A CHINA E MILUTINOVIC: O PRIMEIRO IMPERADOR

27 de Dezembro de 2000
BORA MILUTINOVIC E A SELECÇÃO CHINESA (Mundial 2002)

Começa hoje, por entre gueixas e exóticos sons orientais, frente ás Maldivas, a maior aventura do trotamundos do futebol, Bora Milutinovic. Depois do México (86), Costa Rica (90), EUA (94) e Nigéria (98), será este feiticeiro servio capaz de qualificar a China, pela primeira vez na história, para a fase final de um Mundial? Para tal, terá de contornar os ditames do ultimo gigante comunista, que, após meio século de isolamento, começa por fim a mover-se.
Como que escondido atrás dos seus enormes óculos, tombados sobre a ponta do nariz, expressando um constante sorriso, Bora Milutinovic, o maior o trotamundos do futebol mundial, contempla a imensidão, infinita os olhos humanos, da inabalável Grande Muralha da China, construída na dinastia Ch`in, entre 207 e 221 a.C. como barreira à invasão de povos nómadas. Atrás dela, ergue-se um país, quase saído de outro planeta, que, pousando nos seus ombros os territórios de Xinjiang, Tibete, Mongólia Interior e Guangxi, alberga mais de um quinto da população mundial: a China imperial. Na alvorada do século XXI, porém, o último grande monstro do Comunismo, dá sinais de se estar a mover, depois de quase meio século de profundo hermetismo, moldado pelo regime de Mao, o grande educador, que chegado ao poder em 1949, sempre olhou de lado para o futebol, símbolo e vício do capitalismo ocidental, preferindo antes incentivar o Ténis de mesa ou a Ginátisca, desportos onde a China se tornou uma grande potência. Em 1954, A Federação chinesa de futebol seria mesmo suspensa da FIFA em 1954, devido ao problema político da Formosa e durante a chamada Revolução cultural, entre 1966 e 1972, o futebol deixou mesmo de ser oficialmente praticado em território chinês. Seria só em 1976, após 25 anos de solidão, que o futebol chinês regressaria ao relvados do mundo. Aos poucos, o gigante comunista começou a sentir os ecos do resto do mundo, e a muralha abriu algumas brechas por onde penetraram as sementes da economia de mercado e da iniciativa privada.

O LIVRO VERMELHO DO FUTEBOL CHINÊS

O futebol, apesar da desconfiança inicial dos seus directores, também acabou por sentir e seguir as mesmas influências ocidentais. Em 1994, depois de duas décadas regidas por um insípido campeonato amador inter-províncias, aderiu, por fim, ao profissionalismo e, inspirada na J-League japonesa, criou a chamada Marlobro League, nome imposto pelo grande patrocinador ocidental da nova Liga chinesa de futebol, disputada por 12 equipas, que mais do que clubes, são representações de diferentes cidades, recrutando, ao mesmo tempo, uma série de jogadores estrangeiros, que embora de segundo plano, onde se incluíram os portugueses Armando e Pedro Xavier, despertaram maior atenção para o novo campeonato. Viajante do futebol, Coach Bora, tem, agora, a missão de nessa atmosfera renovadora, reproduzir nos relvados de futebol, a imagem professoral e tutelar de Mao, tornado-se ele no grande educador da classe futebolística, capaz de guiar ao Mundial-2002, um país que tem cerca de 3 milhões de jogadores licenciados, e mais de 20 milhões praticantes regulares. Para escrever o Livro Vermelho do Futebol, Milutinovic tem, no entanto, de se debater com dificuldades enormes, impensáveis aos olhos europeus. Na China, a formação, pura e simplesmente não existe. Não existem campeonatos para as camadas jovens abaixo dos 17 anos e conseguir organizar um jogo particular com uma selecção europeia, é um tarefa quase impossível. No mês passado, o onze chinês esteve em Roma e defrontou a Lazio (derrota 6-3), e, nesse momento, após o brilhante 3º lugar na Taça da Ásia 2000, Bora percebeu as dificuldades de mexer num sistema que não se movia há pelo menos meio século.

