É duro perder alguém de quem gostamos muito. Depois do trauma inicial, a ânsia de encontrar alguém que ocupe esse vazio ainda pode ser mais sinuosa. Porque a tentação é procurar pessoas iguais. E isso não existe (podem, quanto muito, ser fisicamente semelhantes). Não chega. Pode parecer estranho, mas com este início filosófico estou mesmo a tentar falar de futebol.
O pior que se pode fazer é avaliar uma equipa a partir das ausências, ou melhor, dos jogadores que já partiram. Porque, no fundo, dessa forma, está-se a analisar…outra equipa. No caso encarnado, porém, é impossível fugir a essa tentação porque uma coisa está directamente relacionada com a outra, tal a forma como Jesus tenta jogar como se ainda tivesse no onze Di Maria e Ramires, quando, na realidade, já não tem os tem, e, pior, nem sequer lá estão jogadores com características semelhantes. Por isso, nasceu aquele atraente 4x3x3 da pré-época. Porque voltou então ao 4x1x3x2? A resposta será demasiado simples mas é só uma: porque é o seu sistema preferido, com que ganhou (e jogou bem) em Braga e na Luz.
Mas, as circunstâncias mudam. E o actual jogar benfiquista parte hoje desse desvio de pensar um jogo para jogadores que não têm (na realidade e nas características, nem Amorim é Ramires, nem Peixoto ou Coentrão são Di Maria). Por isso, o 4x3x3 (com Saviola e Jara abertos como falsos alas) pareceu tão interessante para reconstruir a movimentação atacante. Evitava a necessidade de extremos puros para dar profundidade aos flancos (porque os ocupava de outra forma) e construía de forma diferente a meio-campo.
Quando mexe, é, quase sempre, no mesmo lugar: ala-esquerdo. Gaitan, Peixoto, Coentrão. Significa que está lá o centro do problema? Sim e não. Estará lá, quanto muito, a solução para atacar no um-para-um. O anterior Benfica tinha, porém, uma arma táctica poderosa para fazer isso. Era a forma como recuava o meio-campo, e assim, convidava venenosamente as defesas adversárias a subir, surpreendendo-as depois no espaço que deixavam nas costas. Ora esse plano táctico era sobretudo obra dos médios. Sem esse princípio, atacar passa a ser uma sucessão choques contra equipas encurraladas em bloco-baixo (algo que já na época passada tinha dificuldade em ultrapassar).
Noutro ponto, ver o 4x4x2 do Sporting deixar de ter, como início, pivots de construção verdadeiros para plantar um central adaptado (Carriço), sem a mesma cultura de saída de bola é, desde logo, um acto de contra-natura táctica. Colocar Matías Fernandez a partir de uma ala, retira-o do seu habitat natural, o centro da segunda linha. Após uma sedutora pré-época, com o mesmo desenho, Paulo Sérgio mexeu nos seus intérpretes e, com isso, adulterou os conceitos.
Em suma, tudo isto (Benfica e Sporting) explica bem como, no futebol, não faz sentido falar em «troca por troca». Existem mesmo pessoas (jogadores) insubstituíveis. É uma questão conceptual. A falta de um jogador, resolve-se com um jogador…diferente. A clonagem táctica não existe.