS, a nova selecção russa tem alternado momentos altos com outros menos brilhantes. O actual, no rescaldo do Euro 2004, é um momento de indefinição, que se espelha, friamente, nas fracas exibições realizadas nos últimos jogos, nas quais se cruzam vários factores, desde opções tácticas, entre o 4x4x2 e o 4x1x4x1, até questões individuais e colectivas do onze.
Defesa:
Ignashevich, o novo patrão

Em termos defensivos, Yartsev que nunca conseguiu, devido a lesões e castigos, apresentar o seu melhor quarteto recuado, sobretudo no centro, durante o Euro-2004, demonstra a intenção de abrir um novo ciclo, naquela que é, claramente, a maior alteração individual registada no abrir da campanha para o Mundial 2006: a substituição, no eixo da defesa, do patriarcal capitão Onopko (35 anos, 111 internacionalizações, um símbolo do futebol russo) pelo jovem Kolodin (22 anos, revelação do Krylia Sovetov). A alteração registou-se, pela primeira vez, num particular contra a Lituânia verificado em Agosto, onde a boa exibição de Kolodin, então a estrear-se pela selecção, garantiu-lhe um lugar de titular no primeiro jogo de qualificação para o Mundial, frente á Eslováquia, no qual Onopko já nem seria convocado. Na base da alteração, a clara fase de declínio em que entrou Onopko, cada vez mais lento e, embora ainda sábio a posicionar-se, sem rins, velocidade e jogo de cintura perante adversários mais rápidos ou móveis como hoje quase todas as selecções possuem. É, no fundo, uma natural transição geracional, como também sucede na selecção portuguesa.
Como novo chefe do sector, ressurge o elegante Ignashevich, afastado da selecção, devido a lesão, desde Abril. É um central muito personalizado, tranquilo com a bola nos pés e a orientar a defesa. Não é muito rápido mas sabe ler o jogo e dominar todas as coordenadas dos movimentos defensivos, qualidades que aos xx anos estão perto de atingir a maturidade, hoje no CSKA, como antes no Lokomotiv de Moscovo. Com Kolodin lesionado, os outros principais candidatos ao eixo defensivo central, são Sharonov, mais aguerrido nas dobras e no tackle (foi titular frente á Eslováquia, mas saiu do grupo nesta nova convocatória) e Bugaev, que, faces ás lesões então verificadas, fizera a sua estreia internacional no Euro-2004. É, ele face ás circunstâncias, o novo titular ao lado de Ignashevich. Alto e esguio (1,99m. e 70kg.), impõe-se no jogo aéreo e dobra bem na esquerda. Falta-lhe alguma agressividade nas bolas divididas, mas sabe colocar-se muito bem no terreno. Se há um ponto fraco a apontar a esta dupla de centrais Ignashevich-Bugaey é, sobretudo, a sua falta de velocidade.
Nas laterais, três nomes fixos: Sennikov, lateral esquerdo, Evseev, que pode jogar nos dois flancos, e Anyukov, lateral direito, a nova opção de Yartsev para a titularidade, numa aposta que já nascera no último jogo frente á Grécia no Europeu 2004 e manteve-se no inicio do apuramento para o Mundial-2006, surgindo Evseev sobre a esquerda. São jogadores diferentes, Anyukov é um lateral mais ofensivo, atleticamente forte, sobe com perigo pelo flanco, cruza e, depois, também fecha muito bem defender. Evseev é um polivalente, que também pode jogar á direita, o seu lugar mais natural. Na esquerda, preocupa-se sobretudo em manter a segurança defensiva.
Meio campo:
Smertin, o cérebro, Arshavin, o inventor

No meio campo, sector onde se conciliam médios de contenção e recuperadores com criativos e flanqueadores, Yartsev busca encontrar um novo equilíbrio. Numa primeira análise, finda a era de Mostovoi e com Loskov, nº10 do Lokomotiv Moscovo, fora de forma e não convocado, falta um médio centro que seja a principal referência na organização de jogo e circulação de bola, sobretudo na fase de dinâmica ofensiva, visto que atrás, á frente da defesa, Smertin, um dos médios-volantes de contenção com maior amplitude de movimentos e visão de jogo bífida a fechar espaços e a iniciar a transposição defesa-ataque, continua indiscutível. Na intenção de descobrir um novo organizador, Yartsev procurou resgatar Khokhlov, um médio com grande cultura táctica, que sabe deambular muito bem por todo o meio campo sem nunca perder o sentido posicional, mas, nesta fase da carreira, de regresso á Rússia, ao Lokomotiv, pois de passar pelo PSV e pela Real Sociedad, encontra-se já numa fase de, digamos, descompressão competitiva. Apesar do seu valor, falta-lhe carisma para ser o líder de uma selecção. Desta forma, enquanto Alenitchev, também a jogar actualmente no Lokomotiv, continua a ser um jogador intermitente, alternado grandes jogadas com períodos de apagamento, quem emerge agora como revolucionário criativo é o novo nº10 Arshvin, o inventor, 23 anos, jogador do Zenit St.Peterburg. Finta, passa, organiza e remata. Sempre em velocidade, de pernas e pensamento, dominando a bola, em progressão, destribuindo jogo ou furando pelas defesas adversárias. Fixem o seu nome e sigam-lhe os passos: Andrei Ashfiev, está ali um médio espectacular.
Ataque:
Sychev, o caça-golos

