A ciência da intuição

26 de Maio de 2009
A importância de estar quieto! Perceber as equipas, percebendo a posição mais «táctica» do onze.

 

Jogar bem é a arte de decidir bem. A cada momento. Em qualquer jogo. Diz Kasparov, mestre do xadrez, que “independentemente do campo em que a decisão é feita, há sempre elementos similares neste processo. Uma das regras básicas é confiar na intuição!”. É esta qualidade que nos diferencia dos simples microprocessadores. Numa equipa de futebol, há posições e momentos onde esse consciente «não consciente» é decisivo para o jogo colectivo funcionar.
 
Tacticamente, a posição (espaço) do pivot-defensivo, o velho trinco, é perfeita para perceber estas ideias. Ele tem de ser o valor estável dentro da equipa. Ao mesmo tempo, âncora e farol. Decidir bem, sempre no mesmo lugar mas com cenários que vão mudando. Por isso, Kasparov dizia que outro segredo da boa decisão é “saber parar a pesquisa. Muitas vezes os gestores perdem-se em informação e gastam demasiado tempo a decidir”. Ou seja, descodificando estas metáforas, o nº6 deve sonhar em ser só pivot. Aquele que, primeiro, dá à equipa consistência e referências de equilíbrio (posicionamento) e, depois, é a primeira referência na saída de bola em transição defesa-ataque.
 
No primeiro momento, o mais importante é mesmo saber estar parado, no sitio certo, para reequilibrar a equipa e o jogo posicional dos outros jogadores. Lá está, saber parar a pesquisa. Depois, é a capacidade de lhes dar sinais de movimento e sair a jogar gerindo ritmos (temporizar ou mais rápido). Por isso, o esvaziar do sentido da velha palavra trinco, expressão clássica de outro futebol, outra forma de pensar o jogo, o nº6 como tranca à frente da defesa.
 
Seguir os pivots do campeonato não é entusiasmante. Nos grandes, o losango do Sporting sofreu com a lentidão de Veloso ou Rochemback (sempre com muito espaço livre à frente) para dar ao jogar da equipa bons timings de decisão no ritmo e passe em transição ofensiva. No Benfica, a opção pelo duplo-pivot, sem primeiro afinar a sua complementaridade funcional, hipotecou a dinâmica de jogo dos donos daquele espaço. Sem intuição, passaram a ser jogadores-microprocessadores incapazes de entender as cambiantes dos diferentes jogos. No FC Porto, Fernando começou consciente, realista e, com o tempo, foi-se tornando intuitivo. De âncora a farol, sem perder as bases. Da posição e do jogo. 
 
Pelo resto do campeonato, detectam-se pivots com diferentes formas de vida. Poucos, porém, com intuição inteligente, mas vendo como, Nuno Piloto, na Académica pós-Pavlovic, estabilizou o jogo do onze a partir desse farol, ou como Bruno China guiou o Leixões na sua melhor fase da época, percebe-se a influência desse jogador (e posição) no equilíbrio táctico colectivo. O Guimarães nunca teve um jogador desses e o Marítimo confundiu as funções de Bruno com as de Olberdam. No Braga, Vandinho, antes médio de transição queima-linhas, aprendeu a jogar nessa posição quando aprendeu a estar…parado. Como que ganhou uma nova intuição.
 
Em todos, na base da chamada intuição inteligente, paciência e linhas de orientação.

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