Imagine-se num restaurante de Roma ou Milão. Se numa mesa ao lado, ouvir dizer que os italianos sob qualquer pretexto deixam de atacar, é porque falam de mulheres. Se, pelo contrário, ouvirem dizer que sempre baseiam tudo na defesa, é porque falam de futebol. Apesar de irónica, podem crer que esta imagem não é exagerada.
Embora as grandes equipas do Calcio já se revelem mais sensíveis aos artistas (Del Piero, Totti, Káka…) e aos profetas ofensivos do golo (Adriano, Ibrahimovic, Shevchenko…), a diferença na luta pelo título baseia-se sobretudo na inteligência táctica defensiva. Um bom exemplo desta tese é o actual Milan.
Explode nos últimos 20 metros com avançados terríveis, mas, no resto das quatro linhas, revela insegurança e pouca fluidez de jogo. Desde logo na acção defensiva, onde não apostou esta época ao contrário dos rivais de Turim. Os centrais, Nesta-Maldini revelam cada vez menos jogo de cintura. Stam fixou-se a lateral direito ( a outra opção é o limitado Simic) e Kaladze, lateral de origem, é muitas vezes utilizado (nas ausências do veterano Maldini), como central.
Para além disso, o quarteto defensivo carece também da cobertura que seria feita pela primeira linha do meio campo onde em vez do muro de recuperadores da Juventus (Vieria-Emerson), Ancelotti aposta na leveza de Pirlo, impecável a sair a jogar, mas sem a mesma agressividade na recuperação, pelo que essas tarefas de pressing sem bola acabando por ser quase sempre feitas pelo duro Gattuso que báscula desde a direita.
Jogando em 4x3x1x2, o onze revela também grande insuficiência a atacar pelas faixas. Enquanto a Juventus, solta, à esquerda, Nedved e, à direita, Camoranesi, ambos apoiados, quando fazem diagonais, pelas subidas de Zambrotta, dependendo do flanco onde joga (para além de ainda ter, no banco, o extremo romeno Mutu), o Milan não tem extremos puros e afunila muito o jogo na conclusão ofensiva, ficando a profundidade pelas faixas dependente quase só das investidas do lateral esquerdo Serginho, mas cuja primeira preocupação é defender, pois à sua frente joga Seedorf, destro, e que, com vocação de organizador, tende muitas vezes a flectir no terreno, procurando triangular com Kaká.
Como se os olhasse do fundo da sua impenetrável caverna, Capello, em Turim, nem pestaneja na hora de ordenar o seu granítico onze. Os 12 pontos de avanço são, tão só, o espelho destas diferenças tácticas.
Neste cenário, o Inter de Mancini assume-se quase como uma terceira via, mas ainda presa aos arquétipos transalpinos que o impede de dar o último passo rumo a um projecto futebolístico mais atraente.
Por vezes, o seu Inter parece pronto a dar o salto, mas, na hora da verdade, como fica com um pé preso ao passado e a ditadura resultadista volta a inspirar um estilo cínico que procura alargar o campo, provocando muitas vezes uma excessiva distância entre linhas, sobretudo meio campo-ataque.
Livorno e Fiorentina: Donadoni e Prandelli

Procurando por revelações nos bancos do actual futebol italiano, um nome emerge claramente esta época: Roberto Donadoni.
Embora um abismo ainda o separe dos três grandes, o seu Livorno, actual 6º classificado, sem grandes estrelas, é a prova de como, numa equipa algo envelhecida, a táctica pode fazer a diferença. Apesar de criado no Milan de Sacchi, preconiza como sistema preferencial o 3x5x2. Os princípios da zona e do pressing a meio campo continuam, porém, presentes.
Como destaque, um excelente ponta de lança, Lucarelli, 30 anos, peitudo, que procura segundas bolas e remata forte. A defesa a »3» é composta por Grandoni, 28, Galante, 32 e Vargas, 29, todos muito experientes. Nas alas, Coco, 28, à esquerda, e Balleri, 36, à direita. Na batalha do meio campo, o Passoni, 31, é o trinco, apoiado por De Ascentis, 29 e Morrone, 27.

Guiada pelos golos de Toni, a Fiorentina tornou-se uma das sensações do actual campeonato, actual 4ªclassificada, lutando por um lugar na Liga dos Campeões. Treinada por Prandelli, um técnico que entende como poucos em Itália o conceito mesclado de táctica e bom futebol, o onze viola dá gosto de ver jogar.
O seu habitual modelo é o 4x4x2, com dois médios-centro defensivos, Brocchi e Pazienza ou Donadel, com capacidade de recuperação e transporte de bola. Neste modelo, a zona de construção nas costas da dupla de avançados Pazzini-Toni, é ocupada por Fiore com diagonais vindas da direita, enquanto, à esquerda, Jorgensen, um destro encostado à faixa canhota, procura as zonas interiores sobretudo em apoio.
Assim, com os alas a flectirem no terreno, cabe muitas vezes aos laterais fazerem o corredor a atacar, destacando-se, nessa tarefa, Pasqual, médio ala de origem, na esquerda, e Ujfalusi, central de origem (lugar que ocupa, aliás, na selecção da Republica Checa), à direita. No eixo da defesa, uma sólida dupla de centrais, Danielli-Gamberini, fortes no jogo aéreo e na marcação ao homem.
Como sistema alternativo, Prandeli pode utilizar o 4x2x3x1, inserindo mais um médio, Montolivo, que descai sobre a direita, puxando Fiore para o meio. Outra opção, testada frente à Juventus, foi o 4x4x1x1, com três trincos, saindo Jorgensen e recuando Pazienza. Tal variante retira, porém, a interessante complementaridade da dupla de pontas de lança, pois enquanto Toni joga em choque, Pazzini, mais rápido e esquivo, entra bem nos espaços vazios.