ESTRELAS E SOMBRAS CHINESAS

Quando chegou a Pequim, em 1992, o anterior seleccionador alemão Klaus Schlappner definiu os jogadores chineses como dotados de grandes qualidades físicas e técnicas, mas mentalmente muito frágeis, só susceptíveis de ser motivados através de um disciplina quase militar. Mais do que um problema desportivo, uma questão cultural. Embora tenha crescido num país regido pelos rígidos ditames comunistas, o sérvio Milutinovic é, no entanto, um homem que cultiva uma relação de diálogo e passa horas a falar, de futebol naturalmente. Com ele as estrelas chinesas descobriram, finalmente, outros hábitos competitivos e iniciaram a revolução futebolística chinesa. Como principais símbolos estão os jogadores que actuam no estrangeiro, liderados pelo experiente médio polivalente Fan Zhiyi, 30 anos, jogador do Cristal Palace desde 1998, após toda a carreira em Shanghai. Junto com o central capitão Zhang Enhua, no Grimbsy Town, e Hao Haidong, que chegou a passar pelo Peñarol, ele foi o primeiro jogador a ter a permissão do fechado regime chinês para jogar fora do país. Hoje só Zhiyi continua para além da muralha, onde no inicio da época também estava o médio Ma Mingyuo, exótica contratação do Perúgia, desejoso de repetir o sucesso oriental de Nakata. Em Itália, porém, Ma sentiu-se fora do seu habitat natural e passou toda a época no banco acabando por regressar este mês ao Sichuan Quanxing, tal como o jovem ponta de lança Li Jinyu, 22 anos, contratado pelo Nancy, mas que, apesar do seu talento, nunca se adaptou ao futebol francês, acabando por regressar para jogar no Liaoning. Li Jinyu era sobretudo famoso por ter feito parte, em 1993, de um grupo de 20 jovens jogadores chineses entre 14 e 16 anos que, devidamente sponsorizados pela Federação chinesa, realizaram um estágio de dois anos no Brasil, formando o célebre Jianiaibao team, que, alternado os estudos com o futebol, participaram nessa época no campeonato regional de juvenis de São Paulo. O objectivo era lançar a semente do novo futebol chinês. A base desse onze estaria presente em 97, no Mundial Sub-20, mas acabou, depois, nos séniores, por não atingir a competitividade sonhada. Desta forma, o jogador chinês de maior projecção internacional no presente, é o avançado do Eintracht Frankfurt, Yan Chen, 28 anos, na Alemanha desde 1999, alinhando, na frente de ataque chinesa, ao lado do veloz Su Maozhen, num onze onde coexiste as jovem promessas Qi Hong, Shao Jiayi e Li Weifeng, e os experientes Xie Hiu, jogador do Kickers Offenbach, da 2ª Bundesliga, Li Tie, Li Ming, Sun Jiahi, de regresso á China após breve passagem pelo Cristal Palace e o elástico guarda redes Jian Jin. Para se tornarem profissionais de futebol licenciados pela Federação chinesa tiveram todos que passar por um rigoroso teste de aptidão física único no mundo. Todos eles tem um sonho comum: atingir um Mundial. Para tal terão de começar por passar a fase preliminar de qualificação, com as Maldivas, Cambodja e Indonésia, seguindo-se depois, em Novembro, a poule final de apuramento dos representantes asiáticos no Mundial-2002. Visando essa meta mágica, a Federação decidiu vetar as transferências para o estrangeiro durante todo este ano, de forma a criar maior espirito de grupo no onze nacional.