O sector atacante é hoje aquele onde Yartsev dispões de uma variedade de opções mais sólidas, em termos de qualidade e versatilidade de estilos, podendo combinar avançados rápidos, dos que furam pelos flancos ou vindos de trás com os clássico ponta de lança peitudo que gosta de jogar entre os centrais. Nesta análise, quatro nomes a fixar: Bulykin (Dinamo Moscovo), Kirichenko (CSKA), Sychev (Lokomotiv Moscovo) e Kerzhakov (Zenit St.Peterburg). Como clássico ponta de lança, Bulykin, um tanque, poderoso cabeceador, muito forte nas jogadas de choque e nas chamadas segundas bola, onde exerce o seu grande poder fisico. Kirichenko, suplente no CSKA, tecnicamente limitado, é mais do tipo de entrar de trás. Com Kerzahkov lesionado, a melhor notícia para Yartsev reside no regresso aos golos de Sychev (hart-trick contra o Luxemburgo). Veloz e oportuno, com grande poder de desmarcação, é o tipo de avançado fantasma que surge do nada. Quando a bola está longe, costuma refugiar-se nos flancos, recuando muito, escondendo-se dos defesas, mas, depois, num ápice, quando a bola chega á área ou nas suas imediações, surge em velocidade, nos espaços vazios, com grande instinto goleador, revelando muito eficaz a rematar em corrida quando isolado frente ao guarda-redes.
A táctica:
O 4x4x2, versão 4x1x3x2

Tacticamente, Yartsev está longe de ser considerado um grande estratega. Muitos apontam-lhe mesmo a falta de astúcia em mexer na equipa com o jogo a decorrer. Quando tomou conta da selecção, marcou a ruptura com o ciclo anterior por, ao contrário do antecessor Gazzev, adepto do 3x5x2, passar a adoptar o 4x4x2 e suas variantes, sistema que alterna com um elástico 4x1x4x1, dinâmica táctica adquirida a partir do 4x2x3x1 através da subida de um médio defensivo.
Contra o Luxemburgo, Yartsev repetiu o mesmo sistema utilizado frente á Eslováquia, um 4x4x2 esquematizado em 4x1x3x2, no qual Smertin continua a ser o volante organizador desde a zona dos trincos. No restante composição do meio campo, três alterações: saíram Khokhlov, Alenitchev e Kariaka, entraram Gusev, Kantonistov e Arshavin.
Apesar da goleada (0-4), a vitória só foi construída no segundo tempo, após a correcção da dinâmica inicial, comprometida pela pouca profundidade de jogo dada pelo meio campo, onde o estreante Kantonistov se revelou uma aposta falhada. A melhor fórmula para o sector intermediário russo, disposto em duas linhas «1x3», surgiria após a entrada de Boyarintsev para a ala esquerda, muito perigoso a penetrar pela faixa e abrindo o jogo atacante da equipa a toda a largura do terreno. Na direita, manteve-se a técnica lutadora de Gusev e, no centro, á frente de Smertin, emergiu a visão de jogo em velocidade de Arshavin. Foi ele, com a sua criatividade ofensiva que reacendeu as luzes da equipa, guiando até á vitória e servindo o ataque, onde Bulykin e Sychev formam uma dupla muito forte no plano da complementaridade. Enquanto um choca com os centrais, o outro foge ás marcações e entra nas suas costas.
Contra Portugal, Yartsev poderá, no entanto, optar por uma variante mais defensiva do 4x4x2, o que poderá suceder através da entrada de mais um médio central defensivo (Aldonin), saindo um ala (Gusev ou Boyarintsev), de forma dar maior coesão defensiva ao onze, sobretudo à frente da defesa, onde costuma revelar grandes lacunas de marcação, dando muitos espaços para os adversários triangular, rematar ou executar passes verticais para os avançados. Tal deve-se, sobretudo, a jogar, preferencialmente, só com um trinco (Smertin). Se, ao invés, optar pelo 4x5x1 ou pelo 4x1x4x1, sairia um ponta de lança para ganhar superioridade numérica a meio campo, jogando depois em contra-ataque. É, no entanto, mais provável que jogue na primeira opção táctica.
A Táctica que ganhou no Luxemburgo /
Sistema táctico: 4x1x3x2

Mantendo a mesma variante do 4x4x2, estendido em 4x1x3x2, a nova dinâmica ofensiva surgiu com a abertura do jogo a toda a largura do terreno, através, á esquerda, da entrada do ala Boyarintsev, e, á direita, das triangulações Anyukov-Gusev, enquanto que, no centro, Arshavin, escudado por Smertin, ganhou maior liberdade de movimentos.