MILUTINOVIC : A VOLTA AO MUNDO EM FUTEBOL

Velibor Milutinovic chegou á China em Janeiro de 2000, após uma passagem sem sucesso no Metro Stars americano. Antes dele outros aventureiros tinham tentado lançar o novo futebol chinês, como o alemão Klaus Schlappner e o inglês Bob Houghton, famoso por levar o Malmoe á final da Taça dos Campeões em 1978, afastado após falhar o apuramento para os Jogos Olímpicos de Sidney-2000. Pelo meio, surgiu Qi Wesheng que também falhou a qualificação para o França-98. Para os directores do nº9 da Avenida Tiyuguan, sede da Federação chinesa de futebol, nenhum deles tinha, no entanto, o carisma, o saber e a experiência de Milutinovic. Apesar de afirmar ser especialista em surpresas, não em milagres, os chineses acreditam que Bora descubra a fórmula para levar, pela primeira vez na história, a China á fase final do Mundial, o que esteve muito perto de suceder na rota para o Itália-90, quando a nove minutos do final do jogo decisivo, com os Emiratos Árabes, os chineses venciam por 1-0, até que, perto do fim, surgiu o empate árabe. Se atingir este objectivo mágico, esta será a quinta presença de Milutinovic na fase final de um Mundial, como uma selecção diferente. Um feito inédito.
Mas afinal, quem é este homem que passa a vida a rir, com o cabelo penteado para a frente e que é frequente vermos no banco a desenhar complexos esquemas tácticos que partilha com os seus adjuntos e depois explica aos seus jogadores antes de uma substituição? É ele verdadeiramente um grande treinador? Em qualquer das opiniões possíveis, uma coisa é certa: Bora é um grande comunicador. Poliglota, fala espanhol, francês, servo-croata, italiano, inglês e já vai arranhando algumas palavras em chinês. Quem o conhece bem, diz que é, sobretudo, um grande pedagogo, que sabe cativar os jogadores e todos os que o rodeiam. Conta quem viu, que, no decorrer da última Taça de Ásia, quando os jogadores já descansavam nos quatros, pegou pelo braço numa jovem jornalista chinesa destacada para cobrir o torneio e foi com ela, para o jardim do hotel, explicar, com gestos e desenhos, como se deve executar um livre directo. Por outro lado, os jogadores sentem-se próximos dele. O capitão Fan Zhiyl confessa-se seu grande admirador e, tal como diz o guarda redes Jiang Jin, com ele a equipa cresceu muito tacticamente. Claro que muitas vezes ainda não entendemos e interpretamos na perfeição os seus conselhos tácticos, mas aos poucos, estamos a chegar aos 1000%.

DA VELHA JUGOSLÁVIA AO CALOR MEXICANO

A volta ao mundo em futebol de Milutinovic começou nos anos 60, quando se destacou como médio defensivo do Partizan Belgrado e, graças a uma especial autorização de Tito, obteve a autorização para sair da velha Jugoslávia e ir jogar na Suíça, no modesto Winterthur. Aguerrido, acabou por ser contratado pelo Mónaco onde começou as suas verdadeiras descobertas futebolistas. Na Côte d`Azur repartiu um apartamento com Michel Hidalgo e guarda uma especial recordação: “Nesse tempo, era obrigatório os jogadores do Mónaco dedicarem uma hora por mês a treinar e a falar de futebol aos miúdos das escolas. Ninguém ficava contente com isso, menos eu, que adorava. Um dos miúdos que treinei foi o príncipe Alberto.” Seria, porém, nos anos 70, que descobriria o seu verdadeiro país do futebol: o México. No sol e no calor do país dos sombreros, Bora encontrou um ambiente alegre que era o espelho fiel da sua personalidade. Jogou no Pumas e na UNAM, do qual se tornaria treinador em 1977, começando nas camadas jovens, onde descobre e lança um menino que mais tarde seria um goleador fabuloso: Hugo Sanchez. Em 1983, depois de já como treinador principal ter ganho 3 campeonatos pelo UNAM, é nomeado seleccionador nacional mexicano, rumo ao Mundial-86. Estava lançada a sua cruzada pelos quatro continentes da bola. Quando se procura diminuir a aura de Magic Bora, muitos definem-no como um mercenário do futebol que falhou no competitivo e frio futebol de clubes. Foi o caso da sua passagem pela Udinesse, em 86/87, depois do Mundial do México, onde foi afastado após quatro derrotas nos primeiros quatro jogos. Seguiu-se, depois, o San Lorenzo da Argentina, mas o fracasso repetiu-se. Desiludido, decide regressar a casa, no México, até que surge o convite da Costa Rica, que coloca no mapa do futebol. Em 1991, iniciou- se o projecto americano, preparando o Mundial-94. Com ele, os norte americanos aprendem o rigor táctico e o profissionalismo que ainda hoje são as raízes do progresso do seu futebol. Hoje, 30 anos depois da sua chegada ao México, em 1972, Milutinovic, 59 anos, solidificou a sua vocação de treinar equipas de selecção, sobretudo de países pouco desenvolvidos futebolisticamente, onde possa expressar, através do seu invulgar perfil de pedagogo da bola, todos os seus conhecimentos técnico-tácticos. Foi esta imagem que o levou, no limiar do século, aos caminhos de Pequim.

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